segunda-feira, 5 de abril de 2010

En Cuba... Con Fidel (III)

     Livrei-me dos testes médicos na Clínica Internacional Cira Garcia, em Havana, numa tarde de Março ressacada por uma arreliadora frente fria oriunda do Norte. Pela manhã o vento soprara forte e o mar estava agitado, em contraponto com o trânsito ordeiro da cidade. Durante horas a fio as ondas fustigaram o paredão do Malecón e uma pancada de chuva atacou os desprevenidos.
     Regresso ao hotel a bordo do Lada de Ramón, o meu amigo taxista. Ele garante não vir à caminho da ilha nenhum furacão, ouviu no boletim meteorológico da televisão, após o locutor ter lido um longo texto assinado por Fidel Castro. Periodicamente, el comandante publica as suas "Reflexiones" expressando inquietantes convicções quanto a temas da actualidade resultantes da ordem capitalista pela qual nutre secular e justificada antipatia. Ramón dirige impassível o Lada vermelho pela Calle 32, imerso nas suas recordações pelos areais empedrados da distante Etiópia onde serviu como combatente, garantiu-me após ficarmos amigos.
     Chegamos ao Hotel Panorama, uma excelente unidade na orla marítima, com tecnologia para resistir a abalos sísmicos. Recordo que nestes dias os tremores estavam a fazer estragos na região. O Chile e o vizinho Haiti sentiram os efeitos demolidores da força bruta da natureza. Mas não era isso que me preocupava agora. Parámos no Hotel. Ramón dá à volta do carro para abrir a porta do meu lado, ela não abre por dentro.
     Estou momentaneamente distante do cheiro de medicinas da clínica, Ramón quer um dedo de conversa, mas eu fujo, tenho em encontro marcado com o amor no aconchego do meu quarto. Sobre os lençóis esperava-me paciente um soneto que fala num "Amor Feliz" escrito pela falecida Maria Dulce Loynaz. Tinha o livro na cama desde o dia em que o comprara numa livraria de Havana Velha. Todos os dias lia alguns poemas, mas começava e terminava sempre com o "Amor Feliz". Descobri porque a escritora escrevera "Amor Feliz" com iniciais maíusculas.
     O meu estado anímico começava a ser outro, após sairem os resultados das análises e das observações dos especialistas, algumas notoriamente deprimentes, como aquela de tirar as medidas à próstata. Há bons anos que não ia ao médico, os parafusos foram desapertando, desapertando e por pouco não moeram a rosca. Sucede que a nossa cultura de saúde é praticamente medieval. Só vamos ao hospital nos casos das articulações doridas e da febre que acompanha o nosso paludismo de estimação. Ou ainda o recurso aos mesmos medicamentos que minha falecida mãe tomava para o seu crónico problema de hipertensão que, pelos vistos, recebi como herança.
     Os cubanos desenvolveram um sistema de saúde moderno. Em algumas especialidades eles são líderes mundiais. O serviço de saúde é gratuito para os cidadãos nacionais, sem qualquer discriminação. Os responsáveis da ilha descobriram que podiam oferecer a qualidade dos seus médicos aos estrangeiros e assim conseguirem mais uma fonte de receitas para atenuar a crítica situação económica que o país vive. A Clínica Internacional Cira Garcia, situada numa arborizada e pacata avenida de Havana atende o pessoal do corpo diplomático acreditado em Cuba e seus familiares. São recebidos igualmente pacientes provenientes de países das caraíbas e doutras partes do mundo. Existem pacotes proporcionados por agências de viagens  que combinam o tratamento médico com o turismo, uma solução feliz na qual o governo cubano aposta para continuar a resistir ao bloqueio económico dos Estados Unidos decretado em 1962 e que continua em acção. Calcula-se que o embargo tenha causado uma perda de 79 biliões de dólares americanos à economia da ilha.
        Com o desmoronamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e do bloco do Leste representado na vertente da cooperação económica pelo Conselho de Ajuda Mútua Económica (CAME) Cuba perdeu o seu tradicional aliado. A URSS retirou os seus subsídios que rondavam de 4 a 6 biliões de USD anuais até 1990.
     O turismo foi apontado como a saída para suprir a perda de tão forte aliado face à política hostil do poderoso vizinho do norte. A partir do início da década de 90 o turismo cresceu exponencialmente em Cuba. Em 1990 estiveram no país 342 mil visitantes estrangeiros e em 1999 a cifra bateu 1 milhão e seiscentos mil turistas. Mas o record seria atingido em 2006 com 2 milhões e trezentos mil turistas. O sector consegue dar emprego a 268 mil cubanos e incrementar outros sectores da economia.

       Exemplar de 14 de Março de 2010 do Granma, órgão oficial do Partido Comunista Cubano a malhar feio em Guillermo Farinas e outros dissidentes das greves de fome: " Não é a medicina que deve resolver o problema intencionalmente criado, com o objectivo de desacreditar o nosso sistema político, mas sim o próprio paciente e os apátridas, diplomatas estrangeiros e meios de imprensa que que o manipulam. As consequências serão exclusivamente da sua responsabilidade"(Sic)
  
      Os turistas que chegam à Cuba são maioritariamente europeus. As aeronaves provenientes do velho continente poisam nos arredores do seu destino principal são as magníficas praias de Varadero onde existem hotéis de alto padrão com serviços de categoria mundial. Mas surge um senão que começa a impedir a expansão plena do turismo: a situação política no país, marcada a partir do início de 2010 com a eclosão de um movimento grevista de dissidentes do regime que usa como arma a recusa em alimentar-se pura e simplesmente. Esse movimento está a causar sérios danos à imagem do país em matéria de direitos humanos e liberdades de expressão e de manifestação. Em Fevereiro de 2010, na sequência de uma greve de fome de 85 dias morreu praticamente seco o dissidente Orlando Zapata. Choveram duras críticas do Parlamento Europeu e de outros organismos, bem como de governos e personalidades mundiais. Logo Zapata foi substituído por um novo grevista: Guillermo Farias Hernandez "El Coco", um antigo coronel das forças especiais do exército, que é também jornalista e psicólogo que se afirma disposto a morrer pela sua causa se o regime não libertar 26 companheiros encarcerados nas cadeias. Eles se encontrarão doentes, alerta Farinas. Os grevistas ficam semanas sem comer e atingem aspectos de magreza verdadeiramente incríveis e deprimentes até entrarem em estado de choque. Funcionam como verdadeiros kamikazes contra o regime comunista que vigora há mais de 50 anos na ilha sob o comando dos irmãos Castro, Fidel e Raul. O governo cubano não tem conseguido lidar com o problema de forma serena. As suas reacções oficiais são sempre musculadas atravès de declarações inflamadas que têm produzido efeitos contraproducentes. Os grevistas não se intimidam, continuam  a não aceitar ingerir alimentos até perderem a consciência e chegarem ao chamado estado de não-retorno. Ali começam então a receber assistência, mas nem sempre é possível restabelecer as suas funções vitais, como aconteceu com Zapata. Enquanto estiverem conscientes ninguém os pode obrigar a comer, diz o governo. O estado de Farinas que, segundo se diz, realizou duas missões de guerra em Angola e depois se rebelou contra o sistema, continua a degradar-se, com o assunto a ter uma cobertura mediática impressionante, a partir da sua casa em Santa Clara, onde está erguido o monumento ao ícone da revolução Che Guevara. Farinas, nos seus momentos de lucidez é reporter assíduo da emissão Rádio Marti e de outras emissoras anti-cubanas baseadas em Miami, já pronunciou o seu testamento: "Vou morrer pela minha causa". Raul Castro respondeu:" Se ele morrer é por culpa dele e dos seus patrões yankes, Cuba não vai ceder um milímetro". Lá de cima, no vizinho do Norte, Obama espreitou pela janela da sala oval e gritou para os irmãos Castro:" Não causem mais sofrimento aos vossos cidadãos".
      Ao regressar para a banda com 15 quilos a menos, por causa da dieta e dos exercícios impostos pelo médico, pensei com os meus botões o ditado da sabedoria africana, passada de geração em geração na comunhão fraterna do njango: QUANDO OS ELEFANTES LUTAM QUEM SOFRE É O CAPIM.

1 comentários:

Angolák disse...

Jaime os turistas sao por media de Canadá e Europea. Eu com familia passava ferias em Nov e Dec 2009 nas playas de Varadero! Era muito bom. Nos passavamos pelo carro até Sta Clara, Cienfuegos e Trinidad como Vinales e Pinar del Rio inclusive Havana! Em nossas corações é Cuba firme para sempre!
Abraços
Catumbelan