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domingo, 25 de outubro de 2015

O que preocupa em Luaty Beirão

                 O que preocupa em Luaty Beirão
Jaime Azulay

     Ao rejeitar o lancinante apelo de sua esposa, Luaty Beirão assumiu ir até as ultimas consequências na greve de fome que observa há 34 dias, caso não seja decretada a suspensão da prisão preventiva em que se encontra desde há 3 meses.
     Numa carta aberta publicada nas redes sociais, Mónica Almeida implora: “prefiro-te marido, pai e amigo a ter-te como mártir”. 
      Recorda-lhe a promessa feita quando a filha Luena veio ao mundo: “quero lembrar-te da promessa que me fizeste quando recebeste a Luena dos meus bracos, minutos depois de ela ter nascido: que a partir de agora a coisa mais importante da tua vida é ela”.
    Tenta persuadi-lo mais adiante com palavras ternas que tocariam fundo o coração de qualquer homem sensivel: “ “ Tu és o nosso herói, o exemplo de pai presente, o exemplo de marido honesto e um homem de palavra. Amamos-te muito... conto, desta vez,  persuadir-te a acabar com a greve de fome, pois há uma promessa acima desta que tens mesmo de cumprir, não por mim mas pelo nosso tesouro”.
     Dias antes, Luaty ignorara também o apelo dos companheiros do conhecido processo 15, onde são acusados da autoria de actos preparatórios de uma rebelião que tinha como objectivo uma mudança não constitucional das instituições estatais, entre as quais o presidente da república.
     Promessa? Bem maior? Altruísmo e compaixão? Nada disso parece existir agora em Luaty. Vinga apenas o  culto de uma obsessão de gloria voltada para si próprio, o que o torna incapaz de escalonar o seu projecto de luta de uma maneira diferente.
     A sua visão do mundo e da vida alicerçam-se em critérios estritamente pessoais, razão pela qual dispensa resolutamente a necessidade de aceitar a realidade que o cerca, e acatar os apelos e pedidos da romaria que se ajoelha em seu redor no leito da clinica “Girassol” em Luanda.
Esta intensamente absorvido pelo capital que despertou na opinião publica e refugia-se na ideia da validade e prevalência ilimitadas dos seus parâmetros pessoais, sobre quaisquer outras escalas valorativas.

Luaty Beirão tem 33 anos de idade. É mais novo do que um dos meus filhos. Seus companheiros chamados "revus" estão na faixa de outros rebentos meus. Tenho idade de ser pai de qualquer deles, por esta razão me preocupa o seu estado de saúde e a situação carcerária em que se encontram todos eles e o futuro do nosso pais, de uma maneira geral.
A verdade é que também fui um jovem inconformado como eles. Vivi a minha juventude, desde os 14 anos, entregue a uma causa na qual acreditei e dela espero nunca estar irremediavelmente arrependido, devido ao símbolo da suprema conquista do povo angolano, a independência nacional que dentro de dias comemoraremos o 40 aniversario.
Porque razão Luaty insiste prosseguir a greve de fome, enquanto os restantes companheiros tomaram a decisão sensata, apesar de difícil, de desistir e aguardarem, sob a detenção decretada, o julgamento marcado para iniciar no próximo dia 16 de Novembro?
Seria ingenuidade acreditar que o caso “15+2” não tenha extravasado os marcos de um processo exclusivamente judicial. Imperdoável patetice seria também escamotear que a dinâmica do processo não tenha assumido repercussões políticas e mediáticas de tal envergadura, que o seu desfecho não seja susceptível de repercussões na vida das pessoas.
O que me perturba em Luaty é a persistente expressão desafiadora, ensimesmada na sua figura esquálida, esticada no leito hospitalar, os dedos entrelaçados nas mãos cruzadas sobre cavidade do ventre. Obstinadamente, uma enigmática centelha transborda das entranhas dos seus olhos escuros e vazios, aparentemente indiferente ao “flash”  das câmaras dos jornalistas.
As autoridades judiciais descartam até ao momento outra solução que não seja os 'revus' aguardarem o julgamento na condição de detidos e já rejeitaram qualquer interferência externa na solução do caso. Inclusive denunciaram que os "revolucionários" estão a ser usados numa campanha orquestrada por círculos estrangeiros que sempre se opuseram as conquistas do povo angolano.
As horas passam e a corda está a esticar demasiado. O tempo está a favor dos pequenos, Luaty parece conhecer muito bem isso. Tal como sabe que o poder vigente não tolera os meios que supostamente pretendia eleger para fazer ouvir as suas reivindicações.
O que assusta em Luaty é concluir a possibilidade de ele acreditar estar a viver na plenitude os seus dias de glória, por ter conseguido desafiar o sistema como um todo, como antes ninguém o tinha feito sem qualquer arma de guerra nas mãos,  alcandorando-se na eventual inconsistência da acusação e de eventuais erros processuais.
Terá ele chegado ao ponto crítico de pensar que, a irredutibilidade da sua greve de fome conseguirá encurralar um poder alicerçado num exercício de 40 anos consecutivos, parte dos quais no meio de uma longeva guerra fratricida, da qual saiu vitorioso?
O que motiva então o Luaty Beirão ?
Terá assumido a causa com tamanha intensidade que, desistir da greve agora, seria motivo de desonra e humilhação para os seus ideais ou convicções de luta?
Ou será ele a própria causa da luta?
O que estamos a observar em Luaty não será a representação de uma versão do “nihilismo” característico dos anarquistas europeus do século XIX?
Quanto a Luaty ser ateu, isso pertence a sua esfera de liberdades e nada tenho a declarar. Todavia gostaria de recordar Nietzsche, quando afirma que  o ciclo “nihilista” só se completa no momento em que se nega os valores de Deus e a pessoa aprende a ver-se como Criadora.
Ou parafrasear o escritor russo Dotoievski no momento em que um dos personagens do livro “Os irmãos Karamov” declara assustadoramente: “ se Deus esta morto, então tudo é permitido”.
Causar comoção social extrema e sentimentos profundos nas outras pessoas, incluindo na família, através da auto-flagelação pela fome e deixar-se esvair, ao limite, evocando motivações cívicas e ideais de nobreza no exercício da cidadania não é uma arma digna dos verdadeiros combatentes pela liberdade.
Tanto quanto se sabe, Luaty terá vivido grande parte da sua vida no estrangeiro e frequentado excelentes escolas europeias. Possui formação superior em duas áreas, ao contrário de seus confrades "revus", oriundos das camadas desfavorecidas da periferia luandense. Seu pai, José Beirão, também engenheiro, era figura próxima ao restrito círculo do presidente Eduardo dos Santos e foi um dos mentores e primeiro director geral da FESA ( Fundação Eduardo dos Santos) uma organização que os seus detratores afirmam ser um dos suportes do culto de personalidade do presidente.
A verdade é dura e amarga.

Cada dia a mais na insistência em prosseguir na renúncia em alimentar-se, fará diminuir drasticamente as probabilidades da sua sobrevivência. Segundo os médicos, o ponto de não-retorno poderá acontecer a qualquer momento. Se tal suceder, estará consumado o martírio, ou a tragédia , se preferirem.
Um desfecho fatal do caso Luaty desencadearia mais um trauma na franja mais sensível da nossa sociedade, a juventude.
Termino com um trecho da letra da cancao de um trovador da nossa Benguela: “se me roubas é porque tens fome. Se me matas é porque tens medo”.
Que Deus proteja a nossa Angola amada!
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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Luanda fica longe

                              LUANDA FICA LONGE

          Quando chegamos à Luanda de automóvel, sentimos despertar, por dentro, um rosario de emoções intensas e contraditórias. Tomamos a estrada do Benfica, após subir o morro do museu da escravatura. Um pequeno tremelique nos faz abanar da cabeça aos pes. Ei-la. Está ali: Luanda, a terrível. Chamo-a assim por deferencia estritamente pessoal. No fundo, ela tambem ë parte de mim.      
               Miro-a atraves da janela do carro. O Mussulo a flutuar, aparentemente impassivel, como um dongo esculpido na mafumeira do mar. Os prédios avistam-se ao longe, coados pela distância, erguem-se para o céu como lancas anunciadoras da nova era. Muitas obras em curso, novas urbanizações, chineses por todo lado. Lindas e modernas edificacoes, sim senhor. contudo, o areal vermelho de antanho não engana, nem deixa enganar. Tem musseque ainda, coberto pelo manto da miséria que o colono deixou e nos, que nao nos deixamos, reciclamos cientificamente. Os manuais ensinam porque razão se emigra para a capital: em África quem vive longe da decisão lhe esquecem m'bora com ele. Nós, o povo especial, ingerimos com sofreguidão o manual completo, para não variar. 
             Para se viver aqui na Nguimbi tem de se saber dar palpite sobre todos os mambos, mesmo que o assunto seja o programa espacial da NASA, ou uma migracao de passarinhos na Gronelandia.

             Mesmo assim chegamos! Luanda, a nossa metrópole! Terra dos vivos e dos vivaços. Aqui o cabrito come onde está amarrado. Mesmo o velho cágado sabichão não sobe à árvore sòzinho, lhe empurram com ele. Cidade grande! Tem gente versada nos esquemas da ginga, para o fogo não apagar nos fogareiros nem o pão cair no gasoleo. E também para as as crianças não quebrarem o lápis cedo. E depois, quem nos vai acudir, quando a velhice chegar?
            Luanda, a arena de exímios gladiadores no corpo-a-corpo, das cabalas palacianas que dão caminho aos faustosos banquetes familiares e clânicos, que os há. Coitados dos buamados, para eles o sol jamais brilhará e as nuvens ameaçarão temporais de proporções bíblicas. As cisternas de São Pedro jorrarao sem clemencia as torneiras sobre a cabeça dos musseques e os entulhos de lixo nas ruelas serão a abundancia dos deserdados.
Na nguimbi o jogo é rapido, baliza-a-baliza. O buamado não apanha nada. São os "Mukuakuisa", os que vieram sem nome de família e já nozencontraram connosco mesmos. Como vamos aceitar nos tirarem agora? Vejam lá se isso tem lógica! No olho!
            Diz-se que mais de um terço da população de Angola vive por aqui. Avançamos em direcção ao Rocha Pinto. No ar continua a pairar o encanto do característico cheiro das coxas de frango. Inumeros grelhadores caseiros expõem ao ar livre o apetecido petisco luandense, importado de qualquer estranja. Na luta pela vida, não resta tempo para ir à casa pitar. Os passantes são buereré. Após o petisco, uma mana de calções elásticos colados ao corpo e uma buluza (é mesmo buluza, como cantou o Paulo) decotada, convida a malta para as competentes birras, tiradas do gelo, a estalar. Ela tem os lábios reluzentes, betumados com um escandaloso baton roxo. Na certa esqueceu os carrapitos que vavó fazia. Agora usa cabuleira pustícia, que lhe cai feiamente para as costas nuas:- "Mano si vuce que um bardi de birra pede só, paga no fim". Ela sorri um sorriso de coxa grelhada, convidativa, maliciosa. Parece a mana se vende com cerveja à balde, ou melhor, à balde com cerveja, que é o mesmo mas não é igual. São muitos candidatos a morder a coxa e a engolir o bardi.
                - Adeus mana das birras bardadas, a capital nos espera, para moer-nos as ossadas da paciência.O saco das gasosas já está preparado. Nunca falha. A fila de carros começa a ser longa, exasperamos. Avança-se aos soluços. Vai embrulhada uma espetada de moelas e uma fresquinha, medicamento milagroso para não perder o ânimo. Os "hiaces", autênticos predadores do tráfego surgem de todos os lados. Pela esquerda, pela direita, de frente, de tràs, autêntico bacanal rodoviário. Chamam "mbaias" às manobras para fugirem ao trânsito ordenado. Entram por onde querem, como querem e quando querem. Entram-nos aqui e depois vão entrar-nos mais à frente. Quem dá as ordens é o cobrador-gritador, geralmente um garotelho com cara suja e um maço de notas nas mãos sebosas, eh para facilitar os trocos. Esses garotos nunca guiaram uma bicicleta na vida. São eles que chamam a clientela. Têm voto na matéria. Quando gritam "mbaiaaaa !!!", o motorista não vacila, entra com o "hiace" em qualquer buraco.
              Chegamos em Luanda, como agora se diz; assim mesmo as pessoas falam, mesmo pessoa que reinvindica na televisao ser doutor. Queria vê-los a responderem a umas perguntinhas da minha professora Gracinda, que me transportou com a maralha do Inconcon e da Assaca desde a cabunga ate a 4ª classe no tempo do caputu, debaixo do olhar severo da gramática do Relvas. Haveria reguadas na certa, nem com caca de galinha nas mãos se safavam. Mas agora fica tudo na boa. Afinal sempre se completa o ciclo da comunicação, o importante é a gente se entendé, né mêmo? Depois tem bom fato italiano fabricado no Brasil, com gravata da "Gucci" trazida na muamba da China e ainda os sapatos de pele de lossengue indonesio, mais o exuberante Land-Cruiser metalizado.

           Ainda por cima no jogo jogado, vale tudo e tudo vale, mesmo picar no olho do outro muadié pra não fazer barreira. Tem até árbitro que apita parece ë brincadeira no areal ao meio dia: assinala o penâlti, depois o próprio marca o golo e nas calmas vai simbora com a bola, tipo nada. A bola é dele, lhe deram na família e agora ninguém pode lhe cassumbular. Ele é vijú, Uauééé!
Luanda fica longe!
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sexta-feira, 17 de julho de 2015

CAFE CHICUMA

Quando a revolução vingar
E as reformas se impuserem
Proletário povo de Angola
Avante! Avante!
Cultivar café
Algodão

E de Cabinda ao Cunene
Remover Montanhas
Florestas

Viva, viva, viva, viva!
Viva o  MPLA” 


                  Éramos jovens e destemidos. Pobres e sonhadores. Venerávamos os heróis tombados na luta de libertação nacional e éramos devotos ao nosso presidente, o Dr. António Agostinho Neto. Numa palavra, sintetizávamos o combustivel ideal para fazer avançar a máquina da revolução do poder popular. Mais uma vez, estávamos de mochilas às costas e novamente nos era pedido para avançar. Os cafezáis nas encostas montanhosas que circundam a Chicuma, distante cerca de 70 quilómetros da cidade da Ganda, confinando com Caluquembe e Chilata, eram o nosso próximo destino. 
          Chegaríamos decididamente ao nosso objectivo, fosse como fosse, ainda que tivéssemos de remover montanhas, como dizia a letra do nosso hino proletário. Durante certo tempo, viveríamos da mesma forma simples como viviam os camponeses explorados da Chicuma. Mostraríamos ao mundo a nossa incondicional devoção à causa revolucionária e, num extremo ritual de purificação, com as nossas próprias mãos, gretadas e dilaceradas, colheríamos os bagos vermelhos dos cafeeiros, nosso contributo para ajudar a economia de Angola a reerguer-se. 
                 27 de Julho de 1976, esse dia calhou num Sábado do calendário gregoriano. Recordo-me bem da data, porque acontecia o matrimónio da mais alta individualidade de Benguela, o Comissário Estêvão Gungo Arão, acabado de ser nomeado pelo presidente Agostinho Neto como dirigente da província. (Arão casava com uma prima minha). Do pouco que conheci, ele era um homem culto e bem parecido, quase sempre vestido com um bubú africano de tons vivos e alegres. 
           A primeira vez que vimos o nosso comissario provincial foi num comício, quando o apresentaram à população. Quem o trouxe para Benguela, após a nomeação, foi o então ministro da Administração Interna, o comandante Nito Alves. Tínhamos sido mobilizados a partir das escolas. O que nos espantou, foi que Nito Alves resolvera realizar o comicio no período da noite, o que não era normal. O habitual eram os atrasos nos horários para iniciarem as actividades revolucionárias.
                 Naqueles tempos, eu acreditava piamente que eram incontornaveis razões de segurança que levavam os chefes a sempre chegarem tarde às actividades que eles próprios marcavam. Com o desencanto do garoto que vê quebrado o seu brinquedo de estimacao, só muito mais tarde é que descobriria que, enquanto as massas ficavam horas esperando ao sol, os “muatas” estavam refastelados nas poltronas das salas de estar, gargalhando piadas de caserna e tomando do bom whisky escocês.    
                  Após uma longa espera, vimos repentinamente Nito Alves assomar à varanda do edifício do palácio, ladeado pelo comissário Estevão Gungo Arão. O ministro  cerrou os punhos para a multidão excitada e gritou com firmeza:-“Um só povo! Uma só Nação! A Luta Continua, a Vitória é Certa!”- de seguida desfiou um discurso flamejante, muito aplaudido pelo pessoal espalhado pelos relvados da antiga casa dos governadores do distrito de Benguela. 
                Um ano depois, estes dois homens partilhariam um trágico destino: em Maio de 1977, Nito Alves seria acusado de liderar, em Luanda, uma intentona golpista contra o presidente Agostinho Neto. A radio nacional que esteve momentaneamente nas maos dos revoltosos tinha sido retomada. A intentona fracassara, graças a intervenção de militares cubanos que se encontravam em Angola. Na sequência de uma implacável purga interna no MPLA, Estêvão Gungo Arão seria igualmente detido e nunca mais a família o veria, nem vivo nem morto. Nito Alves, por seu lado, seria executado após ter estado a monte durante algum tempo.
                Naquela manhã cinzenta de Julho, típica da época de cacimbo, o comboio do CFB com as brigadas de estudantes a bordo, partiu da velha estação, descreveu a curva do Quioche e cruzou a ponte do Cavaco. Durante 15 minutos a locomotiva diesel-eléctrica esgueirou-se por uma galeria entre o canavial da açucareira e a estrada asfaltada, ladeada de palmeiras de dendê, até chegar ao nó da estação do Negrão. 
            Enquanto circulávamos pela zona do Capiandalo, o Pina disse-me ao ouvido que levava na bagagem uma lata de leite “Nido” abarrotada de apetitosos torresmos feitos por sua mãe e deu-me um a provar. 
          -Guarda isso, que vamos precisar nas emergências, disse-lhe enquanto o torresmo crocante se desfazia na minha boca. 
         -Emergências? Vamos ter emergências?- o Pina riu-se a fazer a pergunta, tentando adivinhar alguma premonição nas minhas palavras. 
            Nas carruagens o ambiente era de autêntica euforia entre os brigadistas recrutados nas escolas. No Negrão, os maquinistas iniciaram as manobras. Após acoplar com outra composição oriunda do lobito e lotada com estudantes daquela cidade, o trem inicou a viagem para Mariano Machado, à Leste, utilizando a nova ferrovia da Variante do Cubal. 
           Os tempos vividos naquela altura eram de autêntica euforia. A independência tinha sido proclamada poucos meses antes e o estribilho de que estava ser forjado o paradigma de um Homem Novo em Angola espalhou-se por cidades e aldeias. Nós estávamos inseridos de corpo e alma no processo. 
                 A participação de estudantes do secundário e dos liceus na campanha de colheita de café, pelo seu intrínseco simbolismo, funcionava como a confirmação de que um novo conceito de política havia- se incorporado na vida dos angolanos e ninguém podia distanciar-se dele. A divisa era clara nos discursos dos lideres da revolução do poder popular e nos slogans do movimento : -“quem não está connosco está contra nós”. Assim eram rotulados os contra-revolucionários, uma casta à qual era necessário dar combate já e agora.
               Assim, fechava-se o espaço para aqueles que pretendiam manter uma neutralidade, de certo modo interesseira, pois, sempre dava jeito estar em cima do muro, caso ocorresse uma nova mudança no poder. No entanto, para estes, a cartilha marxista-leninista que nos era inculcada ate a exaustão, tinha uma resposta implacável: com o aprofundar das contradições resultantes da luta de classes, os indecisos não exitarão, mais tarde ou mais cedo, em juntar-se à contra-revolução interna e externa e virar as armas contra o nosso povo. 
                  Os eventos sucediam-se com grande impacto sobre todos e sobre tudo. O acontecer nacional fervilhava, com a revolução a afirmar o seu carácter selectivo, rejeitando os que vacilavam em dar a sua contribuição no momento em que fossem solicitados pelas chefias e seus mandatários. 
                 Ainda em Novembro de 1975 começaram as nacionalizações de tudo quanto o colono tinha deixado. O rol patrimonial ia desde as empresas, armazéns e lojas de bairro, até aos luxos imobiliários mais abastados, que rapidamente ficavam sob tutela dos comandantes e dos chefes revolucionários. Os legítimos representantes dos operários e camponeses não se faziam rogados em desfilar com os BMW, Mercedes, Audi, pertença dos odiados colonos em debandada.
             Pelo que víamos, mas nao nos apercebíamos na altura, era que, neste capitulo, as preferencias dos comandantes revolucionários e dos contra-revolucionarios burgueses pelas mordomias materiais e outros luxos, não conflituavam entre si, aliás, na pratica pareciam coincidir plenamente .
            Os proprietários que tinham optado por permanecer no país eram sistematicamente solicitados em “dar a sua contribuição”. À torto e a direito requisitavam-se compulsivamente viaturas particulares, quando fosse necessário cumprir qualquer tarefa politica, desde os intermináveis comícios, as buscas, as rusgas e as mais diversas campanhas, para as quais se tivesse de movimentar as massas proletárias.   

                        AS PRIMEIRAS REVOLTAS

                  -“Camaradas, vamos mostrar aos contra-revolucionários e aos capitalistas a força da nossa juventude e o carácter socialista do nosso processo, com a consolidação da aliança operário-camponesa, como disse o camarada presidente”, gritou um responsável da JMPLA no rescaldo da primeira revolta estudantil junto à cozinha do acampamento, devido a falta de comida. 
            Na Chicuma, já há alguns dias os armazéns de víveres estavam às moscas, em consequência, as panelas tinham ficado vazias. Milagrosamente, a lata de torresmos do Pina continuava apetrechada e com uma cotação bastante alta. Com torresmos conseguíamos adquirir cigarros, pasta dentífrica ou umas colheres de açúcar. Certa vez, o Pina foi jogar batota às cartas e, em vez de dinheiro, propôs bancar na mesa de aposta os seus deliciosos torresmos. A proposta seria aceite, após uma prolongada discussão, a fim de se atribuir uma cotação a cada torresmo, que, para complicar, não eram todos do mesmo tamanho. 
                  Nesse dia da revolta, havia centenas de brigadistas enfileirados defronte à cozinha, com pratos e canecas a tilintar nas mãos. Rapidamente gerou-se um tumulto generalizado, que teve o condão de abrir a porta a outros que se seguiriam no aglomerado de edificações ajardinadas, com uma ampla piscina. A herdade pertencia a um abastado industrial alemão que tinha fugido da guerra. 
                O micro-clima da Ganda atraira desde os anos 60 uma colónia alemã que se instalou na região criando extensas fazendas de café. Em 1973, Angola tinha sido o terceiro exportador mundial de café. A idéia dos lideres revolucionários, era de que se com o colono tinha-se atingido aquela cifra, agora, que trabalhávamos para nós próprios, poderiamos com muita facilidade pulverizar a producao conseguida pelos colonos portugueses. 
                   Na revolução não havia meio-termo. Era época de tudo mudar, obsessivamente. Revirar tudo o que tinha sido herdado do colono, até a maneira de pensar das pessoas. A ninguem admirou que, no fervor da mudança radical do sistema, começaram a acumular-se erros atràs de erros. O movimento de rectificação lançado pelo movimento, por si só, não conseguia pôr cobro às correcções que se impunham. A própria abordagem da revolução, sobre as soluções a adoptar para solucionar os problemas políticos, económicos e sociais estava impregnado do espírito romântico e temerário trazido das matas pelos guerrilheiros. 
               A campanha do café na Chicuma e Babaera, para onde foram encaminhados milhares de estudantes em situação de segurança e logística periclitantes, viria a mostrar que não bastavam as nobres intenções dos líderes do país ou aspirantes a isso, para fazer avançar a economia e, por via disso, melhorar as condições de vida das pessoas. A reforma agrária dava mostras de sucumbir mesmo antes de ser parida. O que estava no papel discursivo dos muatas, não passaria disso. Na prática, revelavam-se acções atabalhoadas e paranóicas, visando revolucionar até a consciência nacional.
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quinta-feira, 18 de junho de 2015

O Padrinho

Sentado no sofá vou revendo a terceira e última parte da saga "O Padrinho" de Mário Puzzo e do inigualável realizador Francis Ford Coppola. Tudo inicia com a marca imortal de Marlon Brando, quanto a mim o maior artista (não é actor, é artista mesmo) que eu já vi na tela. Ou provavelmente acabe assistindo em pé, como um poste no meio da sala, para não correr o risco de adormecer fastidiado por conhecer de cor e salteado o enredo do filme. A trama chega ao fim com o genial Al Pacino nas vestes do patriarca Corleone, o mafioso dos mafiosos. Debilitado e diabético, Corleone tenta agora arrumar a vida direito, mas vai desconseguindo, porque os demónios andam à solta. E ele dá conta disso. Chega a confessar-se ao cardeal-futuro-Papa, revela ter cometido monstruosidades, contudo, não demonstra nenhum arrependimento. Por acaso já assisti a fita. Como numa tempestade, as traições sucedem-se à velocidade de um raio. Dá-se a ascensão de Vicent, seu sobrinho, filho do irmão que ele próprio mandara matar. Vicent chega a namorar uma prima, donzela de inigualáveis atributos, toda ela generosa ternura. Contudo, a sede de poder obriga-o a acatar sem rebuço a ordem do tio. " -Rapaz, deixa a menina em paz e eu te darei todo poder". E assim o sobrinho renuncia ao amor platónico. Engole sofregamente o letal veneno, sem se dar conta que estava a selar um pacto com o diabo. Acto contínuo, Vicent se transforma, meteoricamente, no poderoso Don Vicenzo Corleone. Assim, a dinastia mafiosa segue garantida. Tudo se desenrola no meio de um rosário de assassinatos que, no seu auge atinge a prima amorosa de Vicent. Enquanto isso, Don Altobello dorme o sono do decesso no requintado camarote do teatro. Regalado com uma ópera siciliana ia deglutindo biscoitos envenenados. O vendaval estinge o auge. Nem o Papa recém empossado consegue safar-se. Também ele morre, no seu quarto no Vaticano, após ingerir uma taça de chá adoçado com cianeto. Na máfia é assim, quem entra, não pode sair quando lhe apetece, sentenciou irado D. Corleone, tentando justificar a purga. Como numa cadeia de predadores, na máfia, uns vão comendo aqueles que os precedem antes de serem comidos por aqueles que os seguem. Ainda bem que é filme. UFA!!
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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Túmulos judeus no cemitério de Benguela

     O sector Judeu no cemitério de Benguela fotografado em Janeiro de 2014. Durante muito tempo chegou-se a especular que tais campas tinham sido profanadas. Apesar do aspecto elas testemunham a presença sefardita em Angola.
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Lápide em hebraico de túmulo no cemitério de Benguela

         Túmulo com lápide em hebraico no cemitério municipal de Benguela, fotografado pelo autor em Janeiro de 2014. Existem nove sepulturas numa zona confinada, ladeada de campas cristãs. O testemunho material da presença de judeus sefarditas em Angola.
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Os judeus esquecidos de Angola. Mito e realidade da herança sefardita

JAIME AZULAY*

                                         INTRODUÇÃO

     No dia 2 de Maio de 2013 realizou-se em Cabo-Verde, no cemitério da Várzea, a cerimónia de descerramento da placa de 10 campas judaicas restauradas com a colaboração da Câmara Municipal da Praia e do governo daquele país africano. De acordo com o jornal “Expresso das Ilhas”, autoridades , membros da comunidade judaica internacional e descendentes cabo-verdianos presenciaram o acto. A recuperação do cemitério judaico da Várzea assinalou a passagem de mais de 150 anos da chegada dos primeiros judeus sefarditas à Cabo-Verde. Pretendeu-se assim preservar a sua memória e honrar as contribuições que prestaram ao desenvolvimento do arquipélago.
       Um dos benfeitores do Projecto de Preservação da Herança Judaica em Cabo-Verde é o Rei Mohamed VI do Marrocos, que se fez representar no evento pelo seu conselheiro sénior André Azoulay. Temos assim a situação insólita de “um monarca muçulmano a contribuir para um projecto judaico num país cristão”. No mesmo âmbito estão previstas pesquisas e trabalhos de investigação com instituições universitárias locais bem como um simpósio internacional em 2015 com a participação de pesquisadores africanos, da Europa e dos Estados Unidos da América. Para além do interesse científico, Cabo-Verde terá ganhos com o fluxo anual de mais turistas interessados em conhecer a herança judaica naquele país africano.
       O chamado povo judeu não é actualmente  reduzido somente à religião, raça ou cultura. O termo "judeu" originalmente era usado para os filhos de Judá, filho de Jacó. Posteriormente foi designado aos nascidos na Judeia. Depois da libertação do cativeiro da Babilónia, os hebreus começaram a ser chamados de judeus.
       A palavra portuguesa "judeu" tem origem do latim "judaeu" e do grego "ioudaîos". Ambas  vêm do aramaico," יהודי," que se pronuncia "iahude". A origem dos judeus é tradicionalmente datada para aproximadamente 2000 a.C. Na Mesopotâmia, aquando da destruição de Ur e da Caldeia forçou a população a imigrar para outros lugares. A família de Abraão estava entre os que  imigraram para a Assíria. Abraão é considerado o fundador do Judaísmo. (http://wikipédia.org/w/index.php?title=judeu&oldid=37881949, acessado em Janeiro 2013).
       Judeus anteriormente  presos e escravos dos romanos chegaram a “Sefarad” na Espanha, de onde viriam a ser expulsos mais tarde, em 1492, indo para o norte de África.
       Os "Sefarditas", oriundos de Marrocos e Gibraltar chegaram à Cabo-Verde em meados do século XIX, após a abolição da escravatura e de um acordo entre Portugal e a Inglaterra. Eles dedicaram-se predominantemente ao comércio internacional, à navegação e à administração pública.
       Entretanto, foi assinalada uma presença anterior ao século XIX que é, no entanto difícil de documentar. Tratavam-se de judeus convertidos ao cristianismo, os chamados “cristãos-novos”, como sustenta a pesquisadora Carol Castiel que lidera o projecto de Preservação da Herança Judaica em Cabo-Verde (CVJHP, sigla inglesa).
         A viagem contínua de judeus sefarditas no longon da costa oeste da África continental, no século XIX, estendeu-se a partir de pontos intermédios localizados nos arquipélagos dos Açores, Cabo-Verde e São-Tomé e dali em direcção às antigas colónias de Angola (com entrepostos ou filiais comerciais em Banana e Goma, actual R.D.C.) e Moçambique. Foram provavelmente atraídos por uma florescente actividade mercantil que lhes permitia, com os seus conhecimentos e aptidões, rapidamente obter fontes de sustento longe dos seus países de origem onde eram alvo de perseguição.
          Tal como atràs foi referido, ao longo dos séculos XVI-XVIII já pululavam pelo actual território de Angola os chamados “cristãos-novos” misturados aos grupos traficantes, contratadores e armadores envolvidos no tráfico negreiro Atlântico, como referem vários autores.
          Em 1492, entre 120 a 150 mil judeus espanhóis foram expulsos por monarcas católicos para Portugal, onde se juntaram aos 100 mil judeus portugueses. Nessa altura Portugal tinha 1 milhão de habitantes (www.comunidadesdeisrael.com.br, acessado em Novembro de 2013).
          Pressionado pela vizinha Espanha, o rei de Portugal ordenou, por Decreto, a conversão em massa de judeus que, não tendo outro local para  ir, resignaram-se ao catolicismo, formando os “cristão-novos”.   
           Segundo frisou a pesquisadora brasileira Anita Novinsky num trabalho sobre o passado judaico no Brasil ( Os cristãos-novos da Baía, Editora Perspectiva, 1972) a conversão à força dos cristãos-novos, os anussim ou injuriosamente designados por marranos por não comerem carne de porco, não correspondeu aos padrões do chamado cripto-judaísmo, conformado numa prática sincrética de cristianismo e judaísmo (oculto) utilizada posteriormente pelos judeus brasileiros.
             As entradas desses emigrantes no território, ao contrário do que acontecia noutras colónias, não foram objecto de registo. A saga em Angola é considerada pouco visível quando comparada à dimensão observada em outras áreas geográficas da diáspora judaica, como refere Aida Freudenthal, colaboradora do Centro de Estudos Africanos e Asiáticos do Instituto de Investigação Científica Tropical no livro  “Judeus em Angola-séculos XIX e XX”. Devido a sua incontornável referencialidade da obra em causa, a ela recorreremos sistematicamente ao longo da nossa abordagem, bem como à indispensável “Enciclopédia Judaica, Jerusalém, 1971” editada por Cecil Roth e G. Wigoder, “Os judeus em Moçambique, Angola e Cabo Verde, Lisboa, 1975” de Alberto Iria e ainda “Survival and adaptacion. The portuguese jewish diaspora in Europe, África and the new world, New-York, 2002” de Joseph Levi, entre outros.

                              EM BUSCA DA PROLE SEFARDITA

          Há cerca de 20 anos, assumi a responsabilidade de abordar a questão dos judeus de Angola, a pedido de uma fundação hebraica brasileira que me contactou atravès de um fax enviado para a estação de rádio LAC. Falei com o escritor Raul David, a quem expus as linhas do meu projecto. Raul aceitou trabalhar comigo. Na altura, o veterano escritor angolano contava mais de 80 anos de idade. No entanto, gozava de uma saúde juvenil e era privilegiado com uma memória de elefante. Como valor acrescentado ele conhecera pessoalmente muitos judeus espalhados por Angola desde as primeiras décadas do século XX. Eram esses indivíduos o nosso alvo e a quem iríamos seguir o rasto até aos seus descendentes actuais.
          Sabia-se de antemão que, com a necessidade de integração social, foi frequente a união entre judeus sefarditas e “filhas da terra”, o que tinha dado origem a agregados familiares com numerosa prole amestiçada. A proveniência urbana dos sefarditas marroquinos ou gibraltinos, tê-los-ia imunizado contra as teses racistas que estavam em crescendo sobretudo na europa (Aida Freudental, idem) o que provavelmente, na prática, terá facilitado esses relacionamentos. Contudo, punha-se a questão de os cânones hebraicos não considerarem judeus os filhos nascidos de uniões mistas, quaisquer que elas sejam.  
          A tradição normativa religiosa do hebraísmo, a Halachá (Lei tradicional da Torá) define que uma pessoa nascida de mãe judia é um judeu (www.chabad.org.br acessado em 30 de Janeiro de 2014) independentemente da sua cor ou nacionalidade. Um não-judeu pode converter-se sòmente de acordo com as condições haláchicas e a aceitação de todos os mandamentos da Torá. Segundo tais critérios, os casamentos mistos e a assimilação afastam o povo judeu das suas raízes. Para a Torá, todo o judeu tem valor intrínseco e é um componente essencial do povo judeu, sem o qual a nação inteira não pode realizar o seu pleno potencial” (idem). Na descendência judaica a linha matrilinear é maioritária, apoiada pelo "judaísmo rabínico", ortodoxo e conservador e é a que ganha mais força por ser apoiada pelo Estado de Israel.
              Todavia, existe a tese do judaísmo reformista que tem introduzido novas filosofias. A partir de Março de 1983 foi reconhecida a descendência paterna, mesmo que a mãe não seja judia, bastando que a criança "seja criada como judeu e se eidentifique com a fé judaica". Igualmente, contrariando as considerações “haláchicas” são destacados outros factores seculares, políticos e identificações ancestrais que definem quem é judeu de forma mais abrangente. O certo é que o povo judeu é heterogêneo do ponto de vista racial, fruto das migrações constantes e consequentes ligações com outros povos, que resulta numa miscigenação com evidentes disparidades morfológicas entre os indivíduos (vide a UNESCO e questão racial na ciência moderna, em http://pt.wikipedia.org ). Como o assunto é eivado de divergências insanáveis, deixámo-lo em aberto, pelo menos por enquanto.
             A procura de traços identitários de uma possível comunidade de descendentes judeus em Angola chegou a interessar também à Dra. Tamar Golan que ocupou o cargo de primeira embaixadora plenipotenciária de Israel em Luanda entre 1995 a 2001. Ela ficaria em Angola até 2003.
             Tamar tinha projectos culturais interessantes que não chegaram a concretizar-se. Em diversos momentos procurou estabelecer contacto com os descendentes dos judeus que viveram em Angola. Chegou a convidar-me para algumas celebrações judaicas em Luanda. Da única ocasião em que por lá apareci, lembro-me ter visto pessoas conhecidas de famílias angolanas descendentes. Quando faleceu a minha tia Isabel Azulay, a embaixadora enviou-me uma fraterna mensagem de condolências. Contudo, as coisas  ficariam por ali. Tamar Golan viria a falecer no dia 30 de Março de 2011.
            Com o escritor Raul David tinhamos garantido um filão para explorar com o qual sustentariamos as conclusões da pesquisa. Entretanto, observa-se o recrudescer da guerra em Angola ao longo de toda a década de 90. Pouco tempo mais tarde o inesperado acontece: Raul David morre em Benguela. O duro golpe e a situação de beligerância armada vigente no país levar-me-ia a arquivar o projecto por absolutra falta de motivação. Nesse interim receava-se pela integridade de um dos poucos testemunhos materiais indispensáveis a qualquer pesquisa sobre o assunto. Os vestígios dos túmulos judeus no cemitério de Benguela corriam o risco de desaparecer ou serem profanados, conforme várias pessoas alertavam.
           Tal como eu tinha inicialmente projectado com R. David, o desafio consistia em investigar a saga de judeus sefarditas que chegaram dispersos às então colónias portuguesas de Cabo-Verde, Moçambique e sobretudo à Angola no regurgitar da actividade comercial no século XIX. Depois disso, os judeus da África Ocidental ou os seus descendentes, ficaram esquecidos durante mais de um século. Sabia-se, isso sim, que tinham constituído famílias angolanas não só em Luanda e Benguela mas também no sertão, como na vila de Longonjo, onde por volta de 1930 os irmãos Benoliel tinham instalado uma cerâmica e com uma relativa prosperidade ficaram muito conhecidos em toda a região centro. Até hoje lá se encontram bem visíveis as ruinas da fábrica.
           Aida Freudenthal considerou prematuro definir uma identidade judaica sefardita em Angola, em razão da sua condição de minoria dispersa na vastidão do território. Os judeus acolhidos pela sociedade colonial nos séculos XIX e XX não tiveram a possibilidade de constituir uma comunidade coesa arreigada numa identidade própria, capaz de preservar os factores aglutinadores comuns, que os judeus mantiveram noutras áreas geográficas da sua conturbada diáspora. Para a pesquisadora, os dados até agora reunidos não permitem a elaboração do seu perfil sociológico, nem a sua identificação em judeus ricos e pobres, de assimilidos, liberais e ortodoxos. Contudo, tratando-se de indivíduos provenientes da região africana do Magrebe com uma vivência cultural resultante da estrutura social judaico-marroquina “não é absurdo supôr que partilhavam uma História e uma Cultura comuns”.
              Para além da religião, à peculiar forma como os judeus se alimentam, se vestem, as suas músicas e o uso do dialecto haquitia que integrava elementos do hebraico, espanhol e árabe, para além das línguas inglesa e francesa que dominavam, em função das suas proveniências. Muitos tinham a cidadania inglesa obtida em Gibraltal ou a portuguesa concedida por mercê régia, ao longo do séc. XIX (J. M. Abecassis, Genealogia Hebraica, Portugal e Gibraltar, Lisboa, 1990).
               Portanto, não existem evidências em Angola de práticas religiosas comuns entre os judeus sefarditas (vide Aida, ibidem, pág 257). Quanto a nós, parece-nos que o facto se explica devido ao reduzido número de membros. Havia dificuldade, por exemplo, em conseguir reunir o núcleo designado por myniam que é constituído por um mínimo de dez homens, indispensável nas práticas litúrgicas. A falta de um rabino e de um templo, por exemplo, inviabilizavam certo tipo de cerimónias religiosas.
                Freudenthal sustenta que o declíneo do comércio na colónia de Angola, com a crise de 1929, devido a redução das transações, afectou muitas firmas comerciais, o que poderá ter motivado o retorno de  comerciantes sefarditas cujos negócios tinham ramificações em vários países da europa. O afrouxar das transações no comércio colonial trouxe alterações profundas que provocaram a diminuição da comunidade sefardita e a consequente integração dos seus descendentes na sociedade colonial. Para os que ficaram “assimilar passou a ser a palavra de ordem, daí ter sido um facto a aculturação dos judeus sefarditas”, concluiu a pesquisadora.
               Nos tempos aque ciorrem, a questão é descobrir quantos são e em que localidades se encontram a viver os descendentes dos emigrantes oriundos do magrebe africano e da Europa que se quedaram por Angola mesmo depois da crise de 1929. De certeza que não se tinham pura e simplesmente eclipsado, daí existir uma grande curiosidade perante certas dúvidas. Seria que ainda viviam em Angola? Com que matrizes se caracterizavam? Manteriam em comunidade os traços da milenar religiosidade e cultura judaicas ou se tinham simplesmente convertido ao cristianismo como acontecera com os marranos (cristãos-novos)? Ou ainda seria que tinham diluído as suas manifestações ancestrais nas práticas sincréticas dos cultos africanos?    
               Na altura havia também a considerar uma delicada situação: seria que  os angolanos detentores de ascendência judaica estariam na disposição de aceitarem em público o facto de serem eles, também, judeus descendentes? Após a independência de Angola em 11 de Novembro de 1975, muitos deles tinham conseguido ascender a lugares de destaque na hierarquia do poder. Outros se tinham integrado nas forças armadas e tinham participado nas guerras angolanas sem que alguém lhes tivesse impedido sequer de lutarem pela sua pátria devido ao facto de terem a correr nas suas veias resquícios de sangue judeu.   
                Actualmente, na sua totalidade, estes indivíduos encontram-se profundamente inseridos na matriz sócio- cultural angolana. São detentores das inerentes qualidades de nacionalidade e cidadania como os demais. Para muitos deles, talvez não exista interesse a exposição dea suas raízes judaicas. Preferirão, provavelmente, a fim de evitar mal-entendidos e a eventualidade da acção de sectores arreigados aos seus atávicos preconceitos anti-semitas.

                        JACQUES ATTALI E O FRASCO DE ENXOFRE

                 Inesperadamente ou talvez não tanto, eis que, novamente, tenho em mãos o assunto dos judeus em Angola, após o mesmo ter hibernado por longo tempo no baú do esquecimento. Não obstante os anos passados,  o enigma permanece. Não restam dúvidas de que se trata de uma abordagem complexa, intrincada e provavelmente polémica, muito susceptível a eventuais conexões que se lhes podem aduzir.
                  Experimento a mesma sensação que arrasou Henry Sobel quando escreveu o prefácio da edição brasileira de um livro fascinante e perturbador de Jacques Attali que analisa de forma brilhante e extensa as possíveis razões históricas, sociais e teológicas que permitiram que os judeus se catapultassem para o domínio das finanças internacionais, municiando, em contraponto, o tradicional leque de inimigos e detractores anti-semitas que vão desde os cristãos que acusaram os judeus de “terem sugado o sangue de Cristo” até o acicatar das versões mais perversas do fundamentalismo Islâmico.
                 Jacques Attali é um judeu francês de ascendência argelina, um Guru em matéria de banca e finanças. Funcionou no Eliseu como conselheiro especial do presidente François Miterrand durante 10 anos, na década de oitenta. Actuamente é um dos intelectuais mais respeitados no seu país, a França. Publicou dezenas de obras literárias, entre as quais o polémico “ Les juifs, l´argent et le monde” publicado no Brasil em 2011 pela Editora Saraiva com tradução literal do sugestivo título original: “Os judeus, o dinheiro e o mundo”.
                 No prefácio, Henry I. Sobel que é o presidente do Rabinato da Congregação Israelita de S. Paulo disse, num sincero assomo de desencanto e perplexidade: “ preferia que tal obra jamais tivesse sido escrita”. E por ali não ficou. Não suportou o irreprimivel melindre pelo facto de J. Attali, o autor, ter esmiuçado a relação “supostamente obsessiva” entre os judeus e o dinheiro desde tempos remotos. “Não entendo-frisou o rabino- porque uma pessoa esclarecida queira retomar o assunto logo agora, numa época em que o anti-semitismo dá sérios sinais de recrudescimento no mundo inteiro”.
                  Pareceu-nme que o único conforto encontrado nas palavras escritas pelo rabino de São Paulo é que o autor, já na etapa final do livro, por intermédio de novas interpretações de factos já conhecidos, conseguiu comprovar a salvadora tese, segundo a qual, o propalado apego dos judeus ao dinheiro não resultou de uma “opção”, mas sim de uma “imposição” de factores circunstanciais. É consequência dos seculares exílios, das perseguições e da dispersão desde as viagens dos patriarcas com a peregrinação pelo deserto do Sinai a caminho da Terra Prometida. Resultou destas circunstâncias que “o dinheiro foi o único bem portátil dos judeus e o seu privilegiado instrumento de sobrevivência”.
                  Tal como sucedera com Henry Sobel, a bola sobraria irremediavelmente para mim, desde o momento em que o jornalista Itamar Souza publicou na edição de Julho de 2013 da revista “África 21” um artigo com o título “Judeus, o destino passou por Benguela” no qual alude a um projecto de instalação de uma colónia de 600 mil judeus em Angola, empreitada sonhada por um grupo de intelectuais judeus, entre os quais Alfredo Bensaúde, Jacob Teitel, Wolf Terló e Israel Zangwill, isso no início do século XX. No entanto, os 159 colonatos previstos nunca chegariam a ser instalado nas terras férteis vale do Cavaco, no litoral de Benguela, onde “não existiam árabes palestinianos” ( www.fmsoares.pt/aeb/crono/id?id=01855 acessado em 15/05/2013).
                  A verdade, porém, é que nunca se viria a verificar uma migração em massa de judeus da Europa e do Norte de África, rumo a colónia portuguesa de Angola, com o fito de Zangwill, se instalarem, conforme pretenderam Alfredo Bensaúde e seus pares. Nem foram encontradas referências credíveis de judeus que fugiram dfa europa por alturasv da Segunda Guerra Mundial iniciada am 1939.
                 As gerações de angolanos que existem actualmente com sangue judaico, descendem, salvo alguma excepção,  dos judeus sefarditas que chegaram esparsamente à Angola na segunda metade do século XIX. Freudenthal menciona uma reduzida lista com os nomes de famílias entre as quais despontam Amzalak, Ashai, Azulay, Bendrao, Benchimol, Benoliel e Cohen. Estes são descendentes de judeus que nada tinham a ver com os planos de Israel Zangwil e Alfredo Bensaúde. Individualmente ou em pequenos grupos familiares, se foram estabelecendo progressivamente entre Benguela e Luanda, factos aliàs, já referenciados por Aida Fredenthal no livro “Judeus em Angola-séculos XIX-XX”, que vimos referindo amiúde e no qual é analisada a diáspora sefardita na mais importante colónia lusitana de África.  
                Porquê voltar a falar dos judeus em Angola? O que se pretende? Ora, não estão descuradas interpretações grosseiras, nem o evoluir de premeditados preconceitos de que seja intenção do autor reconstituir árvores genealógicas com potencial suficiente para fazer ressurgir na sociedade angolana uma categoria de pessoas diferenciadas.
                Assistem-nos razões justificadas exclusivamente pela investigação científica, para pegarmos em mãos a abordagem da questão, ainda que com a estranha sensação de estar destapando uma vasilha de enxofre no meio de um público imprevisível que, a qualquer momento, nos pode fazer sentir o desconforto do estigma. Referimo-nos a pessoas que cultivam preconceitos e esperam simplesmente oportunidades, quaisquer que sejam, para destilá-los de forma hostil contra os judeus, tido por povo errante desde a antiguidade, condenado à dispersão e ao exílio permanente sofrendo na carne e no espírito ignomínias e uma infinidade de crimes horrendos que a História registou nos seus anais.

                                           CONCLUSÕES

                À guiza de conclusão, pelos factos apontados, não pode ser posta em causa a existência de uma herança judaica em Angola. Contudo, concordamos com Aida Freudenthal quando formula que na actualidade, não existe no país uma comunidade judaica como tal, formada por descendentes dos judeus sefarditas, provida de sinais identitários exteriores comuns. Portanto, os descendentes já não praticam a religião dos seus antepassados.
                Nas pesquisas sobre a presença de Judeus em Angola, nunca foram encontrados sinais ou relatos credíveis da edificação no território de uma sinagoga ou outro templo para servir como local de culto mesmo nas zonas de maior concentração como Catumbela e Benguela. Em Moçambique foi construída uma sinagoga e judeus abastados saíam de Angola para a colónia do Índico a fim de cumprirem os rituais judaícos, como atestam os historiadores.
                Ao longo de século e meio, as sucessivas gerações foram assimilando os aspectos da cultura local e nela se integraram naturalmente como mais uma peça do mosaico angolano de tal sorte que, para se conhecer a dimensão e composição da prole deixada pelos judeus sefarditas, é exigido trabalho apurado devido a falta de fontes materiais.
                Do que se investigou até hoje, para além dos nomes e sobrenomes de raiz hebraica que se mantiveram intactos, os vestígios materiais da herança judaica em Angola resumem-se nas nove sepulturas alinhadas com inscrições em hebraico e português no cemitério municipal de Benguela ao lado de campas cristãs. São referidas outras 13 na vila da Catumbela (Alberto Iria, idem) e umas poucas na antiga vila de Bela-Vista, hoje chamada Catchiungo, na província central do Huambo.

*Advogado e Jornalista. Director das Edições Novembro-E.P. na província de Benguela.
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sábado, 31 de março de 2012

Solidariedade com os colegas da TPA do acidente de helicóptero no Huambo

O repórter Alexandre Cose da TPA posando antes do acidente ocorrido durante uma reportagem na província do Huambo. Cose foi um dos sobreviventes do despenhamento do "Allouette III" da FAN na passada Quarta-feira. Os nossos votos de uma rápida e completa recuperação.
Alexandre, nos mostraste a melhor reportagem que algum dia poderias teres feito. Valorizaste uma profissão cuja essência é agregar o Bem à sociedade. E o fizeste levantando bem alto o estandarte do Humanismo. Foste valente e generoso, qualidades dos mais nobres jornalistas, que infelizmente já não abundam. Que o bom Deus continue a guiar os teus passos e ajude a vossa rápida rercuperação. E que receba as almas dos que partiram. Abraços.


       Feliciano Saiminho "Mágico", veterano repórter de imagem da TPA falecido, no acidente com o "Allouette" da FAN , Quarta-feira passada no Huambo. Rendemos homenagem aos profissionais que deram o melhor de si para mostrarem ao mundo as conquistas dos 10 anos de Paz que Angola vive desde Abril de 2002. Apresentamos as nossas sentidas condolências às famílias enlutadas, extensivas aos nossos colegas da TPA e da Força Aérea Nacional. Aos feridos, juntamos as nossas orações à corrente de solidariedade para a sua rápida  e completa recuperação.

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quinta-feira, 8 de março de 2012

Minhas conversas com um antigo oficial do exército da Unita

Ponto prévio: Não tenho a honra de conhecer pessoalmente o ex-militar das FALA  da Unita com o qual entabulei conversa virtual. Encontramo-nos no Facebook num pequeno debate, que me pareceu interessante. Por isso estou a postá-lo aqui, com o devido respeito. Pelo que me apercebi a pessoa em causa é um patriota angolano que sofreu as agruras num campo de prisioneiros na era colonial e mais tarde aderiu a um dos movimentos angolanos, a Unita, onde serviu como militar.
Como o debate se desenrolou de forma civilizada e frontal, com respeito a cada um, apesar da divergência de opiniões sobre o nosso país, penso que pode ser útil, sobretudo para os mais novos. No entanto, a insistente pedido, decidi retirar o seu nome, embora considere que quando o homem mata a cobra, deve mostrar o pau...e a cobra. Então aí está o conteúdo da conversa:

Mensagem recebida.

8 de Março de 2012 14:30

Meu caro Azulay. Bom dia e firmes convicções.
Eu não concordo com tudo e nem com todas as formas e métodos usados na guerra, de 1974 ao 2002.
O s horrores da guerra sobrepuseram-se aos simples métodos. O ódio do Kaluanda pelo Bailundo: Nós éramos tidos como matumbos e burros. Foi aí onde assentou toda a história. Mesmo hoje o homem de Luanda não aceita ser mandado pelo homem do sul. Foi sempre o tribalismo e a história das raças e descendências que nos limita a fraudes permanentes e partidos que representam a si mesmos. Agora é tudo dinheiro e lugares que não servem para nada nas forças armadas ou polícia.
O dr. Savimbi foi isolado pelo sistema e, foi ele pessoalmente que voltou a fazer frente á inteligência do mpla e dos seus jornalistas e técnicos.
Eu perdi o pai, primos e eu próprio fui preso de guerra. Fui chefe de comunicações com os sul-africanos nos comandos do Kuito kuanavale, com o general wambu.
Quando fui para a mata, nos movimentos de setenta, os homens da Disa dormiam com as nossas irmãs sem sequer baterem a porta. O certo é que parece haver alguma evolução no modo como o mpla se move mas, mudaram somente depois dos tiros começarem a surgir em pleno e feio da escuridão. Só daí! Foi o tiro que abrandou o mpla e a sua tropa. O resto tudo é fachada.
O meu alto cmdte atacava e as forças matavam. E não eram os kamorteiros. Eram homens mais sérios e que ficaram cá em 1992 e trabalharam para a eleiminação do mais velho.

É tanto que depois podemos falar.

Desculpe se fui desrespeitoso na minha última comunicação. Nada é pessoal.

Forte abraço

Minha Resposta.
8 de Março de 2012:

Estimado amigo.
     Li com bastante atenção a sua mensagem. Congratulo-me com a sua sinceridade, dado não nos conhecermos pessoalmente. A sua história, o seu percurso de sofrimento, nada me é estranho e não creio que pertençamos a gerações diferentes. Pelas dinâmicas do próprio conflito, estivemos em lados opostos, sem que isso seja agora motivo de desunião, quando se trata de abordar o nosso destino comum como angolanos. Só numa perpectiva histórica, de reposição de factos e eventos me proponho a penetrar um pouco nestes meandros complexos, que ainda tocam a nossa mui apurada sensibilidade, devido a proximidade de datas em que os factos ocorreram. Um amigo uma vez me disse que falar "destas coisas" é como nadar num lago cheio de jacarés. Claro que achei alguma lógica na analogia, mas enfim, " a people without past is like a tree roots", como dizia o outro. Então que venham os jacarés.
     Por acaso acho-me em condições de afirmar que conheço as origens do nosso conflito angolano. Foi no distante ano de 1975, que recebi a minha primeira arma, antes da independência. Era eu um garoto que tinha acabado o secundário em Novo Redondo. Já lá encontrei os kotas que vinham do maquis , estes, por sua vez, tinham recebido dos seus maiores a responsabilidade de prosseguir a luta. Mas falo do que vivi. Estive nas FAPLA, como oficial, por isso, pode crer que também sofri as agruras da guerra. Devido a minha experiencia, comecei a trabalhar como repórter de guerra. Estive em vários cenários e fiz o que tinha que fazer . Como já escrevi algures , tive a oportunidade de reportar a guerra na sua própria morada e só faltou filmar o diabo a assar sardinhas, como vulgarmente se diz.
     Mais tarde, ganhei as ferramentas suficientes para refletir sobre as verdadeiras causas do conflito entre os angolanos, o que considerei ter sido uma evolução intelectual de minha parte. Ela permitiu me aproximar de uma visão mais racional do sentido das acções militares em que participei e a ver as coisas como um todo. E se alguma coisa aprendi foi que ocorrem determinadas tragédias humanas perante as quais não podemos permanecer indiferentes.
      Conversei com distintos oficiais das FALA , o exército da Unita, alguns deles de alta patente, sobretudo desde o início das ofensivas em Dezembro de 1998 no Huambo, mas antes já tinha falado com outros, por alturas de 1991 e 1992. Em Novembro de 1992 praticamente já se desenrolavam os combates na cidade de Benguela. Eu estava como militar num grupo de combate na zona do Kasseque, quando nos foi ordenado cessar-fogo para que um helicóptero proveniente do Huambo poisasse na Catumbela. Era um Sábado, no princípio da tarde. Este helicóptero trazia a bordo o general Geraldo Sachipengo Nunda. A primeira grande deserção. Recomeçava a purga na alta esfera castrense da Unita, a retoma do que se passou com da prisão de Vakulukuta (ex-chefe do Estado-maior) em 1984, do Valdemar Chindondo (então coronel) e do próprio general Chiwalee (então brigadeiro), acções ordenadas pelo Dr. Savimbi.
     Nos finais de 1999, no que se seguiu ao desfecho da batalha do Andulo, conheci outros mais: o coronel Boaventura Cangundo chefe das Operações da III Brigada capturado no dia 22 de Dezembro durante a batalha do Cunhinga (ex-Vouga). Nos dias 8 e 10 de Novembro de 1999, falei com  o general Jacinto Bândua chefe da logística estratégica que acabava de fugir do Andulo caminhando 16 dias e 16 noites,. Disse-me que o Dr. Savimbi já não era o mesmo e tinha perdido o sentido racional das coisas. Entrevistamos o general Implacável e  o tenente-coronel Amilcar Marcolino Ngongo em Outubro de 1999, após a tomada do Andulo pelas FAA. Inteirei-me do fim inglório de generais como Antero Vieira que conheci pessoalmente em 1992 em Benguela, o Altino Sapalalo "Bock" que conheci na Jamba em 1991 durante a troca de prisioneiros e o brigadeiro Perestrelo, cuja família se encontra até hoje em Benguela. Também o Tarzan e o Grito. O que fizeram estes homens?
      Algum tempo mais tarde, na última operação no Moxico, em fins de 2001, falei com o brigadeiro Lulú que estava na guarda da coluna presidencial, entrevistei o mais velho general Torres, o mais-velho general Kufuna Yembe, o jovem Pena  e outros tantos. No Luena, poucos dias antes do Natal de 2001, estive com muitos quadros da Unita que se encontravam hospedados na mesma pensão que eu. Conversávamos muito depois do jantar, enquanto no terreno as coisas evoluiam vertiginosamente. Esses militares que afirma terem traído o Dr. Savimbi ajudaram a terminar com o calvário do povo angolano em nome de um só homem e de uma só causa, a dele próprio.
      Como repara, ouvi e vi coisas que me deram um quadro real do que era a Unita militarmente. Creio que tenho uma noção    realista do papel do Dr. Savimbi, em toda a sua trajectória desde os anos 60. Aquilo que se pode chamar a sua ascensão, o apogeu e a irremediável queda.
      Li os livros dos Drs Alcides Sakala, do Jardo Muekália, do Dr. Jorge Valentim, do mais-velho general  Samuel Chiwale. Li o Fred Bridgland, John McCain, Alec Russel e outros tantos, desde os portugueses que estavam na antiga Frente Militar Leste, aos sul-africanos que protagonizaram a "Operação Savanah"  até às invasões e batalhas da Cahama e do Kuito-Kuanavale, na qual o amigo participou. Sem falar na acção fracassada de um comando sul-africano chefiada pelo capitão Winan du Toit contra Malongo, em Cabinda, no dia 21 de Maio de 1985. Du Toit foi capturado pelas Fapla e trazia consigo propaganda para atribuir à Unita a realização do ataque.
       Dito isto,  penso  que deve ser a própria Unita a lidar com o seu passivo e encontrar forças para enfrentar o presente e perpectivar o futuro, como força actuante na consolidação da democracia em Angola. E isso pode ser válido para as restantes forças nacionalistas que lutaram em Angola.
       Já o afirmei e repito, o passado deve ser unicamente referencial e nunca assumir-se como factor activo nas nossas decisões do dia a dia. Estou convicto que do passado já não há muita coisa a justificar, algo que tenha arcaboiço para suportar opções no presente e que, inevitavelmente se vão repercurtir no futuro da Nação.
     Novas formas de pensar podem e devem subsituir-se à simples repetição dos antigos discursos e dogmas  que fizerem furor nas épocas passadas e que cada um de nós aderiu e aplaudiu à sua maneira. Felizmente não me cabe a mim decidir o futuro dos outros, nem de ninguém, salvo da minha família.
     Numa coisa estamos certos, meu estimado amigo: são necessários e urgentes valores tanto por parte de quem tem a responsabilidade de governar, como daqules  que têm a obrigação e responsabilidade  de propor alternativas viáveis, no caso concreto  a oposição democrática patriótica e responsável. Portanto, falo de valores que não se devem resgatar unicamente em período de eleições, mas que sejam valores permanentes que ligam o povo aos seus líderes. Valores capazes de proporcionar às pessoas a possibilidade de escolherem livremente projectos políticos sérios, visionários quanto ao futuro que pretendemos de Justiça e de Paz para todos. Numa Pátria onde cada angolano consiga realizar os seus sonhos.
     Pelo que já sofreu, Angola merece esta oportunidade. Os angolanos de Bem devem entender os reflexos das dinâmicas exógenas. Devem saber lidar com elas de maneira inteligente, de tal sorte que, interpretações e acções erradas não nos façam retornar a um estado de inquietação quanto ao futuro. A frustração de uns tantos e a ansiedade dos demais podem resultar numa combinação de efeitos negativos que ninguém no seu perfeito juízo deseja.

Desculpe o tempo que lhe roubei, mas achei interessante o seu depoimento e quis responder em conformidade.

Um grande abraço do tamanho da nossa querida Angola!

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sábado, 7 de janeiro de 2012

Benguela/Kuito (Bié):10 anos de PAZ, sem comentários

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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Morreu o piloto-aviador Tte-coronel "Murray" o "Ás" da Força Aérea Nacional


                                                                           

      Faleceu às 10h30 de Quinta-feira, 15 Setembro de 2011, na sequência de um acidente de aviação ocorrido nos arredores da cidade do Lubango (Huila), o piloto-aviador tenente-coronel António Nunes Firmino "Murray". A queda do SU-22 da Força Aérea Nacional verificou-se durante um vôo de rotina, segundo informou a FAN.
     Apesar de 6 anos mais novo, era um velho amigo e companheiro de mais de 30 anos.
     A urna contendo os seus restos mortais será sepultada no Sábado, 17 de Setembro, no cemitério da Camunda, em Benguela, "Cidade das Acácias-Rubras", onde nasceu no dia 16 de Junho de 1967. Deixa o mundo dos vivos aos 44 anos de idade, após uma brilhante carreira como piloto de caça, sendo considerado pelos seus camaradas da Força Aérea Nacional como um verdadeiro "Ás", categoria restrita a qual pertencem apenas os mais intrépidos pilotos.
     Ingressou nas FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola) em 1986, tendo sido seleccionado para a Força Aérea (FAPA) e encaminhado para a Base Aérea do Negage, no Uíge. Seguiu posteriormente para a ex-URSS onde se formou em pilotagem de aviões caça. Mal regressou  ao país, juntamente com outros jovens , participou como piloto de combate na defesa do solo pátrio, tendo sido destacado para várias missões.
     Era um dos pilotos mais versáteis da FAN. Voava tanto  nos caças MIG-21 (Mikoyan-Gurevich) aeronave para combate aéreo e ataque ao solo, bem como como nos SU-22 (Sukhoi)  caça-bombardeiro de ataque ao solo. As suas façanhas como piloto ficam gravadas nas páginas mais brilhantes de heroísmo dos anais da Força Aérea Nacional e da antiga FAPA.
     Com o advento da paz em 2002, por ordens dos seus superiores hierárquicos, passou a dar o seu contributo na formação da nova geração de pilotos angolanos e também como piloto de testes de aviões de combate, tendo sido nessa condição que sofreu o acidente que lhe ceifaria a vida.
     Embora o Estado-maio da FAN esteja a realizar um inquérito para apurar as verdadeiras causas do acidente, tomamos conhecimento que o Tenente-coronel "Murray", estava a cumprir na cidade do Lubango a missão de testar dois caças da Força Aérea Nacional. Na Quarta-feira terá testado o primeiro, com sucesso. No dia seguinte, na Quinta-feira, a meio da manhã, descolaria da pista da base aérea do Lubango, com o segundo aparelho, um SU-22, para o derradeiro vôo sem regresso. Ao verificar os problemas técnicos, "Murray" manteve a serenidade habitual e, em contacto com a torre de controle, de quem terá recebido ordens para ejectar-se, procurou manter o aparelho sob seu comando, com a intenção de  aterrisar, operação que não conseguiria realizar. Numa fracção de segundo a aeronave terá rodado sobre o seu eixo, colocando a cabine do piloto em posição contrária a de ejecção de emergência. Terá sido nestas condições adversas em que se verificou a  ejecção do "cockpit" do "Sukhoi"e o seu contacto com o solo.
    "Murray" ficou órfão de pai durante a infância. O seu progenitor,  António João Firmino, de quem recebeu o nome, era proprietário de um pequeno estabelecimento comercial, na serra do Pundo, perto do Bocoio (província de Benguela). Em 1975 o senhor Firmino foi assassinado por um grupo de homens armados que operava na região debaixo da bandeira de um dos movimentos nacionalistas angolanos.
    À sua extremosa mãe, tia Guilhermina Nunes Firmino (Boneca), aos seus irmãos Abílio, João, Yette, Tita apresento os meus respeitosos cumprimentos e sinceras condolências, bem como ao Estado-maior da Força Aérea Nacional (FAN).
    António Nunes Firmino ficará na nossa memória, como amigo exemplar, profissional e patriota íntegro, piloto experiente e competente. Deu toda a sua juventude e a própria vida engajando-se no que acreditava e amava.
    "MURRAY", PRESENTE!
     Que a tua alma descanse em PAZ companheiro!

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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"Um dia mais com Vida": um canto à ética e dignidade dos repórteres

               O JORNALISMO MÁGICO DE RYSZARD KASPUSCINSKI

A Lendária guerrilheira do MPLA "Carlota" fotografada por Kapuscinski numa tarde de Outubro de 1975 na ponte sobre o rio Balombo (província de Benguela-Angola). Uma hora depois "Carlota não existe mais". Tomba em combate a comandar o seu destacamento durante o ataque à vila. A sua firmeza e o seu sorriso luminoso continuaram a inspirar os que conquistaram a Independência de Angola e a defenderam com o seu sangue Heróico e Generoso.    
   
  Por:
          JAIME AZULAY
          (Dedicado à passagem do Dia Internacional do Jornalista, 8 de Setembro)
     Quando em Janeiro de 2007, o jornalista polaco Ryszard Kapuściński faleceu por doença em Varsóvia, aos 74 anos de idade, foram-lhe dedicados vários epitáfios, entre os quais: “Mestre do jornalismo moderno”, “O maior repórter do mundo” e “Heródoto dos nossos tempos”. Para Gabriel Garcia Marques o finado foi simplesmente “ o melhor correspondente em zonas de risco em todo o Século XX”. Homenagem merecida para o escritor e repórter de guerra prestigiado por milhões de leitores no mundo inteiro, com 19 obras publicadas em mais de 30 línguas.
     Do seu legado destaca-se “Un día más con vida” que me chegou as mãos na edição em castelhano (Editora Anagrama, Barcelona,2010). Trata-se de um livro de crónicas de guerra que Ryszard Kapuściński escreveu baseado na sua estada em Angola durante os turbulentos meses que antecederam a proclamação da Independência nacional, a 11 de Novembro de 1975. Ele próprio a considerou como a sua melhor obra. “Un día más com vida” ganhou uma adaptação cinematográfica homónima que está a ser produzida pela "Kanaki Films", de Espanha, sob a batuta do director Raul de la Fuente. A película está prevista para estrear em 2012.
     Encontrei-me com Raul em Luanda no mês de Junho de 2011, a pedido do jornalista Artur Queiroz, o qual solicitava os meus modestos préstimos na reconstituição de uma parte da incrível odisseia de Ryszard Kapuściński em Angola, em 1975. Queiroz e Kapuściński conheceram-se na atmosfera da guerra que se acercava de Luanda trazida por exércitos estrangeiros que entraram no território com a missão de impedir a proclamação da independência pelo MPLA. Queiroz era um dos poucos jornalistas que tinha ficado no então “Diário de Luanda” e escrevia sozinho a metade do jornal. Ambos os repórteres cimentaram uma relação profissional e de amizade que é retratada no livro.
                        
Folheto do filme "Un día más de vida" que está a ser produzido pela Kanaki Films do país Basco (Espanha) sob a batuta do director Raúl de la Fuente. O carisma da guerrilheira "Carlota" em mais uma foto captada pelo grande repórter Kapuscinski. Desfilam no filme outros personagens da história angolana como os comandantes Ndozi, Monty, Farrusco, Jujú e o presidente Agostinho Neto e outros anónimos entrevistados pelo jornalista polaco durante os 3 meses que esteve em Angola antes do 11 de Novembro de 75
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     Acompanhado da simpática assistente Amaia Ramirez da Kanaki Films, e na qualidade de director, Raul de la Fuente explicou-me os seus propósitos: adaptar em cinema a aventura angolana do famoso repórter polaco, com um formato inovador, recorrendo à alta tecnologia digital de animação, à qual agregaria a parte documental propriamente dita. Numa palavra, trinta e cinco anos depois, em 2010, baseado nos relatos do mestre da reportagem, personagens animados tomam vida na tela e reconstituem o horror da guerra e de como conseguiram sobreviver ao caos e à loucura vivida nas trincheiras. Pretende-se que, ao ver o filme, o espectador viaje desde os dias dramáticos de 1975 até chegar à Angola actual. Concordei que era uma história bélica fascinante.”- Mas em que posso eu ajudar, Raul? Não figuro entre os mortais bafejados pela honra de conhecer Kapuściński , nem tampouco tive a sorte de vê-lo quando andou por aqui”, disse-lhe.
     Raul pronunciou o nome de Carlota, entendi tudo porque Queiroz já me tinha falado do assunto por telefone. Cabia-me proporcionar à equipa de cinema o rasto da lendária guerrilheira do MPLA, tombada em combate na Vila do Balombo numa tarde de Outubro de 1975, cerca de uma hora após se ter despedido de Kapuściński e de uma equipa de TV portuguesa que a própria Carlota tinha escoltado desde Benguela por ordem do comandante Monty, da então Frente Centro.
     Balombo era uma localidade sitiada após ter sido tomada naquela mesma manhã por um destacamento de uma centena de combatentes do MPLA, entre os quais Kapuściński encontraria algumas jovens, que tinham deixado por instantes as armas para cuidarem da higiene com um banho no rio. Viu Carlota repreendê-las que não deveriam perder muito tempo com banhos porque o inimigo  atacaria a qualquer momento.
     Feito o trabalho dos repórteres, Carlota tomaria então a inexplicável decisão de não regressar com eles à Benguela, contrariando as ordens de Monty. O comando dispensara duas viaturas para levar os jornalistas à frente do Balombo, sobretudo Kapuściński que insistiu em reportar do local dos acontecimentos, como sempre o fazia. Carlota deveria trazê-los imediatamente de volta quando terminassem o seu trabalho, mas isso não aconteceria. No último instante, quando os outros já se encontravam no interior das viaturas, Carlota abandonou o seu lugar no banco da frente do Citroen. Segurando a Kalashnikov, bateu decididamente a porta e ordenou ao estupefacto motorista que partissem de imediato. Kapuściński viu o vulto trajando um uniforme de paraquedista e botas de couro de cano alto, os cabelos eriçados num penteado afro, desaparecer irremediavelmente na distância, à medida que os carros avançavam. Poucas horas depois, enquanto aguardavam o jantar num restaurante em Benguela, chegaria a fatídica notícia: mal abandonaram o Balombo o inimigo iniciou o ataque e tomou a vila de assalto. Carlota caíra durante a luta.
     Resulta impressionante a imagem que o repórter guardaria da lendária guerrilheira, imortalizada numa foto tirada quando Carlota se encontrava encostada ao parapeito da ponte sobre o rio Balombo na entrada da vila ameaçada. Ele escreveria mais tarde em “Un dia más con vida” que tudo aconteceu como se Carlota tivesse sido impelida por um misterioso mandato, como acontece num acidente marcado pelo destino: “Carlota no existe, ya no esta entre los vivos. Quién podía imaginar que la veíamos en su última hora de vida?”. No fundo Kapuściński não acreditava em fatalidades.” Não existe vida na guerra”.
     Porque Riscarzard Kapuscinski o merecia, e pelo simples facto de Carlota ter sido recordada, foram razões mais do que suficientes para que eu desse um modesto contributo na concretização do projecto cinematográfico “Un día más con vida” do jovem director catalão Raul de la Fuente, de quem recebi a seguinte mensagem em “portunõl”:.
“Querido Jaime,
Agora mesmo chegamos ao Pais Basco, felices e mesmo agotados da aventura em Angola, que já amamos muito.
No nosso ultimo dia en Luanda foi impossivel fazer as despedidas que tinhamos planejadas, já que ficamos sem motorista.
Ainda bem, já que nâo temos intençao de nos-despedir de ninguem, só de agradecer tuda a inmensa e valiosa ajuda recebida, é continuar sempre em contacto, já que havemos de voltar é ainda fica muito caminho até finalizar este filme que é nosso major sonho.
Continuamos em contacto, vou mantener-te informado dos avançes é de nosso planes. Si planejaras viagem ao Pais Basco, tens uma casa amiga.
Um abraço,
Amaia é Raul

                           Quem foi Ryszard Kapuściński?

1975. O jornalista Riszard Kapuscinski posa com combatentes das FAPLA participantes na guerra angolana poucos dias antes da proclamação da Independência Nacional. "Eu não escrevo ficção. Os romancistas estão em casa escrevendo em situação confortável. As pessoas não entendem que um trabalho de reportagem exige do seu autor um enorme esforço e correr riscos". (Foto do arquivo de R. Kapuscinski)
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    Riszard nasceu em Pinsk, uma localidade que outrora integrava a Bielorrúsia e hoje pertence à Polónia, no dia 4 de Março de 1942 . Licenciou-se em História, foi jornalista e escritor. Começou a sua carreira jornalística aos 17 anos. De 1958 a 1981 trabalhou na Agência de Notícias Polaca PAP ( Polska Agência Prasowa) como correspondente internacional. Realizou trabalhos em 50 países, fez a reportagens de guerras, golpes de estado e revoluções em África, na Ásia, na Europa e Américas. Fez amizade com Che Guevara na Bolívia, conheceu Salvador Allende no Chile e Patrice Lumumba no Congo. Ao longo da sua vida presenciou 27 Revoluções e esteve em 12 frentes de guerra. Por quatro vezes esteve a pontos de ser executado.
     Ficou conhecido por reportagens em África, onde chegou pela primeira vez em 1957 e começou a testemunhar, em primeira-mão, o fim dos Impérios coloniais e o despontar de intrincadas rivalidades tribais e raciais entre os africanos.
     A partir do início da década de 1960, Kapuściński publicou livros de elevado valor literário, habilmente caracterizados por uma sofisticada narrativa técnica, retratos psicológicos das personagens, abundância de metáforas e outras figuras de estilo e imagens raras que servem como meios para interpretar a percepção do mundo. O livro mais conhecido de Kapuściński, " O Imperador", trata do declínio do regime Etíope de Hailé Selassié. Escreveu depois o "Xá dos Xás”, sobre a queda do último Xá da Pérsia Mohammad Reza Pahlevi e " Imperium”, sobre os últimos dias da União Soviética.
     Na década de 80 passou a colaborar com jornais e revistas internacionais, como o The New York Times e o conhecido jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung.
     Kapuściński cultivava um fascínio tanto pelo exotismo das terras e das pessoas, como pelos livros: ele aproximava-se dos países estrangeiros, inicialmente, pela literatura, passando meses a ler antes de cada viagem.
     “Um día mais com vida”, é considerado pela crítica como o mais literário e pessoal dos seus livros tendo ultrapassado o simples relato de um repórter. É referido como um diário íntimo, escrito por um ser humano no limite das suas forças, na angústia da solidão e a consciência de estar indefeso perante a espada da morte que pende sobre a sua cabeça. A mesma espada que paira sobre as cabeças dos soldados e civis que desfilam como protagonistas ao longo das 400 páginas do livro
     Ao chegar a um local ele conseguia rapidamente cativar interlocutores, graças a um dom especial para ouvir as pessoas que ia conhecendo, por vezes em situações de extrema complexidade. Tinha também uma habilidade extraordinária para captar o sentido dos cenários que encontrava quaisquer que fossem. Depois transformava-os em “metáforas de transformação histórica”, tornando as aventuras pessoais numa fantástica síntese social e filosófica do mundo e dos povos.
     Foi galardoado com vários prémios. Em 1999 foi eleito na Polónia como o melhor jornalista do Século XX. Recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias e em 2005 foi doutorado com o título “honoris causa” pela universidade catalã Ramón Llull.
     Embora tenha sido algumas vezes mencionado para receber o Prémio Nobel da Literatura mas não chegou a ser galardoado pela Academia Sueca. Em 2006, numa entrevista à Agência Reuters, disse que escreveu para “pessoas de qualquer lugar ainda suficientemente jovens para estarem curiosas sobre o mundo”
     Passou os seus últimos anos a viajar, participando em conferências e reflectindo sobre o processo de globalização, sobretudo as suas consequências para a civilização.
     Kapuściński considerou ser erro escrever sobre alguém com quem não nos comparamos pelo menos uma vez na vida. Desenvolveu em “ Los cínicos no serven para este oficio”, (da edição Catalã da Compactos, Barcelona, 2005), um livro conversado sobre o trabalho do jornalista, sobre as suas dificuldades e suas regras, sobre a responsabilidade dos intelectuais que hoje em dia, se dedicam à informação.
     Como uma premonição face aos eventos que preenchem a actualidade dos “média” no mundo, o grande repórter Ryszard Kapuściński abordou a posição dos jornalistas na descrição da realidade nos cenários que ocorrem em épocas de grandes mudanças políticas e sociais e as consequências das revoluções tecnológicas no âmbito da comunicação social, sobretudo com a internet.
     As suas inquietações são pertinentes e incrivelmente actuais, sobretudo para nós, africanos: “Como descrever a pobreza, a fome e as guerras? São imprescindíveis motivações éticas para se ser um bom jornalista? Que relação existe entre a realidade e a narração? Qual a postura do jornalista para mover-se entre a investigação da verdade e os condicionalismos do poder? Tal como escreveu Isabel G. Melenchón na sua coluna no jornal “La Vanguardia”, a leitura de qualquer dos seus textos é uma lição e são aconselhados aos jovens estudantes das faculdades de comunicação social.
     A propósito do livro sobre Angola “Um dia Mais de Vida” perguntaram a Kapuściński se, no interesse da imparcialidade, por que razão ele não tinha igualmente explorado as motivações dos outros intervenientes no conflito angolano. Ali ele respondeu simplesmente com o grande dilema dos repórteres de guerra: "Ninguém me deu a oportunidade de fazê-lo". (relatado em Aartur Domoslawski, Kapuściński, a não-ficção)
     Até hoje, a obra de Kapuściński desperta paixões díspares em vários quadrantes do planeta. O escritor britânico de origem nigeriana Adewale M. Pereira, enquanto por um lado elogiou Kapuściński por seu toque humano e eloquente, por outro afirmou reconhecer na sua obra uma propensão para generalizações superficiais sobre África, o que contribui “ inutilmente para atrapalhar a imagem dos problemas reais do continente, em vez de jogar luz sobre eles”.
     Outros críticos usaram a crueldade para questionar elementos específicos da obra do mestre polaco, acusando-o de romper os padrões jornalísticos e de ter colaborado com os serviços secretos da então Polónia comunista. Andrew Rice destacou na edição de 1 de Outubro do “Nation” que, no fundo, todo o jornalismo é uma espécie de espionagem, porque as agências de inteligência em todos os lugares do mundo procuram recrutar correspondentes estrangeiros.
     Por seu lado, num artigo eivado de maldade publicado no “State Magazine”o escritor Jack Shafer lamentou a crença geral que Riszard Kapuściński era um génio, rotulando-o de “fabulista” que não cumpria a regra básica do jornalismo. Shafer foi de imediato rebatido por Meghan O´Rourke quando este afirmou que Kapuściński inventou pequenos detalhes para revelar uma verdade maior. Estavam em causa alguns exageros e meias-verdades do repórter polaco, sobretudo na afirmação que lhe é atribuída de ter encontrado Che Guevara num momento em que o Che já estava morto.
     Jean Lacouture, escritor francês que iniciou a carreira literária no jornalismo observou que o jornalista tem direito `a sua própria interpretação dos factos, mas nunca a sua fabricação definitivas. Engrossando a legião anti-Kapuściński , Lacouture sentenciaria diplomaticamente que “Ainda assim, uma mentira pode ser uma obra-prima literária” em alusão a alguma imprecisão factual e distorções que alegadamente povoam as suas reportagens, mas culmina dizendo que apesar do problema da credibilidade, Riscard Kapuscinski continua a marcar o seu território como um escritor.
     Serenamente e na maturidade da vida, o mestre respondeu um dia aos seus detractores: “É possível que tenha escrito alguma mentira, mas não porque tivesse a intenção de ser mentiroso, mas porque a nossa memória é imperfeita, algumas recordações são incompletas ou as nossas emoções são confusas” (Auto-Retrato de um Repórter-2003). “Reportagens-livros são muitas vezes tratados como romances”, lamentou. As pessoas não entendem que um trabalho de reportagem exige do seu autor um enorme esforço, sacrifício e tomada de inúmeros riscos”.

     Pergunta: Dizem que você, como repórter, atesta a veracidade dos textos com a sua própria pessoa. Nas suas reportagens acontece misturar os fatos ou deliberadamente alterá-los?
     Kapuściński: Eu não produzo ficção. Se eu pretendesse escrever ficção eu seria capaz de fazê-lo e evitaria as atribulações e os esforços de um repórter no terreno. (...) Eu não posso inventar nada sozinho. Eu tenho que ir para o campo.
     Passam os anos. O certo é que o “ Jornalismo Mágico” de Riszard Kapuściński permanece como paradigma do bom jornalismo, um canto à ética e à dignidade dos repórteres em todos os lugares do mundo. De facto, “Os cínicos não servem para esta profissão”.













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