sexta-feira, 25 de julho de 2014

Membassoco: a nossa coluna e a batalha dos 57 dias no Huambo


A derradeira foto tirada por Marco Vercruysse durante a manhã no Membassoco. O Kito com a AKA e eu com a PKM. Ainda se vê ao lado do meu ombro esquerdo o Aurélio Boaventura da TPA e o seu camaraman de roupa preta

Dedicatória: em memória do major “Ngurra”, que não conheci mas ouvi os seus feitos das bocas dos soldados que ele comandou durante os 57 dias. À todos os que lutaram no Huambo.

Jaime Azulay

     1993. Membassoco, município do Cubal, antiga região do sisal, a cerca de 160 quilómetros à Leste da cidade de Benguela. A gigantesca caravana estacionou próximo à estação ferroviária, na estrada que liga ao Huambo, onde se combatia encarniçadamente dia e noite na conhecida Batalha dos 57 dias (a Unita diz serem 55 dias). Em 1991, o governo angolano tinha desmobilizado as FAPLA por força de acordo de Paz com arebelião armada da UNITA assinado em Bicesse. À revelia do acordo, a UNITA escondera matreiramente o seu exército da supervisão da ONU e iniciou um ataque contra a capital do planalto central. No Huambo as coisas ficaram complicadas para o pequeno efectivo das forças governamentais que rapidamente foram confinadas para um pequeno reduto da parte alta da cidade. Os comandantes pediam desesperadamente reforços ao governo central mas em nenhum lado havia tropas para enviar. Foi quando os generais Luis Faceira, Violência, Armando, organizaram um contingente de antigos soldados das FAPLA e outros voluntários na província de Benguela. Viaturas civis foram adaptadas às pressas para o combate e uma logística foi carregada em camiões. A caravana saíu do quartel do CIRM em Benguela rumando inicialmente para Sul, em direcção à Katengue. Na estrada a coluna começou a enfrentar guerrilheiros da Unita emboscados nos matagais e montanhas que ladeiam a via.
     O destino traçado era o Huambo. Íamos nos juntar aos camaradas que lá estavam a lutar desde a tarde do dia 9 de Janeiro de 1993. Huambo estava a ferro-e-fogo e a tropa dos generais Ngueto e Sukissa batia-se para a cidade não ser tomada. Lembro ter deixados os meus filhos Indira e Fábio a dormirem o sono da inocência. Minha esposa apreensiva como sempre:- porque tens de ir? Perguntou secamente. -Não sei amor, só sei que tenho de ir. Estava decidido. Comigo e como sempre o meu saudoso camarada Kito Neves "Cartucheira".
     No Cubal encontramos amigos jornalistas, o falecido Celestino Mota da RNA, o Aurélio Boaventura da TPA. Eles também queriam ir para o Huambo. Ficamos alojados na tenda do major Camberra, veterano da guerra do “Kapa-Kapa” dos anos oitenta. Voltara a envergar a farda para cumprir o seu dever como militar. Camberra viria a morrer meses mais tarde num triste episódio em Caimbambo quando travou um duelo com o seu guarda-costas por ciúmes. Ambos dispararam ao mesmo tempo e dias depois recebemos na pista da Catumbela os dois corpos embrulhados em cobertrores, lado a lado. É um episódio incrivelmente dramático que contarei noutra ocasião.
     Na tenda do major Camberra onde estavamos acampados no início do mês de Fevereiro de 1993 tinha uma viola que ele nunca abandonava, nos disseram os guardas. Depois do jantar tocávamos canções patrióticas bonitas. Os colegas da TPA filmaram, mas as cassetes hoje já ninguém sabe onde estão. Estávamos decididos a tudo para chegar ao planalto central. As canções que cantávamos levantavam o nosso moral. Com o som da viola do major Camberra apareceu uma percursão bem compassada. Os soldados batiam nas cartucheiras de peito e o chocalhar das balas fazia de dikanza. Foi mesmo assim que aconteceu.
     Numa manhã cinzenta ouvimos o BM-21 a disparar próximo de nós. Estávamos acampados numa das cabeceiras do campo de aviação do Cubal. Saí da tenda e vi a posição dos canos da rampa que estava a lançar os foguetes. Calculei que o alvo devia estar a uns 10 ou 12 quilómetros. Na guerra a preparação de artilharia sempre precede uma movimentação. Não tardou para as coisas se precipitarem. Pouco tempo depois recebemos ordem para embarcar nos camiões e fomos nos juntar ao restante da caravana que estava a organizar-se na estrada para a Ganda. Eram mais de uma centena de veículos com munições e logística diversa para reforçar as forças governamentais no Huambo. Acampamos um pouco depois de passarmos a vila ferroviária de Marco de Canavezes num local chamado Membassoco. Eu sabia que neste local a UNITA tinha destruído a última composição do CFB que tentou atingir o Huambo no início dos anos oitenta.
     As tropas fizeram um cordão de segurança dos dois lados da estrada. O comandante era o primeiro super-intendente Lili-Vali , um kwanhama de porte atlético e poucas falas.O segundo comandante era o superintendente Victor, um tropa simpático com barbicha farta e pernas arqueadas. Entregaram-nos ração fria e já não estava permitido fazer lume.
     Lá pela madrugada começou a cacimbar. Era um cacimbo de aviso que o inimigo estava perto, alertaram os tropas que conheciam os segredos da guerra. Mal amanheceu a coluna começou a tocar (andar na lingugem militar). Esqueci de dizer que estava connosco um jornalista belga Era o Marco-Vercruysse. Os comandantes não queriam que ele avançasse mais para o interior por causa do perigo da viagem. Entregaram-me um BTR com uma guarnição para regressar com o belga para o Cubal a fim de ele ser evacuado de helicóptero para Benguela.
     A coluna só andaria mais uns quilómetros. Foi surpreendida por fogo de um canhão B12. Iniciava o combate com forças da Unita emboscadas na zona do Calondende. Gerou-se um pandemônio danado. Os camiões articulados, Scania 111 da BCA ficaram atravessados na estrada abandonados pelos motoristas civis que ficaram assustados com as explosões e fugiram para o mato. A manobrabilidade dos veículos de escolta ficou comprometida. As viaturas blindadas com os AGS-17 e os camiões DAF com as super-metralhadoras ZU-23 ficaram impossibilitados de abrir fogo por falta de espaço de manobra.
     Surpreendemente o comandante da coluna Lili-Vali é atingido à queima roupa por um comando da Unita e é deixado abandonado pelos seus guardas. O meu companheiro Kito Neves puxa o corpo do Lili-Vali para detro do BTR e de arma em punho obriga o condutor a manobrar para levar o comandante ferido para o Cubal.
     Na coluna o caos é geral. O 2º comandante Victor tem dificuldade em articular com a força de vanguarda comandada pelo então major Ndalu (homem valente, hoje brigadeiro) que estava com 10 viaturas no reconhecimento combativo profundo. Ndalu abriu fogo cerrado provocando muitas baixas aos atacantes. Ele tinha uma SVD russa nova em folha que depois me ofereceu com o mesmo gesto fraterno como agora se oferece uma caneta ou uma gravata a um amigo no dia do seu aniversário.
     A Unita apoderou-se de grande parte do equipamento, incluindo camiões totalmente carregados com logística da BCA, armas e milhões de munições. O que sobrou de homens e meios reagrupou-se novamente no Cubal, mas já sem o poder combativo para enfrentar a UNITA.
     O pior aconteceu depois e teve uma influência decisiva no desfecho da batalha do Huambo. Assim que
capturou os veículos, a UNITA rumou imediatamente para o Huambo e em poucas horas lá chegou. Os nossos combatentes do governo quando ouviram o ronco dos motores e viram a coluna a entrar pela Caála pensaram que ser os reforços salvadores. Só deram conta da terrivel realidade quando viram as ZU-23 e AGS-17 a vomitarem-lhes em cima o fogo das suas entranhas.
     Savimbi ganharia mais uma batalha no Huambo. Mas a guerra continuaria. Eu e o Kito Neves fomos visitar o comandante Lili-Vali no Hospital militar de campanha na base da Catumbela. Embrulhado em gases e com um braço a tira-colo saudou-nos. Disse as seguintes palavras para o Kito:-“ Nunca irei esquecer de ti , o que fizeste foi de homem ”. pela primeira vez vi lágrimas nos olhos de um kwanhama.
     Depois o tempo correria célere. Em 2013 enterrei o meu inseparável companheiro Joaquim Neves António “Kito” no cemitério de São Pedro no próprio Huambo que ele conquistara com as tropas do general Sousa,em Novembro de 1994. Do comandante Lili-Vali nunca mais soube nada . Já o coronel Victor, o segundo Comandante da coluna, veio da Lunda propositadamente para visitar-me. O Ndalu também apareceu em minha casa um dia, já com os merecidos galões de brigadeiro nos ombros. Foi assim que tudo aconteceu com a nossa coluna, em 1993 na batalha dos 57 dias do Huambo.
(Fim)

5 comentários:

"Soberano" Canhanga disse...

Uff.
Riro o chapeu.
Obrigado pela narrativa que nos leva a conhecer uma pag. da nossa História.

"Soberano" Canhanga disse...

Uff.
Riro o chapeu.
Obrigado pela narrativa que nos leva a conhecer uma pag. da nossa História.

Gazza disse...

Profundo... As memórias da guerra são tão emocionantes e profundas quanto trágicas. Que sirva de lição para todos nós! Bem haja, Jayme Azulay.

claudeth hililivali disse...

olá gostei muito dessa narração eu sou a
filha do superintendente Lili-vali ali mencionado fico orgulhosa de saber que meu pai participou de maneira activa nessa história ele pede pra informar ao senhor Jaime que ele está bem de saúde e gostaria de manter o contacto e lembrarem desses tempos

Yossefeda da Fonseca disse...

Jaime muito obrigado pelo contributo da historia viva da guerra de 93 a 94 do Huambo. O comandante Lili-vali vive em ondjiva e ainda está no ativo na policia nacional.Curiosamente é chará do meu filho de 2 anos Will Hililivali. Vamos fazer tudo para um possivel reencontro entre o Dr. Jaime e o Cmdte Lili-vali