quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

As esculturas de Canhão Bernardes simbolizam a beleza do Lobito

      Estas duas esculturas, cujas fotos dou à estampa, com a devida vénia, fazem parte de um espólio deixado pelo engenheiro Canhão Bernardes em várias cidades de Angola. "Caminhando" e o "Monumento à Aviação", são símbolo da beleza da nossa querida cidade do Lobito, considerada com justiça, a "Sala de Visitas" de Angola. Convido-os a apreciarem a qualidade e a mensagem do trabalho do escultor nas explendidas fotos captadas há mais de 40 anos e cujo autor não consegui apurar, mas que aplaudimos pelo seu elevado teor artístico, sobretudo em "Caminhando", ao qual tenho a honra de juntar o modesto artigo de minha autoria.


Caminhando



                                      Monumento à aviação

     As esculturas de Canhão Bernardes resistiram às vicissitudes do tempo e são imagens de grata contemplação na “sala de visitas” de Angola
Por:

Jaime Azulay

     Lobito, a bela cidade do litoral-centro de Angola é um destino turístico por excelência. A urbe está implantada em redor de uma baía natural com cerca de 2 quilómetros de comprimento e 1400 metros de largura. Aqui se situa um dos principais portos da costa ocidental de África, o conhecido Porto Comercial do Lobito. No interior da baía, as águas são calmas e propícias para a prática de desportos aquáticos. Praias extensas estendem-se de um e doutro lado de uma extensa de areia que entra mar adentro em direcção à Norte. Nesta zona privilegiada, foi implantado o aglomerado urbano no qual pontificam exemplares de arquitectura únicos, que atestam não só a presença colonial portuguesa nesta região de África, mas denotam igualmente a influência dos mestres ingleses que no início do século XX participaram na construção do porto e do Caminho de Ferro de Benguela.

     Provavelmente muitas pessoas ignoram que um dos motivos que proporcionou ao Lobito o pomposo título de “sala de visitas de Angola” passa hoje quase despercebido. Na cidade do Lobito encontramos um conjunto de estátuas que fazem questão de resistir ao tempo, transpondo milagrosamente as vicissitudes vividas pelo país desde a proclamação da independência nacional em 1975, até a obtenção da paz definitiva no ano de 2002.      Sem obedecer a qualquer critério de importância podemos apresentá-las: “Caminhando”, “Monumento à Aviação”, “O Homem do Lomango”, “O poeta”, “A Sereia dos Trópicos”. Constituem obras de arte que permanecem nos dias de hoje como imagens de grata contemplação.
     As estátuas em causa têm a assinatura de um engenheiro português, de nome Canhão Bernardes. Escultor autodidacta de rara sensibilidade (começou a fazer escultura por entretenimento aos 42 anos de idade), viveu no Lobito durante as décadas de 60 e de 70 do século passado. Com a inesperada eclosão da guerra civil, ele rumou para o Brasil e por lá se mantém até aos dias de hoje, segundo informações que recolhemos e que, infelizmente, não pudemos confirmar. Bernardes deixou espalhado, não só no Lobito, mas igualmente nas províncias do Kwanza-Sul e do Bié, o testemunho de seu extraordinário talento. Ao todo, tinha 14 obras em locais públicos até ao ano de 1972.
     Na época estava em voga (e ainda hoje assim é em muitos lugares do planeta) o frenesi de encher as praças públicas com heróis colocados em pedestais. Canhão Bernardes partilhava da opinião que, ao fomentar-se a escultura em lugares públicos, não deveria ser com a imposição de heróis. Estes, volta e meia são derrubados, em consequência da queda dos regimes e sistemas que simbolizam. Para Bernardes, a escultura deveria significar algo mais para as pessoas, cujos itinerários se vão cruzando ao longo do dia. Um meio de aliviar, através da beleza, os percursos rotineiros entre a casa e o trabalho.
     “ A escultura deve servir como veículo de encanto e de Humanidade e criar um anseio de beleza, ajudando a evolução das pessoas, à caminho de uma harmonia social”, disse o artista quando apresentou o projecto de uma escultura que viria a ser conhecida como “ Monumento à Humanidade” na capital do Bié. Bernardes deixou fixada a marca indelével de seu buril virtuoso no rosto de várias cidades angolanas.
     O “Monumento à Aviação” instalado na praça defronte ao edifício do aeroporto do Lobito enaltece a audácia e o espírito de conquista do homem face ao desconhecido. Por seu turno, o  “Caminhando”, que se situa numa das suaves encostas da Colina da Saudade, com vista privilegiada para a baía e para o porto, convida à exaltação dos valores simples da vida, no fundo tão importantes como as mais inquietantes interrogações existenciais.
      O monumento foi considerada obra notável de engenharia, inteiramente executada no Lobito e exclusivamente com recursos técnicos locais. Os trabalhos de fundição foram realizados nas oficinas do Caminho-de-ferro de Benguela comandados pelo engenheiro Alberto Soares Ribeiro. Foi necessária muita ousadia, até se conseguir suspender, no pedestal, apenas por uma das coxas, um cavalo com 6,30 metros de comprimento do focinho até à cauda, pesando quase duas toneladas. Tal só foi possível por meio de uma barra de aço embutida inusitadamente na estrutura em bronze. O autor queria ir além de Milles na escultura “Pégaso”, na qual o cavalo rompante é sustentado por um matacão de bronze colocado no centro.
     O artista recorreu ao cavalo como símbolo de transporte. E fê-lo, não como em “Centauro” ou “Pégaso”, nem tampouco em formato de flecha ou tapete voador como nos contos infantis das mil e uma noites. Mas sim como um foguetão, pesado e metálico: “ A montada teria de vencer a gravidade e mover-se para o infinito, arrastando no dorso o Homem, que o comanda”.
    Correndo num galope desenfreado, o animal é domado por um destemido cavaleiro. Com uma só mão, pousada sobre o seu dorso, o homem dirige a montada para o Oeste desconhecido. Cavalo e cavaleiro vão voando do Lobito para o mar, roçando a crista altaneira de uma vaga oceânica. Uma placa brilhante regista para a posteridade: Aos homens que, depois do mar domado, querem o infinito”.
     “Caminhando”, por seu lado, embora nada tenha a realçar no que se refere à técnica empregue, mostra-nos um conjunto familiar, duas mulheres na sua lide diária, com balaios à cabeça, levando pela mão um garotelho a saltitar. Uma das mulheres apresenta o ventre proeminente, na certeza de que, com a maternidade, contribuirá para a continuação da espécie humana. Observado à distância, o grupo, em silhueta, destaca a harmonia da família, a vida vivida na simplicidade e na dignidade.
      A escultura tem 2,40 m de altura e foi executada em cimento de produção local, tendo custado na época uns simples 15 contos. Foi mandada executar pelo capitão Alves Aldeia, na época presidente da Câmara Municipal do Lobito, que vira uns dias antes a maqueta do projecto. Despertaram-lhe atenção aqueles rostos, sem olhos, sem narizes e sem orelhas, pessoas anónimas que povoam um mundo sem desigualdades sociais. O presidente da câmara não exitou em mandar, de imediato, executar a obra.
     “Caminhando” remete-nos a um súbito refrear no egoísmo, uma quebra na jactância de uma pretensa superioridade de uns sobre outros homens. Contemplando a singela silhueta projectada contra o sol poente, invade-nos um irreprimível desejo de compreender os outros como eles são, de sentir a sua mão na nossa, contentes de não mais nos sentirmos sós. Era esse, no fundo, o desejo do insigne escultor.


5 comentários:

Anónimo disse...

De tanto ver , nem reparamos ou a falta de sensibilidade para as artes.....mais uma vez fizeste na perfeição o trabalho de casa. Nando

Hibindo disse...

Lembro-me bem destas esculturas, pois vivi na saudosa Benguela a minha meninice e principio de juventude, visitando inumeras vezes a cidade do Lobito onde lanchava invariávelmente na pastelaria "Chave d'Ouro".Caminhando retrata para mim a tambem para mim suadosa mulher e criança angolana ,na sua simplicidade diària. Um dia espero voltar a observar essas esculturas e lembarei-me nesse momento do excelente artigo deste não menos excelente jornalista e homem .Até lá resta-me acompanhar este e outros locais na Net relacionados com a Terra.

Anónimo disse...

EU COMO NATIVO DESTA GRANDE CIDADE QUE O LOBITO SO TENHO A DIZER QUE FOI UMA GRANDE PERDA OS MEUS SENTIDOS DE PREZAR A FAMILIA DO GRNADE ESCULTOR LEGENDARIO DR.CANHAO BERNARDES.
O LOBITO NUMA FASE DE PAZ E DEMOCRACIA NAO SERIA MAL HOMENAGIARMOS UMA DAS RUAS DESTA LINDA CIDADE COM O NOME DESTE QUE FOI E E UM GRANDE ESCULTOR...
NANDO EDGAR

Anónimo disse...

jAIME TENS DADO UM GRANDE A CONTRIBUTO AOS BENGUELENSES E LOBITANGAS COM AS TUAS MENSAGENS, NESTE BLOG QUE P'LOS VISTOS VEIO PRA FICAR, QUERIA SO SUBLINHAR QUE HOJE DIA 25 DE MARCO, ESTA PREVISTA UMA MARCHA A FAVOR DAS VITIMAS DOS DESALOJAMENTOS FORCADOS EM TODO TERRITORIO ANGOLANO E HOJE MESMO ABRI O TEU BLOG E NAO VI NADA ANUNCIADO, NESTE BLOG TAO APRECIADO POR NOS ANGOLANOS CITUADOS EM TODA PARTE DO MUNDO, SERA QUE NAO TE APERCEBESTE OU ESTAS DO LADO DAQUELES QUE SAO CONTRA AS MANIFESTACOES CIVICAS?
MUITO OBRIGADO
NANDO EDGAR

São Pernadas disse...

Um blogue que sempre consulto.
Canhão Bernardes foi sem dúvida um astista ímpar. Já mulher feita delicio-me com a sua obra que já tinha grande impacto em mim como criança e, sem dúvidas, fazem parte das minhas memórias de infância. Obrigada pela "história".
Bem haja.