quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Monumento a Aviacao Muda de Lugar no Lobito

             A ESCULTURA NO SEU NOVO "HABITAT"    
     O "Monumento a Aviacao", uma das esculturas mais emblematicas da cidade do Lobito, mudou de lugar. Numa operacao pouco vulgar (nos tempos da euforia eram derrubadas simplesmente!) as autoridades decidiram muda-la da pequena praca defronte ao aeoroporto do Lobito (hoje militar) para outro local da cidade portuaria, a avenida do bairro da Luz. Uma operacao bem sucedida que trouxe beleza e simbolismo para uma zona mais visivel e, por sinal, nem fica distante do aeroporto. Os nossos parabens a administracao municipal e ao seu lider, o engenheiro Amaro Ricardo, pela sua decisao arrojada e bem sucedida.
      Podemos recuar um pouco no tempo e falarmos dessa e outras esculturas do Lobito criadas pelo engenheiro Canhao Barnardes, artista injustamente esquecido e falecido em 13 de Fevereiro do presente ano de 2010 no Rio de Janeiro, Brasil..
      Na época, o “Monumento à Aviação” foi considerada obra notável de engenharia, inteiramente executada no Lobito e exclusivamente com recursos técnicos locais. Os trabalhos de fundição foram realizados nas oficinas do Caminho-de-ferro de Benguela comandados pelo engenheiro Alberto Soares Ribeiro. Foi necessária muita ousadia, até se conseguir suspender, no pedestal, apenas por uma das coxas, um cavalo com 6,30 metros de comprimento do focinho até à cauda e pesando quase duas toneladas. Tal só foi possível por meio de uma barra de aço embutida na estrutura em bronze. O autor queria ir além de Milles na escultura “Pégaso”, na qual o cavalo rompante é sustentado por um matacão de bronze colocado no centro.
       O artista recorreu ao cavalo como símbolo de transporte. E fê-lo, não como em “Centauro” ou “Pégaso”, nem tampouco em formato de flecha ou tapete voador como nos contos infantis das mil e uma noites. Mas sim como um foguetão, pesado e metálico: “ A montada teria de vencer a gravidade e mover-se para o infinito, arrastando no dorso o Homem, que o comanda”.
     Correndo num galope desenfreado, o animal é domado por um destemido cavaleiro. Com uma só mão, pousada sobre o seu dorso, o homem dirige a montada para o Oeste desconhecido. Cavalo e cavaleiro vão voando do Lobito para o mar, roçando a crista altaneira de uma vaga oceânica. Uma placa brilhante regista para a posteridade: “Aos homens que, depois do mar domado, querem o infinito”.
       Sobre Canhao Barnardes, de nome completo Otávio Canhão Bernardes podemos apurar dados interessantes. Escultor autodidacta de rara sensibilidade (começou a fazer escultura por entretenimento aos 42 anos de idade), viveu no Lobito durante as décadas de 60 e de 70 do século passado. Com a inesperada eclosão da guerra civil, ele rumou para o Brasil onde também deixou obra, na Praça Fernando Pessoa, em Curitiba. Bernardes deixou espalhado, não só no Lobito, mas igualmente nas províncias do Kwanza-Sul e do Bié, o testemunho de seu extraordinário talento. Ao todo, tinha 14 obras em locais públicos até ao ano de 1972.
     Na época estava em voga (e ainda hoje assim é em muitos lugares do planeta) o frenesi de encher as praças públicas com heróis colocados em pedestais. Canhão Bernardes partilhava da opinião que, ao fomentar-se a escultura em lugares públicos, não deveria ser com a imposição de heróis. Estes, volta e meia são derrubados, em consequência da queda dos regimes e sistemas que simbolizam. Para Bernardes, a escultura deveria significar algo mais para as pessoas, cujos itinerários se vão cruzando ao longo do dia. Um meio de aliviar, através da beleza, os percursos rotineiros entre a casa e o trabalho.

 

4 comentários:

Anónimo disse...

Gostei da atitude "diferente" das Entidades Lobitangas...Pelo Mundo fora não encontramos exemplos destes.Devemos valorizar o que é bonito, independentemente do Criador.Não traz mal a ninguém, nem ninguém muda por isso.
Abraços
Reigadinha

Anónimo disse...

Meus parabens aos Lobitangas.
P.J.

Anónimo disse...

Como é Jaime nem uma palavrinha sobre a prisão do ex- administrador de Benguela?
Será por ser do teu MPLA?
Vá lá...

TONI TAVARES disse...

Na minha modesta forma de ver as coisas, considero um desrespeito aos Lobitangas, que há cerca de cinquenta anos viram o implantar daquela maravilhosa estátua defronte ao velho aeroporto do Lobito. É como mandar um idoso de sua casa para o asilo. Porque não se criou ali uma pirâmide simbolizando as salinas do Lobito, ao invés de se plagiar... O Pégaso estava bem lá onde estava, era só questão de se transformar aquele lugar num aprazível "Aeroclube" cessando assim o carrancudo e belicista panorama que o aeroporto militar nos empresta em tempo de paz.
Aquele abraço.