segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Ao BAI quem não VAI mais, sou eu

     A forma como alguns bancos, como o BAI (Banco Angolano de Investimento) trabalham, é de tirar um cidadão do sério.Sou cliente deles há mais de uma década, quando se instalaram aqui em Benguela. Há uns quatro anos, adquiri os seus serviços de cartões de crédito "VISA " chamado "Kamba". Tive também alguns trocos em aplicativos. Na verdade, não tive razões de queixas até ali. Quando rebentou a crise, deixei de ter acesso aos meus trocos, mas lá fui movimentando aos poucos. Agora, surge o problema: o meu cartão VISA tem o prazo de validade expirado e o BAI diz que só aceita renovar caso eu aceite domiciliar o meu salário nos seus balcões. Ora pópilas, já não entendo nada disso!
      "Mas ó meu senhor sub-gerente, eu tenho 600 mil kz na minha conta e não vim aqui pedir empréstimo nem financiamento, só quero renovar o meu cartão porque necessito ir fazer uma cirurgia à vista, no estrangeiro, corro o risco de perder a vista, entende? ".
      - " São ordens de Luanda, não posso fazer nada"!
     Claro que podia reclamar para Roma grande (Luanda), claro que poderia ir ao INADEC e fazer valer os meus direitos perante uma cláusula perfeitamente abusiva do banco . Quando venderam o serviço não puseram esta condição, que considero totalmente absurda. Mas como já estou farto de ser abandalhado nos bancos onde encontro gerentes e sub-gerentes sem preparação técnica e brio profissional (estou quase certo que muitos não sabem sequer o que é um banco) preferi levantar os meus 600 paus e encerrar a conta no banco BAI. Não aceito ser tratado como mendigo por cima do meu dinheiro. É pouco mas é meu e trabalho para ganhá-lo. E utilizo a rede social Facebook na certeza de que algum responsável daquela instituição venha a ter contacto com a minha reclamação de um problema que de certeza outros clientes vivem.
       Por enquanto quem ao BAI não VAI sou eu.
       Assim não!!!
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

59 aniversario: O MPLA, O POVO E A CHUVA


                           59 aniversário
               O MPLA O POVO E A CHUVA
O Movimento Popular de Libertação de Angola completa hoje, 10 de Dezembro de 2015, exactos 59 anos de existência.
Em África, provavelmente dois dedos da mão serão suficientes para contar as organizacoes políticas detentoras de uma longevidade que se estende para além de meio século de existencia. E o "Eme" tem a particularidade de estar 40 anos consecutivos no poder no nosso pais. É obra!
Entrei nessa organizacao política como combatente quando era muito jovem, em 1975, com os meus companheiros José Manuel Ramos "Zezito" e Francisco Caldeira "Do".
Na realidade, foi no MPLA que cresci e me fiz Homem.
Nesta data, aproveito para saudar de forma fraterna todos os camaradas da minha geração, com os quais partilhei os momentos difíceis que a nossa Angola viveu, desde a proclamação da independência nacional até à conquista da Paz definitiva.
Nesta ocasião, recordar também os nossos mais-velhos fundadores, uma plêiade de nacionalistas convictos, de todas as origens, alguns dos quais conhecemos pessoalmente, quando eles chegaram às cidade, vindos do "maquis", do exílio ou da clandestinidade, 41 anos atrás. Eram pessoas humildes e dedicadas e a mensagem que nos transmitiram foi que era chegada a hora de concretizar o sonho de várias gerações de angolanos escravizados na sua própria terra. Nós acreditamos no que eles nos transmitiam porque, mesmo naquelas idades, já sentíamos os efeitos da repressão e da injustiça coloniais.
Hoje por hoje, muitos anos depois, infelizmente, já não os temos todos em nosso convívio, mas o seu legado permanece vivo e para sempre perdurará nos anais da nossa Historia.
Entre eles, humildemente, gostaria de ressaltar os nomes dos camaradas Agostinho Neto, Lucio Lara,Viriato da Cruz, Mario Pinto de Andrade, José Eduardo dos Santos, Deolinda Rodrigues, Joaquim Kapangu, Hoji-Ya-Henda, Daniel Chipenda, Mbeto Traca, Pedro Maria Tonha "Pedalé", Paulo Jorge, Dino Matrosse, comandantes Benigno Vieira Lopes "Ingo", Juju, Valódia, Gika, Jacob Joao Caetano " Monstro Imortal", Benga Lima "Foguetão ", Iko Carreira, Saidy Mingas, Kavunga, Kassanji, Faceira, Augusto Chipenda, Carlota, Bela Russa, os músicos Santocas, a Banda Kissanguela, Rui Mingas, Calabeto, Barcelo de Carvalho. E muitos outros.
Destaco esses maiores, porque foram eles que nos inspiraram, refiro-me aos homens e mulheres da minha geração que ingressaram no movimento em 75, nos ideais da luta pelo projecto politico de uma Angola independente, soberana, solidária e progressista. Foi por obra desses estandartes consequentes, guardiões da nobreza dos nossos símbolos, de onde sobressai o alto facho levado aceso que, desde muito jovens, abraçamos e são eles que ainda nos inspiram até aos dias de hoje, enquanto princípios de vida e na firmeza das nossas profundas convicções.
Com o seu exemplo abnegado, foram eles que nos permitiram a acumulação primitiva dos valores sagrados da Liberdade, da justiça , do amor à pátria e do irrenunciavel compromisso com a solidariedade inclusiva, em oposição ao egoismo exclusivo.
Por várias razões, no que me toca pessoalmente, temos legitimidade para falar do MPLA, porque lutamos erguendo a sua bandeira no campo de batalha. Cantamos de viva voz o seu hino glorioso quando sepultamos muitos dos nossos camaradas. Foi a lutar pelos seus ideais que sentimos penetrar na carne o metal quente da metralha inimiga. Por mais que alguns desejem mudar a verdade, isso não depende dos seus medos e preconceitos. E não reclamo nada. Sou simplesmente um dos tantos que, com apertos de mão e sorrisos cínicos foi samuado.
Os tempos passaram. Mudaram muitas vontades e com elas quase tudo se alterou profundamente. Coisas boas aconteceram. Coisas más também sucederam. Assim é a História , enquanto processo social dinâmico .
O MPLA tem pela frente o grande desafio de aperfeiçoar a sua capacidade interna a fim de responder plenamente ao desiderato histórico , a que se propôs , iniciado no manifesto, continuado nos programas, nos estatutos e nas decisões da sua liderança.
A sucessao geracional no MPLA nos moldes estatutários será a garantia de que a organização se adapta às exigências e volatilidade da pos-modernidade e requer debate interno e participativo.
Revela-se contra-producente que determinados sectores permitam florescer um ambiente que tenta propiciar uma enganosa e intolerante sub-cultura de religiosidade partidária de derivacao obscura. Incapaz de galvanizar entusiamos, que não seus próprios interesses, alguns iluminados focam a sua maior "qualidade" numa arrogante capacidade de ostracisar até os seus próprios camaradas que, de forma honesta, emitem opiniões e criticas construtivas.
Como não ocupam cargos por mérito próprio, são pessoas de conduta agressiva, sempre falam alto para tentarem demonstrar que são eles os indefectiveis e perpetuarem assim benesses indevidas, prejudicando o próprio .
O MPLA fez muito por Angola e pelo seu povo, como nenhuma outra forca política o fez. A sua legitimidade histórica resulta da força da sua razão e não repousa unicamente na razão da sua forca, que é imensa e por esta razão o seu uso não deve ser desproporcionado.
O vasto capital politico de quase seis décadas de luta proporciona-lhe uma incomensurável fonte de inspiração para superar os sucessivos obstáculos. O seu capital humano garante-lhe a possibilidade de ter a frente os quadros mais capacitados, não permitindo que vinguem interesses sectários que tentam adoptar como critérios de confiança politica a militância esquematica e os laços de consaguinidade.
Cabe ao MPLA mostrar que a sua longeva existência se alicerca nas linhas mestras do projecto de uma sociedade de justiça , com uma visão de modernidade e progresso para todos angolanos.
Para que seja sempre válido o que Joaquim Viola, o nosso músico esquecido do Lobito, um dia cantou:
"O MPLA é um casa que abriga o povo da chuva".
Parabéns MPLA!
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domingo, 25 de outubro de 2015

O que preocupa em Luaty Beirão

                 O que preocupa em Luaty Beirão
Jaime Azulay

     Ao rejeitar o lancinante apelo de sua esposa, Luaty Beirão assumiu ir até as ultimas consequências na greve de fome que observa há 34 dias, caso não seja decretada a suspensão da prisão preventiva em que se encontra desde há 3 meses.
     Numa carta aberta publicada nas redes sociais, Mónica Almeida implora: “prefiro-te marido, pai e amigo a ter-te como mártir”. 
      Recorda-lhe a promessa feita quando a filha Luena veio ao mundo: “quero lembrar-te da promessa que me fizeste quando recebeste a Luena dos meus bracos, minutos depois de ela ter nascido: que a partir de agora a coisa mais importante da tua vida é ela”.
    Tenta persuadi-lo mais adiante com palavras ternas que tocariam fundo o coração de qualquer homem sensivel: “ “ Tu és o nosso herói, o exemplo de pai presente, o exemplo de marido honesto e um homem de palavra. Amamos-te muito... conto, desta vez,  persuadir-te a acabar com a greve de fome, pois há uma promessa acima desta que tens mesmo de cumprir, não por mim mas pelo nosso tesouro”.
     Dias antes, Luaty ignorara também o apelo dos companheiros do conhecido processo 15, onde são acusados da autoria de actos preparatórios de uma rebelião que tinha como objectivo uma mudança não constitucional das instituições estatais, entre as quais o presidente da república.
     Promessa? Bem maior? Altruísmo e compaixão? Nada disso parece existir agora em Luaty. Vinga apenas o  culto de uma obsessão de gloria voltada para si próprio, o que o torna incapaz de escalonar o seu projecto de luta de uma maneira diferente.
     A sua visão do mundo e da vida alicerçam-se em critérios estritamente pessoais, razão pela qual dispensa resolutamente a necessidade de aceitar a realidade que o cerca, e acatar os apelos e pedidos da romaria que se ajoelha em seu redor no leito da clinica “Girassol” em Luanda.
Esta intensamente absorvido pelo capital que despertou na opinião publica e refugia-se na ideia da validade e prevalência ilimitadas dos seus parâmetros pessoais, sobre quaisquer outras escalas valorativas.

Luaty Beirão tem 33 anos de idade. É mais novo do que um dos meus filhos. Seus companheiros chamados "revus" estão na faixa de outros rebentos meus. Tenho idade de ser pai de qualquer deles, por esta razão me preocupa o seu estado de saúde e a situação carcerária em que se encontram todos eles e o futuro do nosso pais, de uma maneira geral.
A verdade é que também fui um jovem inconformado como eles. Vivi a minha juventude, desde os 14 anos, entregue a uma causa na qual acreditei e dela espero nunca estar irremediavelmente arrependido, devido ao símbolo da suprema conquista do povo angolano, a independência nacional que dentro de dias comemoraremos o 40 aniversario.
Porque razão Luaty insiste prosseguir a greve de fome, enquanto os restantes companheiros tomaram a decisão sensata, apesar de difícil, de desistir e aguardarem, sob a detenção decretada, o julgamento marcado para iniciar no próximo dia 16 de Novembro?
Seria ingenuidade acreditar que o caso “15+2” não tenha extravasado os marcos de um processo exclusivamente judicial. Imperdoável patetice seria também escamotear que a dinâmica do processo não tenha assumido repercussões políticas e mediáticas de tal envergadura, que o seu desfecho não seja susceptível de repercussões na vida das pessoas.
O que me perturba em Luaty é a persistente expressão desafiadora, ensimesmada na sua figura esquálida, esticada no leito hospitalar, os dedos entrelaçados nas mãos cruzadas sobre cavidade do ventre. Obstinadamente, uma enigmática centelha transborda das entranhas dos seus olhos escuros e vazios, aparentemente indiferente ao “flash”  das câmaras dos jornalistas.
As autoridades judiciais descartam até ao momento outra solução que não seja os 'revus' aguardarem o julgamento na condição de detidos e já rejeitaram qualquer interferência externa na solução do caso. Inclusive denunciaram que os "revolucionários" estão a ser usados numa campanha orquestrada por círculos estrangeiros que sempre se opuseram as conquistas do povo angolano.
As horas passam e a corda está a esticar demasiado. O tempo está a favor dos pequenos, Luaty parece conhecer muito bem isso. Tal como sabe que o poder vigente não tolera os meios que supostamente pretendia eleger para fazer ouvir as suas reivindicações.
O que assusta em Luaty é concluir a possibilidade de ele acreditar estar a viver na plenitude os seus dias de glória, por ter conseguido desafiar o sistema como um todo, como antes ninguém o tinha feito sem qualquer arma de guerra nas mãos,  alcandorando-se na eventual inconsistência da acusação e de eventuais erros processuais.
Terá ele chegado ao ponto crítico de pensar que, a irredutibilidade da sua greve de fome conseguirá encurralar um poder alicerçado num exercício de 40 anos consecutivos, parte dos quais no meio de uma longeva guerra fratricida, da qual saiu vitorioso?
O que motiva então o Luaty Beirão ?
Terá assumido a causa com tamanha intensidade que, desistir da greve agora, seria motivo de desonra e humilhação para os seus ideais ou convicções de luta?
Ou será ele a própria causa da luta?
O que estamos a observar em Luaty não será a representação de uma versão do “nihilismo” característico dos anarquistas europeus do século XIX?
Quanto a Luaty ser ateu, isso pertence a sua esfera de liberdades e nada tenho a declarar. Todavia gostaria de recordar Nietzsche, quando afirma que  o ciclo “nihilista” só se completa no momento em que se nega os valores de Deus e a pessoa aprende a ver-se como Criadora.
Ou parafrasear o escritor russo Dotoievski no momento em que um dos personagens do livro “Os irmãos Karamov” declara assustadoramente: “ se Deus esta morto, então tudo é permitido”.
Causar comoção social extrema e sentimentos profundos nas outras pessoas, incluindo na família, através da auto-flagelação pela fome e deixar-se esvair, ao limite, evocando motivações cívicas e ideais de nobreza no exercício da cidadania não é uma arma digna dos verdadeiros combatentes pela liberdade.
Tanto quanto se sabe, Luaty terá vivido grande parte da sua vida no estrangeiro e frequentado excelentes escolas europeias. Possui formação superior em duas áreas, ao contrário de seus confrades "revus", oriundos das camadas desfavorecidas da periferia luandense. Seu pai, José Beirão, também engenheiro, era figura próxima ao restrito círculo do presidente Eduardo dos Santos e foi um dos mentores e primeiro director geral da FESA ( Fundação Eduardo dos Santos) uma organização que os seus detratores afirmam ser um dos suportes do culto de personalidade do presidente.
A verdade é dura e amarga.

Cada dia a mais na insistência em prosseguir na renúncia em alimentar-se, fará diminuir drasticamente as probabilidades da sua sobrevivência. Segundo os médicos, o ponto de não-retorno poderá acontecer a qualquer momento. Se tal suceder, estará consumado o martírio, ou a tragédia , se preferirem.
Um desfecho fatal do caso Luaty desencadearia mais um trauma na franja mais sensível da nossa sociedade, a juventude.
Termino com um trecho da letra da cancao de um trovador da nossa Benguela: “se me roubas é porque tens fome. Se me matas é porque tens medo”.
Que Deus proteja a nossa Angola amada!
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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Luanda fica longe

                              LUANDA FICA LONGE

          Quando chegamos à Luanda de automóvel, sentimos despertar, por dentro, um rosario de emoções intensas e contraditórias. Tomamos a estrada do Benfica, após subir o morro do museu da escravatura. Um pequeno tremelique nos faz abanar da cabeça aos pes. Ei-la. Está ali: Luanda, a terrível. Chamo-a assim por deferencia estritamente pessoal. No fundo, ela tambem ë parte de mim.      
               Miro-a atraves da janela do carro. O Mussulo a flutuar, aparentemente impassivel, como um dongo esculpido na mafumeira do mar. Os prédios avistam-se ao longe, coados pela distância, erguem-se para o céu como lancas anunciadoras da nova era. Muitas obras em curso, novas urbanizações, chineses por todo lado. Lindas e modernas edificacoes, sim senhor. contudo, o areal vermelho de antanho não engana, nem deixa enganar. Tem musseque ainda, coberto pelo manto da miséria que o colono deixou e nos, que nao nos deixamos, reciclamos cientificamente. Os manuais ensinam porque razão se emigra para a capital: em África quem vive longe da decisão lhe esquecem m'bora com ele. Nós, o povo especial, ingerimos com sofreguidão o manual completo, para não variar. 
             Para se viver aqui na Nguimbi tem de se saber dar palpite sobre todos os mambos, mesmo que o assunto seja o programa espacial da NASA, ou uma migracao de passarinhos na Gronelandia.

             Mesmo assim chegamos! Luanda, a nossa metrópole! Terra dos vivos e dos vivaços. Aqui o cabrito come onde está amarrado. Mesmo o velho cágado sabichão não sobe à árvore sòzinho, lhe empurram com ele. Cidade grande! Tem gente versada nos esquemas da ginga, para o fogo não apagar nos fogareiros nem o pão cair no gasoleo. E também para as as crianças não quebrarem o lápis cedo. E depois, quem nos vai acudir, quando a velhice chegar?
            Luanda, a arena de exímios gladiadores no corpo-a-corpo, das cabalas palacianas que dão caminho aos faustosos banquetes familiares e clânicos, que os há. Coitados dos buamados, para eles o sol jamais brilhará e as nuvens ameaçarão temporais de proporções bíblicas. As cisternas de São Pedro jorrarao sem clemencia as torneiras sobre a cabeça dos musseques e os entulhos de lixo nas ruelas serão a abundancia dos deserdados.
Na nguimbi o jogo é rapido, baliza-a-baliza. O buamado não apanha nada. São os "Mukuakuisa", os que vieram sem nome de família e já nozencontraram connosco mesmos. Como vamos aceitar nos tirarem agora? Vejam lá se isso tem lógica! No olho!
            Diz-se que mais de um terço da população de Angola vive por aqui. Avançamos em direcção ao Rocha Pinto. No ar continua a pairar o encanto do característico cheiro das coxas de frango. Inumeros grelhadores caseiros expõem ao ar livre o apetecido petisco luandense, importado de qualquer estranja. Na luta pela vida, não resta tempo para ir à casa pitar. Os passantes são buereré. Após o petisco, uma mana de calções elásticos colados ao corpo e uma buluza (é mesmo buluza, como cantou o Paulo) decotada, convida a malta para as competentes birras, tiradas do gelo, a estalar. Ela tem os lábios reluzentes, betumados com um escandaloso baton roxo. Na certa esqueceu os carrapitos que vavó fazia. Agora usa cabuleira pustícia, que lhe cai feiamente para as costas nuas:- "Mano si vuce que um bardi de birra pede só, paga no fim". Ela sorri um sorriso de coxa grelhada, convidativa, maliciosa. Parece a mana se vende com cerveja à balde, ou melhor, à balde com cerveja, que é o mesmo mas não é igual. São muitos candidatos a morder a coxa e a engolir o bardi.
                - Adeus mana das birras bardadas, a capital nos espera, para moer-nos as ossadas da paciência.O saco das gasosas já está preparado. Nunca falha. A fila de carros começa a ser longa, exasperamos. Avança-se aos soluços. Vai embrulhada uma espetada de moelas e uma fresquinha, medicamento milagroso para não perder o ânimo. Os "hiaces", autênticos predadores do tráfego surgem de todos os lados. Pela esquerda, pela direita, de frente, de tràs, autêntico bacanal rodoviário. Chamam "mbaias" às manobras para fugirem ao trânsito ordenado. Entram por onde querem, como querem e quando querem. Entram-nos aqui e depois vão entrar-nos mais à frente. Quem dá as ordens é o cobrador-gritador, geralmente um garotelho com cara suja e um maço de notas nas mãos sebosas, eh para facilitar os trocos. Esses garotos nunca guiaram uma bicicleta na vida. São eles que chamam a clientela. Têm voto na matéria. Quando gritam "mbaiaaaa !!!", o motorista não vacila, entra com o "hiace" em qualquer buraco.
              Chegamos em Luanda, como agora se diz; assim mesmo as pessoas falam, mesmo pessoa que reinvindica na televisao ser doutor. Queria vê-los a responderem a umas perguntinhas da minha professora Gracinda, que me transportou com a maralha do Inconcon e da Assaca desde a cabunga ate a 4ª classe no tempo do caputu, debaixo do olhar severo da gramática do Relvas. Haveria reguadas na certa, nem com caca de galinha nas mãos se safavam. Mas agora fica tudo na boa. Afinal sempre se completa o ciclo da comunicação, o importante é a gente se entendé, né mêmo? Depois tem bom fato italiano fabricado no Brasil, com gravata da "Gucci" trazida na muamba da China e ainda os sapatos de pele de lossengue indonesio, mais o exuberante Land-Cruiser metalizado.

           Ainda por cima no jogo jogado, vale tudo e tudo vale, mesmo picar no olho do outro muadié pra não fazer barreira. Tem até árbitro que apita parece ë brincadeira no areal ao meio dia: assinala o penâlti, depois o próprio marca o golo e nas calmas vai simbora com a bola, tipo nada. A bola é dele, lhe deram na família e agora ninguém pode lhe cassumbular. Ele é vijú, Uauééé!
Luanda fica longe!
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sexta-feira, 17 de julho de 2015

CAFE CHICUMA

Quando a revolução vingar
E as reformas se impuserem
Proletário povo de Angola
Avante! Avante!
Cultivar café
Algodão

E de Cabinda ao Cunene
Remover Montanhas
Florestas

Viva, viva, viva, viva!
Viva o  MPLA” 


                  Éramos jovens e destemidos. Pobres e sonhadores. Venerávamos os heróis tombados na luta de libertação nacional e éramos devotos ao nosso presidente, o Dr. António Agostinho Neto. Numa palavra, sintetizávamos o combustivel ideal para fazer avançar a máquina da revolução do poder popular. Mais uma vez, estávamos de mochilas às costas e novamente nos era pedido para avançar. Os cafezáis nas encostas montanhosas que circundam a Chicuma, distante cerca de 70 quilómetros da cidade da Ganda, confinando com Caluquembe e Chilata, eram o nosso próximo destino. 
          Chegaríamos decididamente ao nosso objectivo, fosse como fosse, ainda que tivéssemos de remover montanhas, como dizia a letra do nosso hino proletário. Durante certo tempo, viveríamos da mesma forma simples como viviam os camponeses explorados da Chicuma. Mostraríamos ao mundo a nossa incondicional devoção à causa revolucionária e, num extremo ritual de purificação, com as nossas próprias mãos, gretadas e dilaceradas, colheríamos os bagos vermelhos dos cafeeiros, nosso contributo para ajudar a economia de Angola a reerguer-se. 
                 27 de Julho de 1976, esse dia calhou num Sábado do calendário gregoriano. Recordo-me bem da data, porque acontecia o matrimónio da mais alta individualidade de Benguela, o Comissário Estêvão Gungo Arão, acabado de ser nomeado pelo presidente Agostinho Neto como dirigente da província. (Arão casava com uma prima minha). Do pouco que conheci, ele era um homem culto e bem parecido, quase sempre vestido com um bubú africano de tons vivos e alegres. 
           A primeira vez que vimos o nosso comissario provincial foi num comício, quando o apresentaram à população. Quem o trouxe para Benguela, após a nomeação, foi o então ministro da Administração Interna, o comandante Nito Alves. Tínhamos sido mobilizados a partir das escolas. O que nos espantou, foi que Nito Alves resolvera realizar o comicio no período da noite, o que não era normal. O habitual eram os atrasos nos horários para iniciarem as actividades revolucionárias.
                 Naqueles tempos, eu acreditava piamente que eram incontornaveis razões de segurança que levavam os chefes a sempre chegarem tarde às actividades que eles próprios marcavam. Com o desencanto do garoto que vê quebrado o seu brinquedo de estimacao, só muito mais tarde é que descobriria que, enquanto as massas ficavam horas esperando ao sol, os “muatas” estavam refastelados nas poltronas das salas de estar, gargalhando piadas de caserna e tomando do bom whisky escocês.    
                  Após uma longa espera, vimos repentinamente Nito Alves assomar à varanda do edifício do palácio, ladeado pelo comissário Estevão Gungo Arão. O ministro  cerrou os punhos para a multidão excitada e gritou com firmeza:-“Um só povo! Uma só Nação! A Luta Continua, a Vitória é Certa!”- de seguida desfiou um discurso flamejante, muito aplaudido pelo pessoal espalhado pelos relvados da antiga casa dos governadores do distrito de Benguela. 
                Um ano depois, estes dois homens partilhariam um trágico destino: em Maio de 1977, Nito Alves seria acusado de liderar, em Luanda, uma intentona golpista contra o presidente Agostinho Neto. A radio nacional que esteve momentaneamente nas maos dos revoltosos tinha sido retomada. A intentona fracassara, graças a intervenção de militares cubanos que se encontravam em Angola. Na sequência de uma implacável purga interna no MPLA, Estêvão Gungo Arão seria igualmente detido e nunca mais a família o veria, nem vivo nem morto. Nito Alves, por seu lado, seria executado após ter estado a monte durante algum tempo.
                Naquela manhã cinzenta de Julho, típica da época de cacimbo, o comboio do CFB com as brigadas de estudantes a bordo, partiu da velha estação, descreveu a curva do Quioche e cruzou a ponte do Cavaco. Durante 15 minutos a locomotiva diesel-eléctrica esgueirou-se por uma galeria entre o canavial da açucareira e a estrada asfaltada, ladeada de palmeiras de dendê, até chegar ao nó da estação do Negrão. 
            Enquanto circulávamos pela zona do Capiandalo, o Pina disse-me ao ouvido que levava na bagagem uma lata de leite “Nido” abarrotada de apetitosos torresmos feitos por sua mãe e deu-me um a provar. 
          -Guarda isso, que vamos precisar nas emergências, disse-lhe enquanto o torresmo crocante se desfazia na minha boca. 
         -Emergências? Vamos ter emergências?- o Pina riu-se a fazer a pergunta, tentando adivinhar alguma premonição nas minhas palavras. 
            Nas carruagens o ambiente era de autêntica euforia entre os brigadistas recrutados nas escolas. No Negrão, os maquinistas iniciaram as manobras. Após acoplar com outra composição oriunda do lobito e lotada com estudantes daquela cidade, o trem inicou a viagem para Mariano Machado, à Leste, utilizando a nova ferrovia da Variante do Cubal. 
           Os tempos vividos naquela altura eram de autêntica euforia. A independência tinha sido proclamada poucos meses antes e o estribilho de que estava ser forjado o paradigma de um Homem Novo em Angola espalhou-se por cidades e aldeias. Nós estávamos inseridos de corpo e alma no processo. 
                 A participação de estudantes do secundário e dos liceus na campanha de colheita de café, pelo seu intrínseco simbolismo, funcionava como a confirmação de que um novo conceito de política havia- se incorporado na vida dos angolanos e ninguém podia distanciar-se dele. A divisa era clara nos discursos dos lideres da revolução do poder popular e nos slogans do movimento : -“quem não está connosco está contra nós”. Assim eram rotulados os contra-revolucionários, uma casta à qual era necessário dar combate já e agora.
               Assim, fechava-se o espaço para aqueles que pretendiam manter uma neutralidade, de certo modo interesseira, pois, sempre dava jeito estar em cima do muro, caso ocorresse uma nova mudança no poder. No entanto, para estes, a cartilha marxista-leninista que nos era inculcada ate a exaustão, tinha uma resposta implacável: com o aprofundar das contradições resultantes da luta de classes, os indecisos não exitarão, mais tarde ou mais cedo, em juntar-se à contra-revolução interna e externa e virar as armas contra o nosso povo. 
                  Os eventos sucediam-se com grande impacto sobre todos e sobre tudo. O acontecer nacional fervilhava, com a revolução a afirmar o seu carácter selectivo, rejeitando os que vacilavam em dar a sua contribuição no momento em que fossem solicitados pelas chefias e seus mandatários. 
                 Ainda em Novembro de 1975 começaram as nacionalizações de tudo quanto o colono tinha deixado. O rol patrimonial ia desde as empresas, armazéns e lojas de bairro, até aos luxos imobiliários mais abastados, que rapidamente ficavam sob tutela dos comandantes e dos chefes revolucionários. Os legítimos representantes dos operários e camponeses não se faziam rogados em desfilar com os BMW, Mercedes, Audi, pertença dos odiados colonos em debandada.
             Pelo que víamos, mas nao nos apercebíamos na altura, era que, neste capitulo, as preferencias dos comandantes revolucionários e dos contra-revolucionarios burgueses pelas mordomias materiais e outros luxos, não conflituavam entre si, aliás, na pratica pareciam coincidir plenamente .
            Os proprietários que tinham optado por permanecer no país eram sistematicamente solicitados em “dar a sua contribuição”. À torto e a direito requisitavam-se compulsivamente viaturas particulares, quando fosse necessário cumprir qualquer tarefa politica, desde os intermináveis comícios, as buscas, as rusgas e as mais diversas campanhas, para as quais se tivesse de movimentar as massas proletárias.   

                        AS PRIMEIRAS REVOLTAS

                  -“Camaradas, vamos mostrar aos contra-revolucionários e aos capitalistas a força da nossa juventude e o carácter socialista do nosso processo, com a consolidação da aliança operário-camponesa, como disse o camarada presidente”, gritou um responsável da JMPLA no rescaldo da primeira revolta estudantil junto à cozinha do acampamento, devido a falta de comida. 
            Na Chicuma, já há alguns dias os armazéns de víveres estavam às moscas, em consequência, as panelas tinham ficado vazias. Milagrosamente, a lata de torresmos do Pina continuava apetrechada e com uma cotação bastante alta. Com torresmos conseguíamos adquirir cigarros, pasta dentífrica ou umas colheres de açúcar. Certa vez, o Pina foi jogar batota às cartas e, em vez de dinheiro, propôs bancar na mesa de aposta os seus deliciosos torresmos. A proposta seria aceite, após uma prolongada discussão, a fim de se atribuir uma cotação a cada torresmo, que, para complicar, não eram todos do mesmo tamanho. 
                  Nesse dia da revolta, havia centenas de brigadistas enfileirados defronte à cozinha, com pratos e canecas a tilintar nas mãos. Rapidamente gerou-se um tumulto generalizado, que teve o condão de abrir a porta a outros que se seguiriam no aglomerado de edificações ajardinadas, com uma ampla piscina. A herdade pertencia a um abastado industrial alemão que tinha fugido da guerra. 
                O micro-clima da Ganda atraira desde os anos 60 uma colónia alemã que se instalou na região criando extensas fazendas de café. Em 1973, Angola tinha sido o terceiro exportador mundial de café. A idéia dos lideres revolucionários, era de que se com o colono tinha-se atingido aquela cifra, agora, que trabalhávamos para nós próprios, poderiamos com muita facilidade pulverizar a producao conseguida pelos colonos portugueses. 
                   Na revolução não havia meio-termo. Era época de tudo mudar, obsessivamente. Revirar tudo o que tinha sido herdado do colono, até a maneira de pensar das pessoas. A ninguem admirou que, no fervor da mudança radical do sistema, começaram a acumular-se erros atràs de erros. O movimento de rectificação lançado pelo movimento, por si só, não conseguia pôr cobro às correcções que se impunham. A própria abordagem da revolução, sobre as soluções a adoptar para solucionar os problemas políticos, económicos e sociais estava impregnado do espírito romântico e temerário trazido das matas pelos guerrilheiros. 
               A campanha do café na Chicuma e Babaera, para onde foram encaminhados milhares de estudantes em situação de segurança e logística periclitantes, viria a mostrar que não bastavam as nobres intenções dos líderes do país ou aspirantes a isso, para fazer avançar a economia e, por via disso, melhorar as condições de vida das pessoas. A reforma agrária dava mostras de sucumbir mesmo antes de ser parida. O que estava no papel discursivo dos muatas, não passaria disso. Na prática, revelavam-se acções atabalhoadas e paranóicas, visando revolucionar até a consciência nacional.
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quinta-feira, 18 de junho de 2015

O Padrinho

Sentado no sofá vou revendo a terceira e última parte da saga "O Padrinho" de Mário Puzzo e do inigualável realizador Francis Ford Coppola. Tudo inicia com a marca imortal de Marlon Brando, quanto a mim o maior artista (não é actor, é artista mesmo) que eu já vi na tela. Ou provavelmente acabe assistindo em pé, como um poste no meio da sala, para não correr o risco de adormecer fastidiado por conhecer de cor e salteado o enredo do filme. A trama chega ao fim com o genial Al Pacino nas vestes do patriarca Corleone, o mafioso dos mafiosos. Debilitado e diabético, Corleone tenta agora arrumar a vida direito, mas vai desconseguindo, porque os demónios andam à solta. E ele dá conta disso. Chega a confessar-se ao cardeal-futuro-Papa, revela ter cometido monstruosidades, contudo, não demonstra nenhum arrependimento. Por acaso já assisti a fita. Como numa tempestade, as traições sucedem-se à velocidade de um raio. Dá-se a ascensão de Vicent, seu sobrinho, filho do irmão que ele próprio mandara matar. Vicent chega a namorar uma prima, donzela de inigualáveis atributos, toda ela generosa ternura. Contudo, a sede de poder obriga-o a acatar sem rebuço a ordem do tio. " -Rapaz, deixa a menina em paz e eu te darei todo poder". E assim o sobrinho renuncia ao amor platónico. Engole sofregamente o letal veneno, sem se dar conta que estava a selar um pacto com o diabo. Acto contínuo, Vicent se transforma, meteoricamente, no poderoso Don Vicenzo Corleone. Assim, a dinastia mafiosa segue garantida. Tudo se desenrola no meio de um rosário de assassinatos que, no seu auge atinge a prima amorosa de Vicent. Enquanto isso, Don Altobello dorme o sono do decesso no requintado camarote do teatro. Regalado com uma ópera siciliana ia deglutindo biscoitos envenenados. O vendaval estinge o auge. Nem o Papa recém empossado consegue safar-se. Também ele morre, no seu quarto no Vaticano, após ingerir uma taça de chá adoçado com cianeto. Na máfia é assim, quem entra, não pode sair quando lhe apetece, sentenciou irado D. Corleone, tentando justificar a purga. Como numa cadeia de predadores, na máfia, uns vão comendo aqueles que os precedem antes de serem comidos por aqueles que os seguem. Ainda bem que é filme. UFA!!
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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Angola no C.S. da O.N.U.: Responsabilidade internacional e orgulho Nacional

Como angolano sinto-me imensamente orgulhoso pela eleição de Angola como membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU, no dia 16 de Outubro de 2014. Aproveito para felicitar todos os que trabalharam para tornar isso possível. Não restam dúvidas que Angola está a conseguir projecção diplomática e visibilidade nas relações internacionais. O dinamismo e acutilância da nossa diplomacia são um perfeito exemplo para outros sectores da vida nacional. Os nossos diplomatas demonstraram competência, profissionalismo e sentido de missão. O seu contributo deve ser referenciado como afirmação de um patriotismo abnegado. A República de Angola tem sistematicamente demonstrado a sua vocação pacifista, pugnando pela resolução pacífica dos conflitos e crises através do diálogo e aproximação entre as partes envolvidas. Nesta conformidade, a diplomacia angolana procura uma permanente adequação do nosso posicionamento geo-político e estratégico na arena internacional. Os outros povos depositaram em nossas mãos tamanha responsabilidade, confiando na nossa experiência e seriedade. Temos a oportunidade soberana com um mandato legítimo, de contribuir para a manutenção e desenvolvimento das relações entre os Estados e de ajudar a resolver de forma pacífica os conflitos e diferendos. Reconhecer a liderança firme e com ampla visão estratégica do presidente José Eduardo dos Santos. A unidade na condução da política externa é fundamental . Contudo, não nos podemos deixar cair na tentação do triunfalismo ilusório de subestimar a importancia de alicerçar a nossa diplomacia na força institucional do Estado e na sua credibilidade. O futuro de Angola rumo ao progresso está nas maõs dos angolanos comprometidos. VIVA ANGOLA!
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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Membassoco: a nossa coluna e a batalha dos 57 dias no Huambo


A derradeira foto tirada por Marco Vercruysse durante a manhã no Membassoco. O Kito com a AKA e eu com a PKM. Ainda se vê ao lado do meu ombro esquerdo o Aurélio Boaventura da TPA e o seu camaraman de roupa preta

Dedicatória: em memória do major “Ngurra”, que não conheci mas ouvi os seus feitos das bocas dos soldados que ele comandou durante os 57 dias. À todos os que lutaram no Huambo.

Jaime Azulay

     1993. Membassoco, município do Cubal, antiga região do sisal, a cerca de 160 quilómetros à Leste da cidade de Benguela. A gigantesca caravana estacionou próximo à estação ferroviária, na estrada que liga ao Huambo, onde se combatia encarniçadamente dia e noite na conhecida Batalha dos 57 dias (a Unita diz serem 55 dias). Em 1991, o governo angolano tinha desmobilizado as FAPLA por força de acordo de Paz com arebelião armada da UNITA assinado em Bicesse. À revelia do acordo, a UNITA escondera matreiramente o seu exército da supervisão da ONU e iniciou um ataque contra a capital do planalto central. No Huambo as coisas ficaram complicadas para o pequeno efectivo das forças governamentais que rapidamente foram confinadas para um pequeno reduto da parte alta da cidade. Os comandantes pediam desesperadamente reforços ao governo central mas em nenhum lado havia tropas para enviar. Foi quando os generais Luis Faceira, Violência, Armando, organizaram um contingente de antigos soldados das FAPLA e outros voluntários na província de Benguela. Viaturas civis foram adaptadas às pressas para o combate e uma logística foi carregada em camiões. A caravana saíu do quartel do CIRM em Benguela rumando inicialmente para Sul, em direcção à Katengue. Na estrada a coluna começou a enfrentar guerrilheiros da Unita emboscados nos matagais e montanhas que ladeiam a via.
     O destino traçado era o Huambo. Íamos nos juntar aos camaradas que lá estavam a lutar desde a tarde do dia 9 de Janeiro de 1993. Huambo estava a ferro-e-fogo e a tropa dos generais Ngueto e Sukissa batia-se para a cidade não ser tomada. Lembro ter deixados os meus filhos Indira e Fábio a dormirem o sono da inocência. Minha esposa apreensiva como sempre:- porque tens de ir? Perguntou secamente. -Não sei amor, só sei que tenho de ir. Estava decidido. Comigo e como sempre o meu saudoso camarada Kito Neves "Cartucheira".
     No Cubal encontramos amigos jornalistas, o falecido Celestino Mota da RNA, o Aurélio Boaventura da TPA. Eles também queriam ir para o Huambo. Ficamos alojados na tenda do major Camberra, veterano da guerra do “Kapa-Kapa” dos anos oitenta. Voltara a envergar a farda para cumprir o seu dever como militar. Camberra viria a morrer meses mais tarde num triste episódio em Caimbambo quando travou um duelo com o seu guarda-costas por ciúmes. Ambos dispararam ao mesmo tempo e dias depois recebemos na pista da Catumbela os dois corpos embrulhados em cobertrores, lado a lado. É um episódio incrivelmente dramático que contarei noutra ocasião.
     Na tenda do major Camberra onde estavamos acampados no início do mês de Fevereiro de 1993 tinha uma viola que ele nunca abandonava, nos disseram os guardas. Depois do jantar tocávamos canções patrióticas bonitas. Os colegas da TPA filmaram, mas as cassetes hoje já ninguém sabe onde estão. Estávamos decididos a tudo para chegar ao planalto central. As canções que cantávamos levantavam o nosso moral. Com o som da viola do major Camberra apareceu uma percursão bem compassada. Os soldados batiam nas cartucheiras de peito e o chocalhar das balas fazia de dikanza. Foi mesmo assim que aconteceu.
     Numa manhã cinzenta ouvimos o BM-21 a disparar próximo de nós. Estávamos acampados numa das cabeceiras do campo de aviação do Cubal. Saí da tenda e vi a posição dos canos da rampa que estava a lançar os foguetes. Calculei que o alvo devia estar a uns 10 ou 12 quilómetros. Na guerra a preparação de artilharia sempre precede uma movimentação. Não tardou para as coisas se precipitarem. Pouco tempo depois recebemos ordem para embarcar nos camiões e fomos nos juntar ao restante da caravana que estava a organizar-se na estrada para a Ganda. Eram mais de uma centena de veículos com munições e logística diversa para reforçar as forças governamentais no Huambo. Acampamos um pouco depois de passarmos a vila ferroviária de Marco de Canavezes num local chamado Membassoco. Eu sabia que neste local a UNITA tinha destruído a última composição do CFB que tentou atingir o Huambo no início dos anos oitenta.
     As tropas fizeram um cordão de segurança dos dois lados da estrada. O comandante era o primeiro super-intendente Lili-Vali , um kwanhama de porte atlético e poucas falas.O segundo comandante era o superintendente Victor, um tropa simpático com barbicha farta e pernas arqueadas. Entregaram-nos ração fria e já não estava permitido fazer lume.
     Lá pela madrugada começou a cacimbar. Era um cacimbo de aviso que o inimigo estava perto, alertaram os tropas que conheciam os segredos da guerra. Mal amanheceu a coluna começou a tocar (andar na lingugem militar). Esqueci de dizer que estava connosco um jornalista belga Era o Marco-Vercruysse. Os comandantes não queriam que ele avançasse mais para o interior por causa do perigo da viagem. Entregaram-me um BTR com uma guarnição para regressar com o belga para o Cubal a fim de ele ser evacuado de helicóptero para Benguela.
     A coluna só andaria mais uns quilómetros. Foi surpreendida por fogo de um canhão B12. Iniciava o combate com forças da Unita emboscadas na zona do Calondende. Gerou-se um pandemônio danado. Os camiões articulados, Scania 111 da BCA ficaram atravessados na estrada abandonados pelos motoristas civis que ficaram assustados com as explosões e fugiram para o mato. A manobrabilidade dos veículos de escolta ficou comprometida. As viaturas blindadas com os AGS-17 e os camiões DAF com as super-metralhadoras ZU-23 ficaram impossibilitados de abrir fogo por falta de espaço de manobra.
     Surpreendemente o comandante da coluna Lili-Vali é atingido à queima roupa por um comando da Unita e é deixado abandonado pelos seus guardas. O meu companheiro Kito Neves puxa o corpo do Lili-Vali para detro do BTR e de arma em punho obriga o condutor a manobrar para levar o comandante ferido para o Cubal.
     Na coluna o caos é geral. O 2º comandante Victor tem dificuldade em articular com a força de vanguarda comandada pelo então major Ndalu (homem valente, hoje brigadeiro) que estava com 10 viaturas no reconhecimento combativo profundo. Ndalu abriu fogo cerrado provocando muitas baixas aos atacantes. Ele tinha uma SVD russa nova em folha que depois me ofereceu com o mesmo gesto fraterno como agora se oferece uma caneta ou uma gravata a um amigo no dia do seu aniversário.
     A Unita apoderou-se de grande parte do equipamento, incluindo camiões totalmente carregados com logística da BCA, armas e milhões de munições. O que sobrou de homens e meios reagrupou-se novamente no Cubal, mas já sem o poder combativo para enfrentar a UNITA.
     O pior aconteceu depois e teve uma influência decisiva no desfecho da batalha do Huambo. Assim que
capturou os veículos, a UNITA rumou imediatamente para o Huambo e em poucas horas lá chegou. Os nossos combatentes do governo quando ouviram o ronco dos motores e viram a coluna a entrar pela Caála pensaram que ser os reforços salvadores. Só deram conta da terrivel realidade quando viram as ZU-23 e AGS-17 a vomitarem-lhes em cima o fogo das suas entranhas.
     Savimbi ganharia mais uma batalha no Huambo. Mas a guerra continuaria. Eu e o Kito Neves fomos visitar o comandante Lili-Vali no Hospital militar de campanha na base da Catumbela. Embrulhado em gases e com um braço a tira-colo saudou-nos. Disse as seguintes palavras para o Kito:-“ Nunca irei esquecer de ti , o que fizeste foi de homem ”. pela primeira vez vi lágrimas nos olhos de um kwanhama.
     Depois o tempo correria célere. Em 2013 enterrei o meu inseparável companheiro Joaquim Neves António “Kito” no cemitério de São Pedro no próprio Huambo que ele conquistara com as tropas do general Sousa,em Novembro de 1994. Do comandante Lili-Vali nunca mais soube nada . Já o coronel Victor, o segundo Comandante da coluna, veio da Lunda propositadamente para visitar-me. O Ndalu também apareceu em minha casa um dia, já com os merecidos galões de brigadeiro nos ombros. Foi assim que tudo aconteceu com a nossa coluna, em 1993 na batalha dos 57 dias do Huambo.
(Fim)
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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Crónica para Gabriel Garcia Marquez (1927-2014)

OS CÃES E GALOS DA COLÔMBIA
Jaime Azulay

     Naquele antigamente vivíamos na pobreza sim senhor, mas o nosso Rex não era tinhoso como aqueles cães que para ladrar precisavam encostar a mulumba à parede para não caírem, como acontecia nas cenas caricaturadas pelo tio Garcia quando regressou de uma terra misteriosa do outro lado do mar chamada Colômbia onde viviam uns índios mascadores de pasta de coca para intrujar a fome. Se a tia Zita não chegasse para interromper, o tio falava horas a fio da inverosímil miséria que encontrara numa aldeia embutida pelo demónio no meio da floresta amazónica chamada Ayacucho, muito longe de Bogotá.
     -“É pena vocês não foram lá!”, apontava vagamente na direcção do mar e voltava a desfiar o seu rosário de recordações mirabolantes. Os cães eram incrivelmente magros, apenas conseguiam tossir latidos angustiantes quando se apoiavam nas paredes desbotadas das casas. Em todo povoado era fácil descobrir onde os infelizes caninos dormitavam fugindo do sol abrasador que irradiava inclemência a partir do meio da manhã. No chão ficava a baba peganhenta coberta por uma irritante nuvem de moscas esverdeadas. As carraças, que burras não eram, preferiam arrastar-se no solo a xixilarem no pêlo seco e sarnento daqueles cadáveres ambulantes de quatro patas.
     Coitados dos perros de Ayacucho! Apodreciam vivos, praticamente já não corriam. Quando ousavam andar, os ossos tilintavam dentro do corpo frágil como as lâminas de uma marimba desafinada no interior de uma maleta de zinco: “-clic, clang, clic, clang!”.
     Era assim que se passavam as coisas na floresta onde o tio Garcia esteve lá bem longe na Colômbia, segundo o seu testemunho jurado com solenidade num sonoro toque de lábios nos dois indicadores das maõs cruzados. Abaixo de cão só tinha de ser outro cão sarnento. Mais nenhuma espécie animal poderia reivindicar tal lugar. Por aquelas bandas a escala hierárquica estava tacitamente estratificada num cruel prejuízo para os chamados melhores amigos do homem.
     Em contrapartida, os galos de briga eram venerados por coronéis fanáticos e até por generais viciados em apostas trungungueiras, enquanto pela calada da noite faziam preparativos para o próximo golpe de estado contra os seus camaradas da junta militar instalada em Bogotá. Os galos tinham direito a uma ração suplementar de milho para ganharem ginguzu e manterem a forma até ficarem aptos a enfrentar outros galos valentes e bem treinados.
     Meninos não liguem o que o munhunguero desse Garcia está a vos contar. O mundo é assim mesmo desde que é mundo, cada povo tem a sua cultura, palavras de sapiência da tia Zita, olhos e ouvidos vigilantes nas concorridas palestras do suspeito familiar regressado de uma inquietante e misteriosa aventura zarpada no convés de um cargueiro atracado no porto do Lobito, isso nos idos tempos do caputo, quando ainda estávamos em Novo Redondo.
     Os povos do mundo têm culturas diferentes, os seus hábitos e os seus modos de vida disse a tia com a intenção deliberada de neutralizar a crescente influencia do falante amazónico no seio familiar e na vizinhança, que naquele tempo éramos uma só entidade.
     Afinal o que é a diversidade cultural? Vejam: os Hindus, por exemplo, adoram as vacas sagradas cujo passatempo favorito é mangonharem por cima dos carris do comboio. O maquinista puxa os freios a fundo para não trucidar a vaca sagrada postada na via e lá consegue parar a tempo. Depois detém-se a composição de passageiros que vem de Bombaim e a seguir mais outra oriunda de Calcutá. Isso dura até chegar um trem recoveiro sem travões a mandar todo o mundo para os ares no meio dos ferrolhos retorcidos. Isso é na Índia.
     Enquanto isso, os Japoneses criadores de complexos sistemas electrónicos e fabricantes das mundialmente consagradas “Land-Cruiser” idolatram os lutadores de sumo, uns matulões desajeitados vestidos unicamente com fraldas descartáveis que muita falta fazem as crianças nuas dos países subdesenvolvidos. Contudo, o facto não impede que alguns responsáveis do Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância sejam Japoneses. Na Papua Nova-Guiné o pessoal tem como luxo espetar tacos de madeira nas profundezas das narinas e nem sequer espirram. Depois vão deglutir uma iguaria preparada com os olhos extraídos em fresco dos cadáveres dos familiares.
     Voltando ao caso dos cães da Colômbia ventilado exaustivamente pelo Garcia nas suas palestras diárias com a malta do bairro, é opinião abalizada da tia Zita que se os kambuás de lá chegaram a esse estado de depauperamento é porque também fumam cangonha, ou sei lá essa coisa que falam no rádio, se é cocaína se é quê.
     Nesta altura da conversa faz-se um silêncio impenetrável, o tempo necessário para a tia engatilhar estrategicamente a arma e disparar a cruel pergunta do costume, que tanto constrangimento causava ao palestrante: – “ Em vez de estar a ensinar malandrice nas crianças, qualquer dia o mano Garcia devia mazé nos explicar tintin por tintin o que andou a fazer nessa tal Colômbia”.
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Túmulos judeus no cemitério de Benguela

     O sector Judeu no cemitério de Benguela fotografado em Janeiro de 2014. Durante muito tempo chegou-se a especular que tais campas tinham sido profanadas. Apesar do aspecto elas testemunham a presença sefardita em Angola.
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Lápide em hebraico de túmulo no cemitério de Benguela

         Túmulo com lápide em hebraico no cemitério municipal de Benguela, fotografado pelo autor em Janeiro de 2014. Existem nove sepulturas numa zona confinada, ladeada de campas cristãs. O testemunho material da presença de judeus sefarditas em Angola.
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Os judeus esquecidos de Angola. Mito e realidade da herança sefardita

JAIME AZULAY*

                                         INTRODUÇÃO

     No dia 2 de Maio de 2013 realizou-se em Cabo-Verde, no cemitério da Várzea, a cerimónia de descerramento da placa de 10 campas judaicas restauradas com a colaboração da Câmara Municipal da Praia e do governo daquele país africano. De acordo com o jornal “Expresso das Ilhas”, autoridades , membros da comunidade judaica internacional e descendentes cabo-verdianos presenciaram o acto. A recuperação do cemitério judaico da Várzea assinalou a passagem de mais de 150 anos da chegada dos primeiros judeus sefarditas à Cabo-Verde. Pretendeu-se assim preservar a sua memória e honrar as contribuições que prestaram ao desenvolvimento do arquipélago.
       Um dos benfeitores do Projecto de Preservação da Herança Judaica em Cabo-Verde é o Rei Mohamed VI do Marrocos, que se fez representar no evento pelo seu conselheiro sénior André Azoulay. Temos assim a situação insólita de “um monarca muçulmano a contribuir para um projecto judaico num país cristão”. No mesmo âmbito estão previstas pesquisas e trabalhos de investigação com instituições universitárias locais bem como um simpósio internacional em 2015 com a participação de pesquisadores africanos, da Europa e dos Estados Unidos da América. Para além do interesse científico, Cabo-Verde terá ganhos com o fluxo anual de mais turistas interessados em conhecer a herança judaica naquele país africano.
       O chamado povo judeu não é actualmente  reduzido somente à religião, raça ou cultura. O termo "judeu" originalmente era usado para os filhos de Judá, filho de Jacó. Posteriormente foi designado aos nascidos na Judeia. Depois da libertação do cativeiro da Babilónia, os hebreus começaram a ser chamados de judeus.
       A palavra portuguesa "judeu" tem origem do latim "judaeu" e do grego "ioudaîos". Ambas  vêm do aramaico," יהודי," que se pronuncia "iahude". A origem dos judeus é tradicionalmente datada para aproximadamente 2000 a.C. Na Mesopotâmia, aquando da destruição de Ur e da Caldeia forçou a população a imigrar para outros lugares. A família de Abraão estava entre os que  imigraram para a Assíria. Abraão é considerado o fundador do Judaísmo. (http://wikipédia.org/w/index.php?title=judeu&oldid=37881949, acessado em Janeiro 2013).
       Judeus anteriormente  presos e escravos dos romanos chegaram a “Sefarad” na Espanha, de onde viriam a ser expulsos mais tarde, em 1492, indo para o norte de África.
       Os "Sefarditas", oriundos de Marrocos e Gibraltar chegaram à Cabo-Verde em meados do século XIX, após a abolição da escravatura e de um acordo entre Portugal e a Inglaterra. Eles dedicaram-se predominantemente ao comércio internacional, à navegação e à administração pública.
       Entretanto, foi assinalada uma presença anterior ao século XIX que é, no entanto difícil de documentar. Tratavam-se de judeus convertidos ao cristianismo, os chamados “cristãos-novos”, como sustenta a pesquisadora Carol Castiel que lidera o projecto de Preservação da Herança Judaica em Cabo-Verde (CVJHP, sigla inglesa).
         A viagem contínua de judeus sefarditas no longon da costa oeste da África continental, no século XIX, estendeu-se a partir de pontos intermédios localizados nos arquipélagos dos Açores, Cabo-Verde e São-Tomé e dali em direcção às antigas colónias de Angola (com entrepostos ou filiais comerciais em Banana e Goma, actual R.D.C.) e Moçambique. Foram provavelmente atraídos por uma florescente actividade mercantil que lhes permitia, com os seus conhecimentos e aptidões, rapidamente obter fontes de sustento longe dos seus países de origem onde eram alvo de perseguição.
          Tal como atràs foi referido, ao longo dos séculos XVI-XVIII já pululavam pelo actual território de Angola os chamados “cristãos-novos” misturados aos grupos traficantes, contratadores e armadores envolvidos no tráfico negreiro Atlântico, como referem vários autores.
          Em 1492, entre 120 a 150 mil judeus espanhóis foram expulsos por monarcas católicos para Portugal, onde se juntaram aos 100 mil judeus portugueses. Nessa altura Portugal tinha 1 milhão de habitantes (www.comunidadesdeisrael.com.br, acessado em Novembro de 2013).
          Pressionado pela vizinha Espanha, o rei de Portugal ordenou, por Decreto, a conversão em massa de judeus que, não tendo outro local para  ir, resignaram-se ao catolicismo, formando os “cristão-novos”.   
           Segundo frisou a pesquisadora brasileira Anita Novinsky num trabalho sobre o passado judaico no Brasil ( Os cristãos-novos da Baía, Editora Perspectiva, 1972) a conversão à força dos cristãos-novos, os anussim ou injuriosamente designados por marranos por não comerem carne de porco, não correspondeu aos padrões do chamado cripto-judaísmo, conformado numa prática sincrética de cristianismo e judaísmo (oculto) utilizada posteriormente pelos judeus brasileiros.
             As entradas desses emigrantes no território, ao contrário do que acontecia noutras colónias, não foram objecto de registo. A saga em Angola é considerada pouco visível quando comparada à dimensão observada em outras áreas geográficas da diáspora judaica, como refere Aida Freudenthal, colaboradora do Centro de Estudos Africanos e Asiáticos do Instituto de Investigação Científica Tropical no livro  “Judeus em Angola-séculos XIX e XX”. Devido a sua incontornável referencialidade da obra em causa, a ela recorreremos sistematicamente ao longo da nossa abordagem, bem como à indispensável “Enciclopédia Judaica, Jerusalém, 1971” editada por Cecil Roth e G. Wigoder, “Os judeus em Moçambique, Angola e Cabo Verde, Lisboa, 1975” de Alberto Iria e ainda “Survival and adaptacion. The portuguese jewish diaspora in Europe, África and the new world, New-York, 2002” de Joseph Levi, entre outros.

                              EM BUSCA DA PROLE SEFARDITA

          Há cerca de 20 anos, assumi a responsabilidade de abordar a questão dos judeus de Angola, a pedido de uma fundação hebraica brasileira que me contactou atravès de um fax enviado para a estação de rádio LAC. Falei com o escritor Raul David, a quem expus as linhas do meu projecto. Raul aceitou trabalhar comigo. Na altura, o veterano escritor angolano contava mais de 80 anos de idade. No entanto, gozava de uma saúde juvenil e era privilegiado com uma memória de elefante. Como valor acrescentado ele conhecera pessoalmente muitos judeus espalhados por Angola desde as primeiras décadas do século XX. Eram esses indivíduos o nosso alvo e a quem iríamos seguir o rasto até aos seus descendentes actuais.
          Sabia-se de antemão que, com a necessidade de integração social, foi frequente a união entre judeus sefarditas e “filhas da terra”, o que tinha dado origem a agregados familiares com numerosa prole amestiçada. A proveniência urbana dos sefarditas marroquinos ou gibraltinos, tê-los-ia imunizado contra as teses racistas que estavam em crescendo sobretudo na europa (Aida Freudental, idem) o que provavelmente, na prática, terá facilitado esses relacionamentos. Contudo, punha-se a questão de os cânones hebraicos não considerarem judeus os filhos nascidos de uniões mistas, quaisquer que elas sejam.  
          A tradição normativa religiosa do hebraísmo, a Halachá (Lei tradicional da Torá) define que uma pessoa nascida de mãe judia é um judeu (www.chabad.org.br acessado em 30 de Janeiro de 2014) independentemente da sua cor ou nacionalidade. Um não-judeu pode converter-se sòmente de acordo com as condições haláchicas e a aceitação de todos os mandamentos da Torá. Segundo tais critérios, os casamentos mistos e a assimilação afastam o povo judeu das suas raízes. Para a Torá, todo o judeu tem valor intrínseco e é um componente essencial do povo judeu, sem o qual a nação inteira não pode realizar o seu pleno potencial” (idem). Na descendência judaica a linha matrilinear é maioritária, apoiada pelo "judaísmo rabínico", ortodoxo e conservador e é a que ganha mais força por ser apoiada pelo Estado de Israel.
              Todavia, existe a tese do judaísmo reformista que tem introduzido novas filosofias. A partir de Março de 1983 foi reconhecida a descendência paterna, mesmo que a mãe não seja judia, bastando que a criança "seja criada como judeu e se eidentifique com a fé judaica". Igualmente, contrariando as considerações “haláchicas” são destacados outros factores seculares, políticos e identificações ancestrais que definem quem é judeu de forma mais abrangente. O certo é que o povo judeu é heterogêneo do ponto de vista racial, fruto das migrações constantes e consequentes ligações com outros povos, que resulta numa miscigenação com evidentes disparidades morfológicas entre os indivíduos (vide a UNESCO e questão racial na ciência moderna, em http://pt.wikipedia.org ). Como o assunto é eivado de divergências insanáveis, deixámo-lo em aberto, pelo menos por enquanto.
             A procura de traços identitários de uma possível comunidade de descendentes judeus em Angola chegou a interessar também à Dra. Tamar Golan que ocupou o cargo de primeira embaixadora plenipotenciária de Israel em Luanda entre 1995 a 2001. Ela ficaria em Angola até 2003.
             Tamar tinha projectos culturais interessantes que não chegaram a concretizar-se. Em diversos momentos procurou estabelecer contacto com os descendentes dos judeus que viveram em Angola. Chegou a convidar-me para algumas celebrações judaicas em Luanda. Da única ocasião em que por lá apareci, lembro-me ter visto pessoas conhecidas de famílias angolanas descendentes. Quando faleceu a minha tia Isabel Azulay, a embaixadora enviou-me uma fraterna mensagem de condolências. Contudo, as coisas  ficariam por ali. Tamar Golan viria a falecer no dia 30 de Março de 2011.
            Com o escritor Raul David tinhamos garantido um filão para explorar com o qual sustentariamos as conclusões da pesquisa. Entretanto, observa-se o recrudescer da guerra em Angola ao longo de toda a década de 90. Pouco tempo mais tarde o inesperado acontece: Raul David morre em Benguela. O duro golpe e a situação de beligerância armada vigente no país levar-me-ia a arquivar o projecto por absolutra falta de motivação. Nesse interim receava-se pela integridade de um dos poucos testemunhos materiais indispensáveis a qualquer pesquisa sobre o assunto. Os vestígios dos túmulos judeus no cemitério de Benguela corriam o risco de desaparecer ou serem profanados, conforme várias pessoas alertavam.
           Tal como eu tinha inicialmente projectado com R. David, o desafio consistia em investigar a saga de judeus sefarditas que chegaram dispersos às então colónias portuguesas de Cabo-Verde, Moçambique e sobretudo à Angola no regurgitar da actividade comercial no século XIX. Depois disso, os judeus da África Ocidental ou os seus descendentes, ficaram esquecidos durante mais de um século. Sabia-se, isso sim, que tinham constituído famílias angolanas não só em Luanda e Benguela mas também no sertão, como na vila de Longonjo, onde por volta de 1930 os irmãos Benoliel tinham instalado uma cerâmica e com uma relativa prosperidade ficaram muito conhecidos em toda a região centro. Até hoje lá se encontram bem visíveis as ruinas da fábrica.
           Aida Freudenthal considerou prematuro definir uma identidade judaica sefardita em Angola, em razão da sua condição de minoria dispersa na vastidão do território. Os judeus acolhidos pela sociedade colonial nos séculos XIX e XX não tiveram a possibilidade de constituir uma comunidade coesa arreigada numa identidade própria, capaz de preservar os factores aglutinadores comuns, que os judeus mantiveram noutras áreas geográficas da sua conturbada diáspora. Para a pesquisadora, os dados até agora reunidos não permitem a elaboração do seu perfil sociológico, nem a sua identificação em judeus ricos e pobres, de assimilidos, liberais e ortodoxos. Contudo, tratando-se de indivíduos provenientes da região africana do Magrebe com uma vivência cultural resultante da estrutura social judaico-marroquina “não é absurdo supôr que partilhavam uma História e uma Cultura comuns”.
              Para além da religião, à peculiar forma como os judeus se alimentam, se vestem, as suas músicas e o uso do dialecto haquitia que integrava elementos do hebraico, espanhol e árabe, para além das línguas inglesa e francesa que dominavam, em função das suas proveniências. Muitos tinham a cidadania inglesa obtida em Gibraltal ou a portuguesa concedida por mercê régia, ao longo do séc. XIX (J. M. Abecassis, Genealogia Hebraica, Portugal e Gibraltar, Lisboa, 1990).
               Portanto, não existem evidências em Angola de práticas religiosas comuns entre os judeus sefarditas (vide Aida, ibidem, pág 257). Quanto a nós, parece-nos que o facto se explica devido ao reduzido número de membros. Havia dificuldade, por exemplo, em conseguir reunir o núcleo designado por myniam que é constituído por um mínimo de dez homens, indispensável nas práticas litúrgicas. A falta de um rabino e de um templo, por exemplo, inviabilizavam certo tipo de cerimónias religiosas.
                Freudenthal sustenta que o declíneo do comércio na colónia de Angola, com a crise de 1929, devido a redução das transações, afectou muitas firmas comerciais, o que poderá ter motivado o retorno de  comerciantes sefarditas cujos negócios tinham ramificações em vários países da europa. O afrouxar das transações no comércio colonial trouxe alterações profundas que provocaram a diminuição da comunidade sefardita e a consequente integração dos seus descendentes na sociedade colonial. Para os que ficaram “assimilar passou a ser a palavra de ordem, daí ter sido um facto a aculturação dos judeus sefarditas”, concluiu a pesquisadora.
               Nos tempos aque ciorrem, a questão é descobrir quantos são e em que localidades se encontram a viver os descendentes dos emigrantes oriundos do magrebe africano e da Europa que se quedaram por Angola mesmo depois da crise de 1929. De certeza que não se tinham pura e simplesmente eclipsado, daí existir uma grande curiosidade perante certas dúvidas. Seria que ainda viviam em Angola? Com que matrizes se caracterizavam? Manteriam em comunidade os traços da milenar religiosidade e cultura judaicas ou se tinham simplesmente convertido ao cristianismo como acontecera com os marranos (cristãos-novos)? Ou ainda seria que tinham diluído as suas manifestações ancestrais nas práticas sincréticas dos cultos africanos?    
               Na altura havia também a considerar uma delicada situação: seria que  os angolanos detentores de ascendência judaica estariam na disposição de aceitarem em público o facto de serem eles, também, judeus descendentes? Após a independência de Angola em 11 de Novembro de 1975, muitos deles tinham conseguido ascender a lugares de destaque na hierarquia do poder. Outros se tinham integrado nas forças armadas e tinham participado nas guerras angolanas sem que alguém lhes tivesse impedido sequer de lutarem pela sua pátria devido ao facto de terem a correr nas suas veias resquícios de sangue judeu.   
                Actualmente, na sua totalidade, estes indivíduos encontram-se profundamente inseridos na matriz sócio- cultural angolana. São detentores das inerentes qualidades de nacionalidade e cidadania como os demais. Para muitos deles, talvez não exista interesse a exposição dea suas raízes judaicas. Preferirão, provavelmente, a fim de evitar mal-entendidos e a eventualidade da acção de sectores arreigados aos seus atávicos preconceitos anti-semitas.

                        JACQUES ATTALI E O FRASCO DE ENXOFRE

                 Inesperadamente ou talvez não tanto, eis que, novamente, tenho em mãos o assunto dos judeus em Angola, após o mesmo ter hibernado por longo tempo no baú do esquecimento. Não obstante os anos passados,  o enigma permanece. Não restam dúvidas de que se trata de uma abordagem complexa, intrincada e provavelmente polémica, muito susceptível a eventuais conexões que se lhes podem aduzir.
                  Experimento a mesma sensação que arrasou Henry Sobel quando escreveu o prefácio da edição brasileira de um livro fascinante e perturbador de Jacques Attali que analisa de forma brilhante e extensa as possíveis razões históricas, sociais e teológicas que permitiram que os judeus se catapultassem para o domínio das finanças internacionais, municiando, em contraponto, o tradicional leque de inimigos e detractores anti-semitas que vão desde os cristãos que acusaram os judeus de “terem sugado o sangue de Cristo” até o acicatar das versões mais perversas do fundamentalismo Islâmico.
                 Jacques Attali é um judeu francês de ascendência argelina, um Guru em matéria de banca e finanças. Funcionou no Eliseu como conselheiro especial do presidente François Miterrand durante 10 anos, na década de oitenta. Actuamente é um dos intelectuais mais respeitados no seu país, a França. Publicou dezenas de obras literárias, entre as quais o polémico “ Les juifs, l´argent et le monde” publicado no Brasil em 2011 pela Editora Saraiva com tradução literal do sugestivo título original: “Os judeus, o dinheiro e o mundo”.
                 No prefácio, Henry I. Sobel que é o presidente do Rabinato da Congregação Israelita de S. Paulo disse, num sincero assomo de desencanto e perplexidade: “ preferia que tal obra jamais tivesse sido escrita”. E por ali não ficou. Não suportou o irreprimivel melindre pelo facto de J. Attali, o autor, ter esmiuçado a relação “supostamente obsessiva” entre os judeus e o dinheiro desde tempos remotos. “Não entendo-frisou o rabino- porque uma pessoa esclarecida queira retomar o assunto logo agora, numa época em que o anti-semitismo dá sérios sinais de recrudescimento no mundo inteiro”.
                  Pareceu-nme que o único conforto encontrado nas palavras escritas pelo rabino de São Paulo é que o autor, já na etapa final do livro, por intermédio de novas interpretações de factos já conhecidos, conseguiu comprovar a salvadora tese, segundo a qual, o propalado apego dos judeus ao dinheiro não resultou de uma “opção”, mas sim de uma “imposição” de factores circunstanciais. É consequência dos seculares exílios, das perseguições e da dispersão desde as viagens dos patriarcas com a peregrinação pelo deserto do Sinai a caminho da Terra Prometida. Resultou destas circunstâncias que “o dinheiro foi o único bem portátil dos judeus e o seu privilegiado instrumento de sobrevivência”.
                  Tal como sucedera com Henry Sobel, a bola sobraria irremediavelmente para mim, desde o momento em que o jornalista Itamar Souza publicou na edição de Julho de 2013 da revista “África 21” um artigo com o título “Judeus, o destino passou por Benguela” no qual alude a um projecto de instalação de uma colónia de 600 mil judeus em Angola, empreitada sonhada por um grupo de intelectuais judeus, entre os quais Alfredo Bensaúde, Jacob Teitel, Wolf Terló e Israel Zangwill, isso no início do século XX. No entanto, os 159 colonatos previstos nunca chegariam a ser instalado nas terras férteis vale do Cavaco, no litoral de Benguela, onde “não existiam árabes palestinianos” ( www.fmsoares.pt/aeb/crono/id?id=01855 acessado em 15/05/2013).
                  A verdade, porém, é que nunca se viria a verificar uma migração em massa de judeus da Europa e do Norte de África, rumo a colónia portuguesa de Angola, com o fito de Zangwill, se instalarem, conforme pretenderam Alfredo Bensaúde e seus pares. Nem foram encontradas referências credíveis de judeus que fugiram dfa europa por alturasv da Segunda Guerra Mundial iniciada am 1939.
                 As gerações de angolanos que existem actualmente com sangue judaico, descendem, salvo alguma excepção,  dos judeus sefarditas que chegaram esparsamente à Angola na segunda metade do século XIX. Freudenthal menciona uma reduzida lista com os nomes de famílias entre as quais despontam Amzalak, Ashai, Azulay, Bendrao, Benchimol, Benoliel e Cohen. Estes são descendentes de judeus que nada tinham a ver com os planos de Israel Zangwil e Alfredo Bensaúde. Individualmente ou em pequenos grupos familiares, se foram estabelecendo progressivamente entre Benguela e Luanda, factos aliàs, já referenciados por Aida Fredenthal no livro “Judeus em Angola-séculos XIX-XX”, que vimos referindo amiúde e no qual é analisada a diáspora sefardita na mais importante colónia lusitana de África.  
                Porquê voltar a falar dos judeus em Angola? O que se pretende? Ora, não estão descuradas interpretações grosseiras, nem o evoluir de premeditados preconceitos de que seja intenção do autor reconstituir árvores genealógicas com potencial suficiente para fazer ressurgir na sociedade angolana uma categoria de pessoas diferenciadas.
                Assistem-nos razões justificadas exclusivamente pela investigação científica, para pegarmos em mãos a abordagem da questão, ainda que com a estranha sensação de estar destapando uma vasilha de enxofre no meio de um público imprevisível que, a qualquer momento, nos pode fazer sentir o desconforto do estigma. Referimo-nos a pessoas que cultivam preconceitos e esperam simplesmente oportunidades, quaisquer que sejam, para destilá-los de forma hostil contra os judeus, tido por povo errante desde a antiguidade, condenado à dispersão e ao exílio permanente sofrendo na carne e no espírito ignomínias e uma infinidade de crimes horrendos que a História registou nos seus anais.

                                           CONCLUSÕES

                À guiza de conclusão, pelos factos apontados, não pode ser posta em causa a existência de uma herança judaica em Angola. Contudo, concordamos com Aida Freudenthal quando formula que na actualidade, não existe no país uma comunidade judaica como tal, formada por descendentes dos judeus sefarditas, provida de sinais identitários exteriores comuns. Portanto, os descendentes já não praticam a religião dos seus antepassados.
                Nas pesquisas sobre a presença de Judeus em Angola, nunca foram encontrados sinais ou relatos credíveis da edificação no território de uma sinagoga ou outro templo para servir como local de culto mesmo nas zonas de maior concentração como Catumbela e Benguela. Em Moçambique foi construída uma sinagoga e judeus abastados saíam de Angola para a colónia do Índico a fim de cumprirem os rituais judaícos, como atestam os historiadores.
                Ao longo de século e meio, as sucessivas gerações foram assimilando os aspectos da cultura local e nela se integraram naturalmente como mais uma peça do mosaico angolano de tal sorte que, para se conhecer a dimensão e composição da prole deixada pelos judeus sefarditas, é exigido trabalho apurado devido a falta de fontes materiais.
                Do que se investigou até hoje, para além dos nomes e sobrenomes de raiz hebraica que se mantiveram intactos, os vestígios materiais da herança judaica em Angola resumem-se nas nove sepulturas alinhadas com inscrições em hebraico e português no cemitério municipal de Benguela ao lado de campas cristãs. São referidas outras 13 na vila da Catumbela (Alberto Iria, idem) e umas poucas na antiga vila de Bela-Vista, hoje chamada Catchiungo, na província central do Huambo.

*Advogado e Jornalista. Director das Edições Novembro-E.P. na província de Benguela.
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sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Advogado: realizado o sonho do meu avô.

               Este ano tornei realizado o sonho do meu Avô Jaime Azulay, de quem herdei (digo isso com muito orgulho) o nome e a Honra. Fui adsmitido como membro efectivo da Ordem dos Advogados de Angola (O.A.A.) e de ter recebido a cédula profissional correspondente. Meu Avô foi severamente injustiçado nos anos 50. Ele jurou,m entre as lágrimas dos seus algozes que um dia teria um Advogado na família.
              Me é proporcionada agora,  a oportunidade de expressar os meus sinceros agradecimentos ao meu patrono de estágio Sr. Dr. Valdemar Correia que durante 2 anos soube fazer mais do que lhe era exigido pelo regulamento de estágio da O.A.A. Foi um verdadeiro mestre e conselheiro, de tal sorte que me considero privilegiado por termos partilhado uma profícua convivência baseada no respeito mútuo, momentos que jamais se apagarão da minha memória e serão o meu farol nos momentos em que as adversidades baterem à porta.
               Votos extensivos aos magistrados judiciais e do Ministério Público com os quais contactei profissionalmente em diferentes processos, bem comos os oficiais de justiça e demais funcionários dos cartórios e secretarias das salas do Tribunal Provincial de Benguela e do Tribunal Provincial do Lobito. Especial referência aos juízes e procuradores do Ministério Público e demais pessoal do Tribunal Militar da Região Naval Sul pelo exemplo de profissionalismo e de respeito com que sempre me brindaram.
               Finalmente um agradecimento a todos os constituintes que confiaram em minhas humildes mãos a nobre tarefa de defesa dos seus direitos e liberdades e que me permitiram, mais do que melhorar como advogado, tornar-me numa pessoa mais sensível e solidária para com todos os que clamam por justiça em Angola e no mundo.
               Por ocupar um lugar especial no meu coração um "sempre juntos!" a minha querida família.
Bem Hajam!
(Publico a foto para constar e um pequeno texto que escrevi à propósito)

               A expressão “Advogado” deriva do vocábulo latino “ad vocatus' que significa “ aquele que foi chamado” . No “ ius romanum” significava a terceira pessoa a quem o litigante chamava perante o juízo, a fim de argumentar a seu favor, ou seja, defender o seu interesse face às pretensões da contra-parte.

A advocacia classifica-se no rol das profissões mais antigas e duradouras do mundo. Para não irmos muito além, Cícero já exercia tal ofício em Roma, há 2000 anos. Nos tempos actuais é reconhecida importância crescente ao papel desta nobre profissão que chama a si a defesa e representação de interesses alheios perante a justiça e o poder.
               Portanto, desde os seus primórdios, o Advogado foi sempre um elemento-chave para que questões conflituantes fossem dirimidas por critérios de equidade e de justiça segundo as normas de conduta existentes, o que, à partida, conferia ao próprio Advogado um estatuto social e legal ao qual correspondiam determinadas exigências e requisitos.
Na verdade, o exercício de qualquer profissão que se relaciona com seres humanos possui uma ética que lhe é intrínseca. Nesta conformidade, facilmente podemos concluir que a advocacia assume uma dimensão acrescida, agregando em si um factor de imprescindível serviço à comunidade na qual o advogado se encontra plenamente inserido e com a qual se relaciona reciprocamente.
               Ubi societas, ibi jus, brocardo latino do qual decorre a própria existência do direito entendido no sentido central da palavra, como sistema de normas de conduta social, assistido de protecção coativa no dizer do Professor Dr. João Castro Mendes (Introdução ao Estudo do Direito, Edições PF, Lisboa, 1994).
O cariz social a que aludimos, resulta para o Advogado num desafio cuja linha de intervenção se consolida atravès do imperativo de que ele é um servidor da justiça, o que acarreta, como consequência, uma inequívoca antecipação aos benefícios particulares e individuais que o exercício da profissão lhe pode, à primeira vista, proporcionar.
               O Advogado é um homem oriundo da sociedade. Em seu redor gravita a legítima expectativa comunitária de uma afirmação equilibrada na procura de soluções para os casos controversos que a cada dia afloram na própria comunidade. Este objectivo se consuma por meio de uma actuação dinâmica na defesa dos direitos, razões e interesses dos seus concidadãos.
               A advocacia é uma actividade que se exerce dentro de um rigoroso quadro ético e de uma exigência de disponibilidade absoluta. Enquanto operador do Direito, espera-se que ele seja um hábil mediador de conflitos. Que, atravès de uma conduta exemplar, ele se torne o “conselheiro e o refúgio daqueles que, em torno de si, clamam por Justiça”.
               Pretende-se que o Advogado deve ser aquele a quem as pessoas confidenciarão “os seus problemas, angústias e desejos, incluindo os mais particulares e íntimos”. Deve ser zeloso cumpridor do mandato daqueles que lhe confiaram a defesa dos seus direitos e liberdades. Encontra aqui a sua plenitude uma emblemática expressão de Voltaire segundo a qual “a mais bela função da humanidade é a de ministrar a Justiça.” E o Advogado participa integralmente neste desiderato porque sem a sua presença e participação não é possível realizar-se justiça.
               Reafirmação a premissa segundo a qual o Advogado é uma peça essencial para a administração da justiça e um instrumento básico para assegurar a defesa dos interesses das partes em juízo. Por esta razão, não estamos perante simplesmente mais uma profissão em regime liberal, mas sim de um munus publicum, pois, o seu nobre exercício reveste-se, em última análise, de um encargo público, embora o advogado não seja um agente estatal.
               Dado que o advogado se posiciona como um dos elementos-chave da administração democrática do Poder Judiciário a sua missão não se esgota na mera defesa das partes, cujas circunstâncias ficam à sua inteira responsabilidade. Torna-se imprescindível que o Advogado intervenha sempre com lealdade esclarecendo de forma clara clara todas as dúvidas existentes.

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