segunda-feira, 26 de julho de 2010

Os Caes e Os Galos da Colombia

     Vivíamos na pobreza sim senhor, mas o nosso Rex, não era um cão tinhoso, tipo aqueles que para ladrar precisam se encostar a parede para não caírem, como acontecia nas cenas contadas pelo tio Garcia no seu regresso da Colômbia. O tio falava da miséria que encontrou numa aldeia típica no meio da floresta amazónica chamada Ayacucho, muito longe de Bogotá. De tão magros, os cães do povoado latiam apoiados na parede para evitarem tombar. Por essa via resultava fácil descobrir onde os infelizes caninos se acoitavam para dormitarem. No chão ficava a baba peganhenta coberta por nuvens de moscas esverdeadas. As carraças, que burras não eram, preferiam arrastar-se no solo a xixilarem de fome no pelo seco e sarnento dos tradicionais hospedeiros, autênticos cadáveres semi-ambulantes. Coitados dos perros de Ayacucho, apodreciam ainda vivos e praticamente já não corriam. Quando ousavam andar os ossos tilintavam dentro do corpo frágil como as lâminas de uma marimba desafinada: “-clic, clang, clic, clang!”.
     Era assim na floresta tropical onde o tio Garcia esteve, lá na Colômbia, segundo as suas próprias palavras. Abaixo de cão só havia mesmo outro cão sarnento e mais nenhuma espécie de ser poderia reivindicar o lugar. Por aquelas bandas a escala hierárquica estava tacitamente estratificada num cruel prejuízo para os chamados melhores amigos do homem. Em contrapartida, os galos de briga eram venerados ate por generais fanáticos viciados em apostas enquanto faziam os preparativos do próximo golpe de estado para depor os seus colegas da junta militar em Bogotá. Os galos tinham direito a ração suplementar de milho para ganharem ginguzu e manterem a forma ate ficarem aptos a enfrentar renhidas batalhas contra outros galos valentes e bem treinados.
     Meninos, não liguem o que o munhunguero do Garcia vos conta. O mundo é assim mesmo desde que é mundo, cada povo tem a sua cultura, palavras de sapiência da tia Zita, olhos e ouvidos vigilantes nas concorridas palestras do suspeito familiar regressado de uma inquietante e misteriosa aventura zarpada no convés de um cargueiro atracado no porto do Lobito, isso nos idos tempos do caputo, quando ainda estávamos em Novo Redondo.
     Os povos do mundo têm culturas diferentes, os seus hábitos e os seus modos de vida, disse a tia com a intenção deliberada de neutralizar a crescente influencia do falante amazónico no seio familiar e na vizinhança, que naquele tempo éramos uma só entidade. Afinal o que é a diversidade cultural? Vejam: os Hindus, por exemplo, adoram as vacas sagradas cujo passatempo favorito é mangonharem por cima dos carris de comboio. O maquinista puxa os freios a fundo para não trucidar a vaca sagrada postada na via e lá consegue parar a tempo. Depois detém-se a composição de passageiros que vem de Kathmandu e a seguir mais outra oriunda de Calcutá. Isso dura ate chegar um trem recoveiro sem travões e mandar todo o mundo para os ares no meio dos ferrolhos retorcidos. Isso é na Índia. Enquanto isso, os Japoneses criadores de complexos sistemas electrónicos e fabricantes das mundialmente consagradas “Toyota Land-Cruiser” idolatram os lutadores de sumo, uns matulões vestidos unicamente com fraldas descartáveis que muita falta fazem as crianças nuas dos países subdesenvolvidos. Contudo, o facto não impede que alguns responsáveis do Unicef, o Fundo das Nações Unidas para as Crianças sejam Japoneses. Na Papua Nova-Guine o pessoal tem como luxo espetar tacos de madeira nas profundezas das narinas e nem sequer espirram. Depois vão deglutir uma iguaria preparada com os olhos extraídos em fresco dos cadáveres dos familiares.
     Quanto ao assunto dos cães da Colômbia ventilado pelo Garcia, é opinião abalizada da tia Zita que se os kambuas de lá chegam a esse estado de depauperamento é porque também fumam cangonha, ou sei lá essa coisa que falam no rádio, se é cocaína se é quê. Nesta altura da conversa faz-se um silêncio impenetrável, o tempo necessário para a tia engatilhar estrategicamente a arma e disparar a cruel pergunta do costume, que tanto constrangimento causava ao palestrante: – “ Em vez de estar a ensinar malandrice nas crianças, qualquer dia o mano Garcia ainda nos vai explicar tintin por tintin o que andou a fazer nessa tal Colômbia”.



4 comentários:

Soberano Canhanga disse...

Grande Conto,
Abraço do Canhanga

TONI TAVARES disse...

Era sempre assim quando os embarcadiços ou regressados do Joanes chegavam à banda.Nos primeiros tempos, vestidos de fatiota e com botas de bico fino a matar baratas nos cantos, aquilo é que era bugar para toda a maltosa lá da buála. Os candengues muito atentos, depois reproduziam aquilo tudo, feitos DVDs piratas do tempo do Sabalo, mas os cotas botavam sorrisos de esguelha e quando já era de mais cuspiam logo:-Essa já não pega, ó meu!

Jaimito, aquele abraço.

Anónimo disse...

A isto chama-se escrita pura.Fico a espera que o Garcia conte o que andou a fazer pelas Colombias!Ou era so gabarolices da epoca?Um abraco deste longicuo Reino Unido,Carlos.

Anónimo disse...

Uma evolucao assinalavel na qualidade do texto. Isso um dia vai dar um bom romance amigo Jaime. E preciso prosseguir, ja domina a tecnica e tem estilo muito proprio tudo o que um bom escritor precisa. Parabens e va com humildade.
Saraiva