Lendário guardião Joaquim Valongo: In Memorian.
Jaime Azulay
Terça-feira, dia 2 de Fevereiro de 2010. A notícia da desgraça caíu como um raio em dia de tempestade e pela cidade se espalhou como calema de Março na praia morena: morreu o Valongo, o futebol está de luto. Agora acreditamos. Mesmo a agonizar no leito da morte, o veterano guardião esperou que baixassem as cortinas do CAN, a festa do futebol africano que Angola organizou com assinalável êxito e a sua Benguela acolheu uma das fases nbo novo estádio de Ombaka. Joaquim António Valongo, o lendário guarda-redes benguelense, que chegou a ser contratado pelo Benfica de Lisboa na década de 50, foi a enterrar no Cemitério Velho da Camunda. Faleceu na Segunda-feira, dia 1 de Fevereiro, driblado por prolongada doença, no Hospital Provincial de Benguela.
Futebolista de fina categoria, nasceu no Lobito, bairro de S. Miguel, no dia 7 de Julho de 1931. Desde criança pontapeou bolas de trapos nos areais ao meio dia, vendo a cidade crescer com o porto e com o CFB. Cedo chamou a atenção de quem entende da coisa. Começou a jogar no FC do Lobito no final da década de 40. Foi ali onde se destacaram as excepcionais qualidades que fizeram dele um grande guardião. As suas defesas eram incrivelmente deslumbrantes.
Naquele tempo, só os melhores dos melhores iam para a metrópole, para a capital do império colonial português. Valongo embarcou para Lisboa e entrou para o plantel do Sport Lisboa e Benfica. A integração aos ares invernais não foi das melhores, como por vezes sucede no futebol profissional. Alguns anos depois Valongo regressa para Benguela. Fica um tempo no seu FC do Lobito e depois começa a defender com brio a baliza do Portugal de Benguela, ao lado de grandes nomes da época, como Edelfride "Miau", os irmãos Lara, Pila, Góia, Botija, Neto, Mateus Kandengandenga e outros. Foi campeão ultramarino de Portugal e provincial nas épocas gloriosas do Sport Clube Portugal de Benguela, anos de 1961/62/63.
Atinge o estatuto de um dos melhores guarda-redes de Angola, segundo testemunho de futebolistas renomados que o viram jogar. Contam que um dia, durante um jogo renhido, o árbitro assinalou um penalti contra a sua baliza. O batedor do penalti é nada mais nada menos do que o temível Matateu, detentor do remate mais portentoso que alguma vez se vira em Angola, no tempo das chuteiras de traves. O placard acusava 0-0. Então o jogo esquenta. Com o penalti contra o “keeper” Valongo o cenário promete espectáculo. Nas bancadas o público estica as pernas por causa das caimbras, enquanto os deserdados se comprimem na zona do peão, debaixo da sombra de frondosas acácias alfarrobeiras. Matateu coloca, ele próprio, a bola na marca, decidido a pôr fim à fama de matador de penaltis que ostenta o Valongo. A acção começa a rodar, o desfecho é imprevisível. Estão frente-à-frente os maiores ídolos do povo. Toda gente sabe disso. Matateu toma balanço dando uns passos à retaguarda. De repente estaca placidamente com as mãos na cintura, como era seu hábito. Depois suspira um assobio profundo que se ouve em todo campo, como um touro enfurecido. Tudo está parado, excepto umas moscas teimosas enxotadas com o leque das senhoras da tribuna ou esmagadas pelas mãos calosas dos homens suados do peão, que assistem ao jogo em pé. Tio Mukuna, homem truculento e adepto da bola, já falecido, está no peão no meio da multidão, após uma semana a enraiar as rodas das solex na oficina do Seabra e uns copázios de tinto de barril no bar do Sr. Lopes Cacolete ou no escondidinho. Junto a ele estão outros sofrimentos: operários , pescadores e os chamados criados vindos de Caluquembe e que adoravam futebol. O árbitro apita. Matateu larga em direcção à bola como uma flecha. Valongo está na linha de golo, ligeiramente agachado no meio dos postes, como um felino pronto para atacar a presa escolhida. Matateu estoira um monumental petardo direccionado para um dos cantos da baliza, na certeza do golo. Eis que, como se fora feito de borracha, Valongo se eleva no espaço e capta a bola com uma só mão. Com o esférico dominado, ele aplaca suavemente no pelado vermelho do estádio como uma nave trazida pelos anjos. A assistência está electrizada nas bancadas. Nunca ninguém vira nada parecido antes. Matateu, recupera da surpresa e corre para o Valongo abraçando-o com emoção. No fundo, eles eram amigos. Eram irmãos no infortúnio da negritude oprimida. Ofegante, Mata (Matateu) mal consegue balbuciar estas singelas palavras:" És bom, tu és o melhor!". Valongo agradece com um sorriso maroto nos lábios, debaixo de uma ovação vinda simultâneamente das bancadas e do peão, mas não larga o esférico, não ia o matreiro do Matateu roubá-la de caxexe e atirá-la para o fundo das redes e subverter o rumo da história. E quanto à árbitros gatunos, dizem que eles nasceram com o futebol. Quem inventou, inventou os dois.
O episódio foi recordado, de viva voz, há uns anos, quando o finado Valongo concedeu uma entrevista ao programa "Glórias e Conquistas" do grande futebolista e ilustre radialista Arlindo Leitão. Foi de lágrimas a entrevista. Oxalá tenham guardado o registo da conversa.
Mais uma lenda de Benguela parte para o Calundo sempiterno. Ali no morro da Camunda, no "Campo da Igualdade", onde repousa a História da nossa inigualável cidade. No cimo do seu túmulo, uma bola de futebol, as luvas de guardião e uma pétala de Acácia-Rubra, o símbolo da inesgotável e singular vitalidade de Benguela, a Cidade-Mãe-das-Cidades. O nosso profundo reconhecimento e as sentidas condolências aos familiares. “És bom, tu és o melhor”. Descanse em Paz Joaquim António Valongo.
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Jaime Azulay
Terça-feira, dia 2 de Fevereiro de 2010. A notícia da desgraça caíu como um raio em dia de tempestade e pela cidade se espalhou como calema de Março na praia morena: morreu o Valongo, o futebol está de luto. Agora acreditamos. Mesmo a agonizar no leito da morte, o veterano guardião esperou que baixassem as cortinas do CAN, a festa do futebol africano que Angola organizou com assinalável êxito e a sua Benguela acolheu uma das fases nbo novo estádio de Ombaka. Joaquim António Valongo, o lendário guarda-redes benguelense, que chegou a ser contratado pelo Benfica de Lisboa na década de 50, foi a enterrar no Cemitério Velho da Camunda. Faleceu na Segunda-feira, dia 1 de Fevereiro, driblado por prolongada doença, no Hospital Provincial de Benguela.
Futebolista de fina categoria, nasceu no Lobito, bairro de S. Miguel, no dia 7 de Julho de 1931. Desde criança pontapeou bolas de trapos nos areais ao meio dia, vendo a cidade crescer com o porto e com o CFB. Cedo chamou a atenção de quem entende da coisa. Começou a jogar no FC do Lobito no final da década de 40. Foi ali onde se destacaram as excepcionais qualidades que fizeram dele um grande guardião. As suas defesas eram incrivelmente deslumbrantes.
Naquele tempo, só os melhores dos melhores iam para a metrópole, para a capital do império colonial português. Valongo embarcou para Lisboa e entrou para o plantel do Sport Lisboa e Benfica. A integração aos ares invernais não foi das melhores, como por vezes sucede no futebol profissional. Alguns anos depois Valongo regressa para Benguela. Fica um tempo no seu FC do Lobito e depois começa a defender com brio a baliza do Portugal de Benguela, ao lado de grandes nomes da época, como Edelfride "Miau", os irmãos Lara, Pila, Góia, Botija, Neto, Mateus Kandengandenga e outros. Foi campeão ultramarino de Portugal e provincial nas épocas gloriosas do Sport Clube Portugal de Benguela, anos de 1961/62/63.
Atinge o estatuto de um dos melhores guarda-redes de Angola, segundo testemunho de futebolistas renomados que o viram jogar. Contam que um dia, durante um jogo renhido, o árbitro assinalou um penalti contra a sua baliza. O batedor do penalti é nada mais nada menos do que o temível Matateu, detentor do remate mais portentoso que alguma vez se vira em Angola, no tempo das chuteiras de traves. O placard acusava 0-0. Então o jogo esquenta. Com o penalti contra o “keeper” Valongo o cenário promete espectáculo. Nas bancadas o público estica as pernas por causa das caimbras, enquanto os deserdados se comprimem na zona do peão, debaixo da sombra de frondosas acácias alfarrobeiras. Matateu coloca, ele próprio, a bola na marca, decidido a pôr fim à fama de matador de penaltis que ostenta o Valongo. A acção começa a rodar, o desfecho é imprevisível. Estão frente-à-frente os maiores ídolos do povo. Toda gente sabe disso. Matateu toma balanço dando uns passos à retaguarda. De repente estaca placidamente com as mãos na cintura, como era seu hábito. Depois suspira um assobio profundo que se ouve em todo campo, como um touro enfurecido. Tudo está parado, excepto umas moscas teimosas enxotadas com o leque das senhoras da tribuna ou esmagadas pelas mãos calosas dos homens suados do peão, que assistem ao jogo em pé. Tio Mukuna, homem truculento e adepto da bola, já falecido, está no peão no meio da multidão, após uma semana a enraiar as rodas das solex na oficina do Seabra e uns copázios de tinto de barril no bar do Sr. Lopes Cacolete ou no escondidinho. Junto a ele estão outros sofrimentos: operários , pescadores e os chamados criados vindos de Caluquembe e que adoravam futebol. O árbitro apita. Matateu larga em direcção à bola como uma flecha. Valongo está na linha de golo, ligeiramente agachado no meio dos postes, como um felino pronto para atacar a presa escolhida. Matateu estoira um monumental petardo direccionado para um dos cantos da baliza, na certeza do golo. Eis que, como se fora feito de borracha, Valongo se eleva no espaço e capta a bola com uma só mão. Com o esférico dominado, ele aplaca suavemente no pelado vermelho do estádio como uma nave trazida pelos anjos. A assistência está electrizada nas bancadas. Nunca ninguém vira nada parecido antes. Matateu, recupera da surpresa e corre para o Valongo abraçando-o com emoção. No fundo, eles eram amigos. Eram irmãos no infortúnio da negritude oprimida. Ofegante, Mata (Matateu) mal consegue balbuciar estas singelas palavras:" És bom, tu és o melhor!". Valongo agradece com um sorriso maroto nos lábios, debaixo de uma ovação vinda simultâneamente das bancadas e do peão, mas não larga o esférico, não ia o matreiro do Matateu roubá-la de caxexe e atirá-la para o fundo das redes e subverter o rumo da história. E quanto à árbitros gatunos, dizem que eles nasceram com o futebol. Quem inventou, inventou os dois.
O episódio foi recordado, de viva voz, há uns anos, quando o finado Valongo concedeu uma entrevista ao programa "Glórias e Conquistas" do grande futebolista e ilustre radialista Arlindo Leitão. Foi de lágrimas a entrevista. Oxalá tenham guardado o registo da conversa.
Mais uma lenda de Benguela parte para o Calundo sempiterno. Ali no morro da Camunda, no "Campo da Igualdade", onde repousa a História da nossa inigualável cidade. No cimo do seu túmulo, uma bola de futebol, as luvas de guardião e uma pétala de Acácia-Rubra, o símbolo da inesgotável e singular vitalidade de Benguela, a Cidade-Mãe-das-Cidades. O nosso profundo reconhecimento e as sentidas condolências aos familiares. “És bom, tu és o melhor”. Descanse em Paz Joaquim António Valongo.

