Major Domingos Júnior, grande repórter de guerra. Aqui fotografei o camarada na tomada do Andulo pelas FAA, em Outubro de 1999. Momentos decisivos para a conquista da Paz definitiva em Angola e que nós reportamos no terreno. Encontrei sempre neste companheiro uma amizade e respeito que partilhamos até à presente data, juntamente com o Nelson Pedro da RNA.
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sexta-feira, 2 de março de 2012
Na troca de prisioneiros entre governo/Unita. Jamba, província do KK, 1991.
Em 1991, com os Acordos de Bicesse assinados em 31 de Maio, desloquei-me pela primeira vez à Jamba, o antigo quarte-general da Unita, na província do Kuando-Kubango com o Comié Internacional da Cruz Vermelha, para a troca de prisioneiros entre o governo de Angola e a Unita. Acompanhei o actual vice-presidente da República, Fernando da Piedade "Nandó" que representava o governo na Comissão Conjunta. Viviam-se momentos de grande esperança na reconciliação entre os angolanos. Marcaram-se as eleições para o ano seguinte, 1992. Estive pela primeira vez numa troca de prisioneiros entre ex-beligerantes organizada pelo CICV. É uma cerimónia de elevada carga emocional. Tratam-se de homens que estiveram anos no cativeiro conhecem o sol da Liberdade porque os seus líderes se tinham entendido. Muitos deles não encontrarão as famílias como as deixaram. Cada um carrega no rosto e na alma as marcas de um tormento sem nome, de noites dramáticas sem sono, as sevícias e tratamentos degradantes. Testemunhei isso na Jamba. Em 1991.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Viagem ao baú das recordações
Agosto de 1993. Foto captada pelo meu saudoso companheiro da Longa Caminhada Joaquim Neves "Kito" ,após desembarcarmos do helicóptero durante a tomada da cidade do Cubal pelas FAA. Iniciava a ofensiva que culminaria em Novembro de 1994 com a entrada do exército na cidade do Huambo. Esta foto é emblemática e tem uma dedicatória do Kito na parte inferior direita que o tempo se vai encarregando de apagar, como tudo na vida: "ainda existem aqueles que navegam no oceano do seu suor e suas lágrimas".
Por isso não me venham contar "estórias" de momentos que eu próprio vivi. Para os meus amigos, prometo que o livro sairá. Quem pensar que pretendo fazer a apologia da guerra de heróis bonitos e inimigos feios, prepare-se para ficar defraudado. E que se juntem a eles os que esperam um panfleto. Talvez alguém se vá surpreender com algumas coisas. Os amigos que se dão ao trabalho de ler o que escrevo me merecem respeito e conhecem os valores que defendo. Não é agora que vou mudar, nem para tal teria razões que merecessem.
A morte do Kito "Cartucheira" deixou-me um vazio profundo. Era um verdadeiro camarada e sentirei sempre a sua falta.
Estamos juntos!
Durante as operações militares que se seguiram à destruição da barragem do Lomaum, no município do Cubal, província de Benguela, início dos anos 80. Na parte de trás do Allouette eu e o actual brigadeiro Dadá. Com a arma, o recém- malogrado Joaquim Neves (Kito), meu Cartucheira e companheiro da Longa Caminhada. E também o co-piloto Freitas. Bons camaradas. Homens valentes!
Geração valente!
Pilotos-aviadores de helicópteros da FAPA/DAA nos anos 80. Geração valente na defesa da Pátria amada. Lupire, Cangamba, Kuito-kuanavale, Mavinga, Mussende, Alto-Catumbela. Sempre presentes. Tony Gordo, Macuto Santos, Pires e tantos outros. Muitos desses bravos da foto não fazem mais parte do mundo dos vivos. Imberbes, foram tirados da escola. Partiram para o Negage e depois para a ex-URSS. Tombaram no cumprimento do dever sagrado. Não é apologia de nada, mas sinto um orgulho imenso de ter partilhado momentos da vida com alguns desses cavalheiros. Honra e Glória para os que deram o melhor de si por Angola!
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Joaquim Neves: «In Memoriam»
O malogrado Kito Neves "Cartucheira" fotografado pelo nosso inseparável Jean Charles no Huambo, um dia depois da tomada da cidade em Novembro de 1994 pelas FAA. Estão bem visíveis as marcas do cansaço da Longa Caminhada de um ano desde Caimbambo. Generais como Sousa, Matos, Armando, Nunda, Violência, Faceira, Sukissa, Kassoma, os oficiais e soldados das FAA conhecem o valor deste homem íntegro e generoso. Homenagem especial à nossa valorosa Vª Agrupação que nos recebeu no seu seio. "Aqui não há jornalista, cada um cava a sua trincheira". Não há mais palavras, companheiro.
« ...As pessoas pareciam incrédulas ao ver um civil desembarcar no Huambo. Olhavam-me como se fosse um extra-terrestre de cor esverdeada. Fui recebido pelo jornalista Joaquim Neves, correspondente da Agência de notícias Angop. Ele era uma das poucas pessoas que aparentava calma naquele clima turbulento. A cidade tinha sido bombardeada na véspera com foguetes BM-21 lançados a partir de uma rampa móvel (...) As pessoas pretendiam fugir aà todo o custo antes que acontecesse o pior(...) O Neves estava bem informado sobre o evoluir da situação e pontualizou.me como estavam as coisas no terreno(...) O resto veria depois com os meus próprios olhos(...) Partimos as 2h30 do dia 8 de Janeiro de 1999 da cidade do Huambo para Tchicala-Tcholoanga (...) Nessa madrugada chuvosa, no meio de milhares de soldados de um regimento das FAA chefiado pelo coronel Ngongo Yene, eu e o Joaquim Neves éramos os únicos repórteres num cenário que se estendia até aio Bailundo e Andulo, onde se travavam encarniçados combates desde o início de Dezembro de 1998.
(...) Envolvidos num alvoroço incrível começamos a atravessar a cidade entorpecida pelo medo(...) É um princípio incontornável na guerra: as colunas partem sempre pela madrugada, conmo se fosse este o momento supremo para um ritual satânico.
(...) Estávamos ali, por enquanto em carne e osso, diluídos na disforme massa bélica. Éramos dois repórteres sortudos, ou homens marcados para o derradeiro "click" da vida?
(...) Iniciamos a marcha barulhenta para Vila Nova. Tanquistas de semblante fechado fazem rugir os motores dos mastondontes pintados de um verde sinistro que se dilui na côr escura da noite. Feixes de luz projectados pelos faróis destapam os vultos sombrios dos artilheiros morbidamente instalados nas torres dos blindados ansiosos de ouvirem a estereofonia dos canhões . É um Regimento autêntico de uma guerra autêntica, insaciável como todas as guerras, imbecil e estúpida como todas as guerras.
(...) Assustada a cidade não dorme. Dentro da cabine do Unimog pressinto os olhares esbugalhados perscrutando atravès das frestas das janelas. Ouço o bater descompassado dos corações angustiados palpitando no medo e na ansiedade. Engolidos pela escuridão, as silhuetas dos edifícios esventrados por metralha de outras guerras assemelham-se a fastasmas notívagos amaldiçoando a nossa passagem. O ranger das lagartas dos tanques rompe o hímen do silêncio. No negrume da noite violentada, não mais o perfume da estufa calcorreando as escadas do vento, nem o leito de buganvílias floridas envolvendo amantes no húmus da terra fecunda. No ar, apenas o cheiro da guerra. Ela não está longe dali e está sedenta de sangue».
(Extractos das minhas Memórias de um Repórter de Guerra)
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Joaquim Neves António (Kito Neves) faleceu
Joaquim Neves António (Kito Neves). Meu cartucheira e companheiro da Longa Caminhada. Partiste para a grande viagem sem regresso. 1 ano de luta contra o cancer. 1 ano a resistir aos tentáculos do monstro silencioso. Foste tudo o que a vida pode dar como amizade, respeito e amor. Mostraste que a vida é sobretudo Amor. E Amor é partilha. Nada mais que isso! Foste o exemplo acabado de que ainda se pode viver com Dignidade.
Quarta-feira teremos a ingrata missão de te sepultar no Huambo.
Jornalista exemplar. Grande repórter da Angop. Companheiro das horas mais difíceis. Só as lágrimas teimosas por causa do egoísmo de te querer sempre ao meu lado.
Me perdoa Cartucheira !
Que a tua alma descanse em Paz companheiro!
Os grandes soldados da vida são como as estrelas. Nunca morrem. Perdem apenas um pouco da sua luminosidade, mas permanecem no firmamento como sentinelas vigilantes e nosso escudo protector.
Até a hora do Reencontro!
sábado, 11 de fevereiro de 2012
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
O regresso após a ausência
Após estar ausente durante algum tempo por razões académicas, nomeadamente a preparação da monografia do fim do curso de pós-graduação em Direito na Universidade Agostinho Neto, regresso ao convívio com os fiéis seguidores do nosso Blogue "Morro do Sombreiro". Peço sinceras desculpas, contudo, humanamente não existiu a possibilidade de manter uma presença regular, sem afectar o trabalho de investigação que tive de fazer para elaborar a proposta que já deu entrada na secretaria académica da Faculdade de Direito. Penso que até Fevereiro de 2012, tudo estará concluído, se Deus quiser.
Aproveitei a oportunidade de dois dias de folga para dar um pulo ao Huambo visitar o meu grande amigo e compadre Joaquim Neves António "Kito" que se encontra adoentado. Companheiro da longa caminhada de praticamente 30 anos, o Kito é o delegado da agência de notícias ANGOP no Huambo. Para ele votos de rápidas melhoras. Fiz o percurso de moto para aproveitar espairecer um pouco e ganhar fôlego para a nova etapa que se avizinha em 2012. Deixo então algumas fotos comentadas da viagem. Na foto um troço que estava a ser asfaltado entre o Balombo e a Caluita, a cerca de 100 quilómetros do Lobito. O "boneco" foi clicado amavelmente por um operário da empresa construtora da estrada.
Utilizei percursos diferentes na ida e volta. A ir rumei por Katengue e depois flecti para esquerda para apanhar a via da Ganda. Ao quilómetro 100, precisamente em Katengue, um importante nó rodoviário, não encontrei combustível no único posto de abastecimento existente (de reabilitação mais ou menos recente). Rodei mais 30 quilómetros e nos dois postos (de reabilitação e instalação mais ou menos recente) também não encontrei gasolina. É o país real, amigo. A solução foi recorrer à candonga para porosseguir viagem. Afinal, nada que não conhecessemos, somos daqui, vivemos aqui, não estamos autorizados a ficar no caminho com o tanque seco. O negócio informal de gasolina processa-se em condições de segurança precárias e com o perigo do produto estar adulterado, devido a ganância dos vendedores. As duas cerianças que aparecem na foto trabalham no posto improvisado. Restou-me alertar aos mais-velhos aque lá estavam, certamente familiares das meninas do perigo que ali espreita. Pareceram acatar os conselhos, todavia o mais provavel foi elas terem voltado a medir as canecas de gasolina, sem qualquer máscara ou luvas. Voltei a encontrar combustível na Ganda e finalmente na Caála. Ciom excepção de um pequeno troço de terra batida entre a Ganda e o Alto-Catumbela, encontrei excelente asfalto até à Caála.
No amanhecer de uma noite tranquila e fresca no Huambo de novo a estrada, pela Chipipa dos loengos e do famoso Alto-Hama. Paisagens espectaculares e asfalto impecável até ao Balombo, com um chuvisco a dar-me as boas-vindas. O bafo a terra molhada criou uma atmosfera fantástica no ambiente, o que me deleitou bastante. Depois no Monte-Belo, já com asfalto novo, fui ao mercado refrescar com um suculento abacaxi de 100,00 Kz. A seguir foi descer pela serra do Pundo, com as suas curvas e contra-curvas até ao Colango (no desvio da estrada para Luanda) e dali picar a máquina para o Lobito, com uma descida soberba pelo morro da Bela-Vista. Restaram os últimos 26 quilómetros de quase auto-estrada (ou via rápida como lhe chamam) até casa, em Benguela. Pulmões insuflados com o ar fresco das montanhas do Elongo, enfim, um novo ânimo.
Para todos os amigos endereço votos sinceros de Feliz Natal e de um Ano Novo de plenas realizações em 2012. Muito obrigado pela vossa presença.
ESTAMOS JUNTOS !!!
sábado, 17 de setembro de 2011
Minha aparição no "Semana em Actualidade" da TPA
Tive a honra e o prazer de participar como convidado no programa "Semana em Actualidade" da TPA, transmitido ao Domingo, num debate com o Reginaldo Silva, o mais conceituado jornalista angolano. Durante 30 minutos, com a moderação de Antunes Guanje, passamos em análise assuntos quentes como as manifestações em Luanda e suas consequências, e a polémica em torno do 8 de Setembro, celebrado unicamente em Angola como "Dia Internacional do Jornalista".
Reginaldo esteve igual a si proprio. Inteligente, frontal, mas sobretudo um cavalheiro a usar a palavra na defesa dos seus pontos de vista, o que tornou a minha primeira experiência em debate televisivo num momento particularmente interessante e grato. Durante o tempo em que intervi, procurei sustentar as minhas posições com coerência e sentido de responsabilidade como jornalista, jurista e sobretudo como angolano, preocupado com os destinos da sua Pátria.
Fui para diante das câmaras da TPA, sabendo de antemão que determinadas pessoas não suportam "realismo em excesso". E, como sempre, coleccionei uma legião de admiradores e alguns "inimigos de estimação", para não variar. Quem viu e ouviu que tire as suas conclusões.
Fui para diante das câmaras da TPA, sabendo de antemão que determinadas pessoas não suportam "realismo em excesso". E, como sempre, coleccionei uma legião de admiradores e alguns "inimigos de estimação", para não variar. Quem viu e ouviu que tire as suas conclusões.
sexta-feira, 10 de junho de 2011
Agradecimento aos colegas do curso de Pós-Graduação
Aproveitamos um Sábado para posar para a posteridade com a Profª Jacqueline Weaver oriunda especialmente da Universidade de Houston (Texas) para ministrar o módulo de "Política Energética e Desenvolvimento Sustentável".
Culminou o primeiro trimestre do curso de Pós-graduação em Direito do Petróleo e do Gás na Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto em parceria com a BP-Angola, com a realização do respectivo exame; No início de Junho arrancou o segundo trimestre. Nesta oportunidade desejo manifestar sinceros agradecimentos aos colegas, professores, a todo o staff e ao Ex.mo Decano da FDUAN Dr. Raul Araújo, pelos conselhos quanto a importância do curso para o país, visto ser único neste nível de especialidade no continente africano.
Claro que não teria sentido exprimir a minha gratidão publicamente, se não fosse a particularidade de, no grupo, eu ser o único estudante oriundo da província. Os restantes vivem e trabalham em Luanda. Agora e ao longo dos primeiros (e mais difíceis) meses tenho sentido o carinho e estima de todos que abraçaram este projecto académico. Simples palavras, sorrisos sinceros e não só, têm servido de alento para vencer as inúmeras dificuldades que tenho encontrado. De avião, de automóvel ou de moto, praticamente todas as semanas tenho de vencer mais de 1.200 kms para assistir às aulas de Segunda à Sexta-feira, procurando não defraudar as expectativas quanto à minha prestação profissional e não deixar deficitária a caderneta dos deveres e obrigações de chefe de família.
Algo forte e interior me tem impulsionado a continuar, mesmo quando parecem faltar as forças. Embora já não espere muita coisa desta vida tenho perfeita noção que os saborosos e merecidos frutos se colhem à luz do Dia, contudo as sementes se plantam e regam de Noite.
Gostaria de ressaltar o apoio prestimoso dos colegas Drs. Carlos Grandão, Afonso, Abelina, Daniel, Engº Elisabeth e demais. Igualmente ao digno PCA das Edições Novembro-EP José Ribeiro, aos administradores Eduardo Minvu e Santos Júnior, bem como à Rádio Difusão Nacional de Angola e à Rádio Benguela e à minha amada família.
E, claro está, um kandandu à todos os amigos que se dão ao trabalho de abandonarem os seus afazeres para me honrarem com uma presença segura no nosso "blogue".
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Decidi retirar a queixa contra o sr. José Patrocínio da Omunga
Informo aos amigos e opinião pública que decidi retirar a queixa-crime por difamação contra o sr. José Patrocínio, coordenador da ONG Omunga, sedeada na cidade do Lobito e que corria os seus trâmites na instância competente. A entidade forense que lida com o caso por minha parte na condição de ofendido, foi orientada no sentido de renunciar ao procedimento criminal na queixa apresentada o ano passado (2010) nos termos do Código do Processo Penal Angolano, na sequência de declarações proferidas pelo sr. Patrocínio durante uma entrevista na Rádio Benguela, em relação à minha pessoa e que foram aferidas como ofensivas a direitos tutelados por lei.
Trata-se de uma decisão pessoal que responde unicamente a imperativos de índole pessoal. Pretendo simplesmente demonstrar que, embora me tenha sentido ofendido no bom nome e de ter a possibilidade de fazer valer o direito de tutela desses bens por parte da lei do nosso país, considero-me perfeitamente maduro como homem, para considerar o evento como acidente de percurso no longo processo de aprendizagem das habilidades políticas necessárias para lidarmos pacificamente com fenómenos como a tolerância nos debates democráticos e pluralistas, que as pessoas de bem querem fazer vingar em Angola.
Felizmente nesta vida vamos aprendendo com os erros. Os nossos e os dos outros. Creio que seria bom que os angolanos pudessem ter sempre a possibilidade de, por motu próprio, sacrificarem um pouco de si em troca de um bem maior, como o respeito pelos demais e a harmonia com os demais, mesmo quando não concordamos com as suas opiniões. Sinto-me reconfortado de poder aproveitar essa alternativa. Falo de vivermos sem rancores ou ressentimentos pelo passado que nos marcou de forma mais ou menos dolorosa e darmos, enfim, um sentido mais positivo às nossas vidas. Concordo que, no caso em apreço, temos essa possibilidade, salvo outros desenvolvimentos.
Luanda, 28 de Abril de 2011.
Jaime V. Azulay
"O Padrinho", para rever no telão
Vou sentar-me no sofá e rever a terceira e última parte da saga "O Padrinho" de Mário Puzzo e do inigualável realizador Francis Ford Coppola, iniciada com a marca imortal de Marlon Brando, quanto a mim o maior artista (não é actor, é artista mesmo) que eu já vi na tela. Ou provavelmente assista mesmo em pé, como um poste no meio da sala, para não correr o risco de adormecer fastidiado por conhecer de côr e salteado o enredo do filme.
A trama chega ao fim com o genial Al Pacino nas vestes do patriarca Corleone, o mafioso dos mafiosos. Debilitado e diabético, Corleone tenta agora arrumar a vida direito, mas vai desconseguindo porque os demónios andam à solta e ele dá conta disso. Chega a confessar-se ao cardeal futuro Papa, revela ter cometido monstruosidades, contudo não mostra nenhum arrependimento.
Por acaso já assiti a história. Como numa tempestade, as traições sucedem-se à velocidade de um raio. Dá-se a ascenção de Vicent, seu sobrinho, filho do irmão que ele próprio mandou matar. Vicent chega a namorar a prima, donzela com inigualáveis atributos de generosa ternura. Mas a sede de poder obriga-o a acatar sem rebuço a ordem do tio. " -Rapaz, deixa a menina em paz e eu te dou todo poder". E assim o sobrinho renuncia ao amor platónico. Engole sofregamente o letal veneno, sem dar conta que estava a selar um pacto com o diabo.
Acto contínuo, Vicent se transforma meteoricamente no poderoso Don Vicenzo Corleone e a dinastia mafiosa segue garantida. Tudo se desenrola no meio de um rosário de assassinatos que atinge a prima amorosa de Vicent. Enquanto isso, Don Altobello dorme o sono do decesso no requintado camarote do teatro, enquanto assistia a uma ópera siciliana e deglutia biscoitos envenenados. O vendaval está no auge. Nem o Papa recém empossado se consegue safar. Também morre no seu quarto no Vaticano, após ingerir uma taça de chá adoçado com cianeto.
Na máfia é assim, quem entra, não sai quando lhe apetece, sentenciou irado D. Corleone, tentando justificar a purga. Como numa cadeia de predadores, na máfia, uns vão comendo aqueles que os precedem antes de serem comidos por aqueles que os seguem.
Ainda bem que o filme não é connosco. UFA!!!
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Auto-Retrato: Memórias de Um Tempo Que Não Apaga
JAIME VICTORINO AZULAY. Este é o meu nome completo. O presente texto foi escrito por ocasião da minha participação, no mês de Abril, no programa de entrevistas "Café da Manhã" da rádio LAC, dirigida pelo Zé Rodrigues, em 95.5 Mhz. Deixo um auto-retrato para os amigos que desejam conhecer algo de mim, na visão do próprio: quem não sabe de onde vem, jamais saberá para onde vai. Tenho dito:
Nasci no dia 29 de Maio de 1961 no bairro do Inconcon, próximo do mar, na cidade de Novo Redondo, hoje Sumbe. Curiosamente, a minha terra também foi chamada de cidade de Ngunza-Kabolo e depois, simplesmente de Ngunza. Até hoje ninguém conseguiu explicar as razões das constantes trocas de nome, mas certamente deve ter havido muito trabalho para o pessoal da cartografia e cadastro. Nós sempre fomos chamados de Camussumbes, ou seja, os do Sumbe. Assim nos consideramos desde os tempos. Os mais velhos asseguraram que estamos protegidos dos espíritos malignos pelas divindades do rio Cambongo, que atravessa a cidade. Do leito do rio bebemos a água barrenta e comemos cacussos e bagres pescados no lodo do zunguê. Sou Jornalista profissional e Licenciado em Direito.Frequento presentemente um curso de pós-graduação em Direito do Petróleo e do Gás na Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, em Luanda.
Ao longo da carreira como repórter, fui galardoado com alguns prémios: o de Jornalista do Ano na Província de Benguela, Jornalista do Ano da rádio LAC, o Prémio Maboque de Jornalismo e o Prémio Nacional de Jornalismo. Foram momentos felizes dos quais guardo gratas recordacões; frisar a contra-partida financeira, com a qual endireitei momentaneamente a espinha quanto à dívidas e quejandos. Alguns mal-intencionados chegaram a chamar-me jornalista rico. Uma vez, a minha velha amiga quitandeira de verduras subiu o preço do tomate e da cebola mesmo à porta de casa, porque "tinha ouvido no rádio, o mano recebeu dinheiro no prémio do jornalista". No entanto,sossego-vos, caros amigos, tais montantes em nada influenciaram a pessoa que me considero, em essência. Habituei a não reclamar nada acima do pedaço de pão para sustentar a familia. Receio que a vida já me tenha brindado com mais do que honestamente mereço. O meu padrinho, António Martins de Matos, desde pequeno me ensinou um dos mais valiosos segredos da vida: para ter dinheiro é preciso saber ter dinheiro. A apetência desmedida pelo dinheiro destrói as qualidades boas do Homem, porque o torna escravo daquilo que possui e o corrompe irremediavelmente, pelo poder perverso que lhe dá sobre os outros homens.
Iniciei no Jornalismo na Angop em 1980. Trabalhei no Jornal Desportivo Militar (JDM). Fui correspondente em Angola do Jornal de notícias de Portugal (JN), correspondente do serviço português da Voz da América. Trabalhei para a agência Lusa, publiquei reportagens na RPT, TPA, RNA, Semanário Angolense e outros.
Basicamente, reconheço-me como um apaixonado da vida. Procuro estar de bem com ela, tirando o que existe de melhor, ou seja, a liberdade de ser eu próprio, em comunhão com os demais. Há pouco tempo levei um tombo de moto, logo vieram os premonitores da desgraça alheia, reclamando a sua coroa e os louros:" Não te avisei?". Ninguém tem de me avisar de nada, naquilo que à minha esfera estritamente pessoal diz respeito, principalmente no que toca a minha opção sagrada pela moto. Quando vou para a estrada, desligo de todos os problemas da cidade e procuro diluir-me simplesmente nas paisagens por onde passo. O sussurro da mota é a minha sinfonia divina. Quanto a cair ou não cair, isso nunca está em causa, para quem gosta das duas rodas. Apenas me preocupa quando e onde isso acontecerá. E procurar não sair muito machucado do tombo.
A mais surpreendente definição da minha pessoa foi-me dada inadvertidamente pela Paula Simons. Um dia ela disse: “ Jaime, tenho inveja de ti. Fazes o que mais gostas e ainda te pagam por cima”. A Paula tinha razão. Ser feliz interiormente, resume-se a isso, quanto a mim. Não mordo a mão do patrão que me paga o ordenado, mas não aceito assumir o papel do tronco do sândalo, que perfuma o machado que o fere. Tal como A. Cury, dei conta que enfileirei entre os anónimos da sociedade, que compreendem que a existência nada é, senão um grande contrato de risco, em cujas cláusulas, o drama e a comédia, as perdas e os ganhos, o deserto e o oásis, são privilégios exclusivos dos vivos.
Provavelmente seria desnecessário dizê-lo: o que se segue não é, nem pretende ser, um martirizado discurso de auto-contemplação, muito menos um aparvalhado convite para o faustoso manjar dos eleitos, que esses, estão destinados a próprios merecimentos. Nem se trata de um pálido grito a esganiçar no clamor dos deserdados pela dinâmica precária do processo; dos que foram, compulsivamente, projectados para fora da carruagem. Para estes homens, a História um dia fará justiça. Tampouco pretendo reclamar louros e honras que pertencem aos grandes generais, das grandes batalhas. O que aqui segue, são simplesmente retalhos de uma vida intensa e apaixonadamente vivida. São respigos da Longa Caminhada, que continua o seu curso e percurso. Vida muitas vezes dura, contudo gratificante, por tudo que Deus me deu e luto para preservar, como tesouros únicos: vida, família, amigos e uma Pátria, a cujo povo generoso pertenço.
Em casa chamam-me Nino, nome dado pela minha madrinha Carocha, já falecida. Sou filho de D. Teresa Azulay “Candinda” e neto de Jaime Azulay. O meu bisavô também se chamava Jaime Azulay e tinha sangue israelense. Tenho um filho que se chama Jaime Azulay e o nome também foi dado ao meu neto. Tenho vários primos e sobrinhos que também se chamam Jaime Azulay. É o nosso legado mais importante. Penso que vai perpetuar-se assim na nossa familia. O nome e a honra, como brasão.
Sempre vivi no bairro. Fui criado pela minha mãe, praticamente não conheci o meu pai. Passei a infância em Novo Redondo, no tempo em que as feridas se curavam com pedra-uma e o brututu e a barba de milho eram remédio santo para a briosa. Sofremos a demolição da casa construída pelo avô Jaime e, no seu lugar, foi erguida a bela catedral do Sumbe, no alto da colina, com vista para o recorte do mar, no horizonte. Quanto à casa que a Câmara prometera em seu lugar, não passou mesmo de promessa do barrigudo do Sr. Rodrigues, a quem um dia, a minha mãe, já farta de tantas aldrabices, o chamou de matarruano. O senhor Rodrigues barrigudo virou bicho e retaliou desproporcionadamente. Restou-nos rumar para a mbumba, um bairro que acabava de nascer nas montanhas, nos arredores do campo de tiros-aos-pombos. Todo mundo foi mobilizado para trabalhar na construção da nossa casa de pão à pique, com cobertura de capim. Desbravámos o matagal de gimbulo e matámos cobras, lagartos e outros bichos. Estavam na mbumba outras familias, com as quais partilhávamos as privações e as alegrias, como a família da Dona Teresa Onofre. Não tinhamos, nem água nem luz. Percorriamos distâncias longas para acarretar água que corria montanha abaixo, quando o pessoal da limpeza da câmara fazia a descarga dos tanques que abasteciam as casas da cidade do asfalto.
Eu e o meu irmão Nelito partilhávamos os quedes e a única camisa têvê que as parcas posses da mãe permitiu comprar. Eu chegava da escola às 12h30. Mamãe lavava a camisa e 30 minutos depois o meu irmão descia a montanha assobiando melodias do Roberto Carlos, rumo à escola, com a mesma camisa têvê e os mesmos quedes brancos. A nossa infância foi dura, mas alegre. Faziamos traquinices no rio Cambongo, as kápias no zunguê, os amigos que nunca mais se esquecem, Barão, Kinguy, Zezito, Didi, Domingos Sousa, Carol, Tininho. Estudei com atestado de pobreza, autenticado com o selo branco na administração do concelho, por absoluta falta de alternativa.
Em 1969 fomos viver para Benguela. A minha mãe decidiu ficar ao lado das irmãs que estavam em Benguela, a tia Luna e a tia Antónia. 10 anos antes o meu avô Jaime falecera na cadeia, enquanto cumpria pena, remível de uma multa de uns tantos angolares que não conseguiu em prazo. Foi condenado depois da denúncia que continuava a exercer funções forenses com a carta de solicitador caducada. A dita carta demorava uma eternidade a vir do gabinete do ministro da Justiça em Lisboa. Para sustentar a família, o meu avô batia alguns requerimentos à máquina e deu conselhos jurídicos a algumas pessoas que o procuraram, mas nunca foi às barras do tribunal exercer, como antes o fazia. Já o tinham debaixo de olho, por ter espirito e convicções rebeldes. Entre os que o procuraram, estava um diabo delator. Aproveitaram a oportunidade para lhe baixarem o pau. Contudo, ele não desistiu de lutar, a fim de conseguir provar que tinha sido alvo de um complot tecido por um advogado português, seu rival e concorrente nas lides judiciais. Há alguns anos recebi, por mão amiga, um importante documento que se encontrava na Torre do Tombo, uma carta escrita e assinada por ele, endereçada ao ministro da Justica de Portugal, a reclamar da sua detenção arbitrária e a exigir direitos que eram vedados aos nativos. A carta é datada de 1955. O meu avô era um homem culto e com elevado sentido de justiça. Conversei com várias pessoas que o conheceram pessoalmente.
A nossa viagem de automóvel para Benguela foi a bordo de uma carreira da Emutral. Rolámos num tapete asfáltico novo até ao Lobito. Depois seguimos de comboio para Benguela, no meio do canavial da Kassequel. Sentia-se no ar o cheiro do bagaço da cana-de-açúcar a ser triturada nos engenhos da fábrica da Catunbela. Pouca-terra, pouca-terra. A locomotiva rebocava a composição com uma força hercúlea e atirava nuvens de vapor branco para a atmosfera. Era uma das lendárias locomotivas "Garratt", que fizeram história no CFB. Foi uma viagem fantástica. Foi a primeira vez na vida que vi o comboio.
No dia 25 de Abril de 1974, sopraram em Angola os ventos da revolução dos cravos de Portugal. Na altura, eu estava a concluir o segundo ano do ciclo preparatório do ensino secundário. Repentinamente, as pessoas começaram a demonstrar comportamentos diferentes e a falar coisas que nunca ousaram falar em público, tal como independência para Angola. Era a revolução a romper a mornez histórica de esperas e de lentidão. As árvores começaram a ser arrancadas pela raiz. Tudo se precipitava num rodopio para esmagar o inimigo colonialista contra a terra pura, para que a secular maldade das suas vísceras ficasse plantada nas profundezas.
Participei nas primeiras manifestações estudantis. Assinei, por vontade própria da idade, o cartão de ingresso na geração da utopia . Seguiram-se as aulas politicas e os infindáveis debates com outros jovens e fervorosos revolucionários, gente há pouco desmamada. Alguns já liam, à sua maneira claro, Vladmir Lenine, Karl Marx e os poemas de Neto. A escolha entre o capitalismo e o socialismo não confundia ninguém. Tudo era tão linear e tão fácil, no meio do fervor revolucionário. Convidava-se para discutir politica como se convida um amigo para uma partida de xadrez. A revolução Popular triunfa e os nossos heróis serão vingados, repetiamos até à exaustão.
Lembrarei sempre o juramento de bandeira no CIR Sangue do Povo na Gabela. Os esquadrões kwenha e Ngunza Kabolo, os combatentes garbosamente perfilados, uns com boinas azuis dos comandos e outros com boinas pretas da infantaria. Apesar de garoto, sentia que deveria estar entre aqueles homens prontos a baterem-se por Angola contra o inimigo. A revolução chama e quando isso acontece é preciso levar avante o facho aceso. O ingresso no MPLA deu-se em 1975, na delegação do Sumbe, chefiada pelo comandante Mbeto Traça. A vida na Delegação era diferente de tudo que vira antes. O monta-desmonta das pepechás, efebepés, estrelings, gegés (G3), e outros artefactos bélicos, como as traiçoeiras granadas de pau, herdadas dos arsenais da Wermarcht de Hitler. Tal como as enormes mausers desaconselhadas para nós que estavamos a iniciar, por causa do potente coice da coronha. Uma manhã, após recebermos os uniformes cruzei no quintal com o Zezito, meu companheiro desde a cabunga até a secundária. O Zezito também estava fardado e calçava umas botas enormes. Olhamo-nos matreiramente e batemos continência:-" Bom dia camarada Dipanda", bramiu o Zezito. Eu respondi com voz firme:-"Sim! Aceito camarada Granada". Assim nos passamos a tratar. Cada combatente tem de escolher o seu nome de guerra, é a primeira coisa que se aprende na revolução. Dipanda era a independência, cuja data se aproximava. Liamos o jornal VC, Victória é Certa e ouviamos as músicas revolucionárias do Urbano de Castro, David Zé e Santocas.
Consequência dos acordos de Alvor, foi constituída a ronda mista, patrulhas que incluíam soldados dos três movimentos de libertação e do exército português. Os incidentes sucediam-se e a espiral começava a ficar incontrolável. Num sábado, estalaram os primeiros confrontos contra o ELNA, o exército da FNLA. As armas e granadas feriram pela primeira vez os ouvidos dos camussumbes. A igreja conseguiria negociar um frágil cessar fogo. Todos os movimentos falaram na rádio Kwanza-Sul, atravès dos porta-vozes. O comandante, Joãozinho “Morte”, comandante do Esquadrão Kwenha, também falou : “-O nosso povo deve continuar vigilante, a luta continua e a vitoria é certa". De facto, a guerra reataria poucos dias mais tarde, com os combatentes do MPLA a sairem vitoriosos.
Custa-me tanto explicar o estardalhaço que se gerou com a ida da minha mãe à delegação a fim de buscar-me com um puxão de orelhas, por ter fugido de casa. “- Não entreguem armas ao meu filho, ele é uma criança”. Não, ele não é criança, ja é um camarada do MPLA. O Gangula também era pioneiro e deu a vida para proteger dos tugas a base do movimento, disse um camarada combatente. A minha inconsolada e incrédula mãe quase desmaiou ao me ver com uma simonov com baioneta nas mãos. Lamento tanto o mal que lhe causei naqueles dias complicados e depois disso, tudo por causa da revolução. Um dia, em 1991, eu e os meus irmãos Nelito e Yaya fomos sepultar a nossa mãe no cemitério do Calundo, em Benguela. Ela foi tudo o que de melhor tive na vida. Nada nem ninguém consegue preencher o vazio que ela me deixou.
Novembro de 1975. Começa o verdadeiro pandemónio. Entre os dias 5 e 6 chega a Novo Redondo o pessoal oriundo de Benguela e doutras paragens do Sul. Uma massa heterogénea agindo quase sem comando. Combatentes cacimbados à mistura com a fandanga miliciana da Resistência Popular Generalizada decretada pelo Manguxi. A Bela Russa, intrépida guerrilheira de cabelos cor de fogo, por cima do BTR com a kalash em punho. Era o recuo, face ao avanço dos sul-africanos. A chegada do Gaudêncio com a noticia da morte do meu primo Jaime Bragança trouxe incontida comoçao na familia. O seu irmão Herminio se encontrava internado no hospital militar devido aos ferimentos recebidos durante a batalha de Katengue. O Herminio viria a sucumbir no hospital em Luanda, quanto ao Gaudêncio, morreria depois no fraccionismo.
O calendário marcou finalmente o dia 11 de Novembro. Em Novo Redondo, a atmosfera era indescritível, com os combates praticamente às portas da cidade. Mesmo assim, surgiram os incontrolados festejos pela independência. Fizemos rajadas de tiros tracejantes para o ar. Nesses dias tive um acidente com uma mini-Honda recuperada num armazém abandonado. Agora éramos donos das nossas riquezas. Para vincar isso, bastava apenas pegar as coisas deixadas às pressas, pelos assustados colonos opressores. A chegada dos cubanos, los companeros, enviados por Fidel Castro, a pedido do presidente Neto. O recuo para Porto Amboim, no dia 12 de Novembro de 1975. O comandante Kassanji com o mona-caxito de um cano, a fazer fogo a partir do mercado municipal de Novo Redondo. Saímos para o Chingo e dali para Porto Amboim. Kassanji desapareceria sem deixar rasto. O mistério continua até hoje. O que terá acontecido de facto a este jovem comandante do MPLA? Alguém, um dia, vai explicar a verdadeira história do dersaparecimento de Herculano Delfino Kassanji.
Duas semanas mais tarde a ida para Luanda e o agravamento dos ferimentos na perna direita. Luanda, em finais de Novembro de 1975, era diferente do postal que tinha gravado na minha memória. Reinava uma certa calma depois das duras batalhas de Kifangondo. Todos os dias desembarcava-se armamento que, de imediato, seguia para as frentes de combate com os militares cubanos.
Duas semanas mais tarde a ida para Luanda e o agravamento dos ferimentos na perna direita. Luanda, em finais de Novembro de 1975, era diferente do postal que tinha gravado na minha memória. Reinava uma certa calma depois das duras batalhas de Kifangondo. Todos os dias desembarcava-se armamento que, de imediato, seguia para as frentes de combate com os militares cubanos.
O regresso à Benguela em Fevereiro de 1976. O reecontro com os livros, a escola e um temporário adeus às armas. Novos amigos, novas experiências. Mas a revolução, essa continua. A campanha do café na Chicuma e na Babaera. As revoltas dos estudantes devido as más condições. A revolução exige sacrifício e os revolucionários devem ser puros, porque defendem o povo dos tiranos opressores.
O primeiro emprego em 1977 no Comércio Interno e o ingresso na Angop em 1980. Nasceu a paixão pelo jornalismo. A Angop em 1980. Os chefes e os jornalistas. O Nazaré Van-Dúnem, Rui Vasco, Kito Neves, Eduardo Beny, Graça Campos, Joseph Mputo, Siona Casimiro, João Melo, Mena Abrantes, Raimundo Sotto-Maior. O JDM. Ângelo Silva, Gustavo Costa, Muanamosi Matumona, Policarpo da Rosa, Luís Fernando. O inesquecível Pires Ferreira e a contagiante irreverência do Osvaldo Gonçalves.
O reingresso na vida militar em 1983. As operacões na Chicuma, a seguir ao rapto dos checoslovacos no Alto Catumbela. Camuine, Balombo, Bocoio, Kibala e Canjala. O comissário provincial Kundi Payhama, personagem com traços interessantíssimos, presidente do Conselho Militar da 7ª Região, uma pessoa de personalidade vincada, que muitos consideravam ser pura arrogância. "Kuenda kolume ongombe". O verdadeiro homem deve ser altivo e deixar a sua marca no chão, como o fazem os verdadeiros touros. Jamais se deve chegar ao ponto de confundir um homem, nem com passarinho nem com lagartixa. Kundi aparentava ser um líder carismático na sua franja etno-linguística e esse poder ia muito além dela; fazia por merecer o mito que girava em seu redor. Cultivava um sentido de justiça baseado na tradição dos povos pastores do Sul e entendia a guerra com o mesmo fervor guerreiro dos Kwanhamas. Das vezes que estive com o batalhão "Onças da Montanha" trazido do Cunene pelo próprio Kundi Payhama, reparei que nunca saiam para uma missão de combate sem antes entoarem os cantos guerreiros, herdados dos seus antepassados, como o rei Ndemufayo Mandume. Para eles, Kundi simbolizava o legado indómito dos Kwanhamas, por isso seguiam-no de armas aperradas para onde quer que fosse.
O Acordo de Bicesse de 1991. A aventura da Paz, os a primeira viagem de moto com o Rui Iglesias, de Benguela para Luanda. A guarda presidencial travou-nos próximo do Futungo de Belas. Foi preciso explicar tudo direitinho para acreditarem que estávamos, de facto, a festejar a Paz. Depois riram-se e nos desejaram boa viagem.
As eleições em 1992. Os angolanos sentiram-se defraudados, afinal foi apenas uma mini-paz e não a paz verdadeira. Afinal, as eleições só são justas quando você ganha. Afinal, numa cadeira não se podem sentar dois sobas simultâneamente e, afinal, por esta elementar razão eclodiram novamente os confrontos armados. O nosso grupo de defesa formado numa noite. O ferimento em combate em Janeiro de 1993 em Benguela e os cuidados médicos proporcionado pelas madres.
O trabalho como repórter de guerra. O encontro com alguns correspondentes estrangeiros, Jean Charles e Marco Vercruysse. Kito Neves, o cartucheira, velho companheiro e amigo de toda a vida. Por capricho do destino tive a sorte de, em algumas ocasiões, ser o único jornalista a testemunhar eventos marcantes da história recente de Angola. As reportagens nos locais onde a guerra fazia a sua morada. Janeiro de 1999. Vila Nova e Tchiumbo e os Hércules da ONU nos quais morreram pai e filho, o drama da família Wilkinson. O jornalista no cenário da guerra. A fase do deslumbre face as acções militares. Repórter sortudo ou o derradeiro “click” da vida? Aqui o filme acontece a sério. A guerra não come pão, camaradas! Andulo, 18 de Outubro de 1999. A partida do Huambo. O general Miguel Ângelo Vietnam despede-se de nós, no aeroporto Albano Machado. Mais tarde, a cobertura do passeio triunfal com tanques pelas ruas do Andulo. As minas anti-tanque no vale do rio Membia. A derradeira entrevista com o general Simione Mucune. O almoço na casa que pertencera ao Dr. Savimbi e o encontro com o general Nguto vindo de Calussinga. A apresentação da reportagem na TPA no noticiário das 20 h com uma camisola do director Fernando Cunha e a barba feita às pressas no wc do gabinete. O reencontro com o Carlos Henriques, velho repórter do Opção KK dos anos 80, com o qual estive no Alto Catumbela naqueles anos dificeis. Os seus preciosos conselhos até hoje me calam fundo. Senti muito a sua morte, algum tempo mais tarde. Era um homem de uma simplicidade extrema e excelente profissional.
A morte do general Simione Mucune dois dias depois da minha saída do Andulo. Simione, exemplo acabado de bravura dos que mudaram, com o sacrifício supremo do seu sangue, a história de Angola. O anúncio a partir da base da Catumbela, feito pelo general Joao de Matos e gravado por mim. Os funerais do general Simione passaram-se no cemitério do Alto das Cruzes em Luanda, debaixo de uma indescritivel atmosfera de comoção. O semblante carregado do presidente José Eduardo dos Santos e da primeira dama da República D. Ana Paula dos Santos, na cerimónia fúnebre.Os gritos lancinantes da viúva removendo os nossos corações destroçados. Simione estava morto. Enquanto o general Zé Maria lia o elogio, a banda das Forças Armadas interpretava a marcha fúnebre de Frederich Chopin.
A ideia de escrever um livro de memórias. A minha mensagem é um NÃO rotundo à apologia da guerra. Os que mais desejam a PAZ são aqueles que sofreram na carne e no espírito os efeitos da guerra maldita.
Os problemas actuais do nosso pais. O que mais nos preocupa enquanto cidadãos. A democracia. Os direitos fundamentais do cidadão. A assimetrias regionais e as desigualdades sociais. A função da comunicação social na luta por uma Angola melhor. A situação na província de Benguela e outros mambos. Coisas nossas.
domingo, 28 de novembro de 2010
Um Acordeao em Lisboa (rep)
Recomendo uma versão do Libertango de Astor Piazzola
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Do mesmo modo como sucede com todas as capitais do mundo, Lisboa não consegue esconder os seus contrastes. Para o estranho visitante vindo das lonjuras de Africa, deambular pelo formigueiro lisboeta, é provar a sequência de um cocktail de sabores doces e amargos. Num repente arregalamos os olhos de curiosidade, noutra ocasião escancaramos a boca com perplexa indignação, mas logo a seguir refeitos da surpresa sentimos os lábios rasgarem-se num sorriso de ingénua complacência.
Encontramos a Lisboa da frieza do vidro e dos cogumelos de concreto a tentarem tocar o céu. Aqui não se sabe onde mora o sol e os espelhos das vitrinas não nos devolvem os sorrisos que ofertamos. Nas fachadas dos edifícios os reclames luminosos digladiam-se com o furor dos relâmpagos apocalípticos: “compra-me, compra-me! Sou mais forte do que aquele e mais barato que aqueloutro”! Mas como nao podia deixar de ser existe sempre um vagido Humano gritando liberdade na gélida floresta de concreto
Certo dia, navegava perdido neste mar cosmopolita, quando, repentinamente, me vi aportado numa ilhota singela que o destino fez chegar até mim sob a forma de inebriantes notas musicais. O som vinha das entranhas de um acordeão que as mãos calosas de um velho cego faziam contorcer num canto do metropolitano de Lisboa. Estava em Entrecampos.
Era hora de ponta. As hordas humanas fluíam aos magotes como carne empacotada, a subir e a descer das carruagens do metro, alheias aos gemidos suplicantes do artista solitário. Esporadicamente, uma mão apressada soltava uma moeda que ia anichar-se num pequeno prato que o músico tinha diante de si.
Fui tragado pelo sublime chamamento, como acontece no mar aos marinheiros que ouvem o canto das sereias. Aproximei-me lentamente do velho. Ele tinha um rosto bexigoso e arredondado. Dos seus lábios irrequietos, pendia, displicente, uma beata de cigarro embebida em saliva escura. A sua figura divina diluía-se numa auréola de inquietante genialidade. Era como se dele não emanasse, sequer, um sopro de mortalidade, apenas espírito sereno vagando na imensidão.
Ao vê-lo tactear o acordeão, vislumbrei a fragilidade da existência terrena a exaurir-se, sem glórias nem honras, nas teias do egoísmo desmesurado e da petulante hipocrisia. Ali, naquele instante crucial, desenhava-se a nossa angustiante encruzilhada: A vida seria ainda um sonho virgem sonhado no regaço do universo infinito, ou já a tormenta do cosmos prostituído pelos foguetes espaciais? Ou talvez fosse simultaneamente tudo e nada, massa confusa de ódio e amor, lealdade e traição indissolúveis?
A música serpenteava no túnel em vagas sucessivas, como as ondas do mar, buscando com ansiedade a essência dos seres e das coisas. Fundia-se no útero da terra ao magma dos vulcões adormecidos que aguardam apenas o sublime instante da majestosa erupção.
O fole do acordeão vibrava em cadência ora branda ora intensa, até atingir o limite virtuoso de um orgasmo sem fronteiras, o vulcão expelindo a pujante lava cor-de-fogo escorrendo pelas coxas da montanha verdejante.
Da garganta do velho gotejavam sussurros que se iam ajustando, mansamente, à voz piedosa do acordeão. As notas musicais rodopiavam na partitura da virtude humilhada, do mesmo modo como rolam pela face dos amantes as lágrimas salgadas do amor perdido numa qualquer esquina da vida.
Por instantes, a música ameaçava naufragar no oceano revolto da arrebatadora paixão, mas logo retornava feita espuma nostálgica atirada às praias da impossível renúncia.
As notas graves exilavam-se resignadas, numa toada repetitiva, cadenciada no compasso das inalações sôfregas do fole, enquanto os dedos da mão direita cavalgavam as teclas como fogosos corcéis galopando livremente pelas anharas da melancolia. E de novo bramia o canto da dor indizível balançando na perfídia do mar escuro, e outra vez a harmonia branda a cobrir a areia fina do amor inocente, sem mágoas nem prantos.
Quando finalmente se extinguiram os acordes da sinfonia divina, o velho cego ergueu ligeiramente a cabeça. Escondido sob o feltro do chapéu seboso, o seu semblante mágico banhava-se num indescritível lago de serenidade.
Foi numa manhã fria de Inverno, que vi em Lisboa essa estrela fugaz riscando no céu o Hino do Amor, enquanto na terra, toldados com o fumo das armas, os mortais faziam tilintar as suas grilhetas.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
No Juri do Premio Maboque de Jornalismo 2011
Informo aos amigos e a todos os estimados seguidores do "Morro do Sombreiro" que decidi aceitar o convite do Grupo Cesar & Filhos para integrar o Juri que vai escolher os vencedores do Premio Maboque de Jornalismo 2011. O Premio e entregue todos os anos no dia 8 de Setembro. O vencedor de 2010 foi o jornalista Jose Rodrigues da Radio Lac, que recebeu o montante de USD 100.000,00 (Cem Mil dolares americanos).
O facto de ja ter sido vencedor do referido galardao em 2000, conhecendo a sua importancia catalizadora para a superacao dos nossos profissionais e o que pode representar para a vida dos contemplados nas varias categorias ( O premio principal e o de 100.000,00 dolares mas existem outros nada despreziveis) levou-me a aceitar o convite. E o fiz como muita satisfacao, sentindo-me honrado por levar a bandeira de Benguela para um forum onde normalmente Luanda preenche todos os lugares. Em numero de 7 o juri reunira mensalmente na capital do pais, onde fara a analise das obras potencialmente candidatas aos premios. No dia decisivo ditara entao a lista dos felizes premiados.
Prometo dar a minha contribuicao dentro de valores de respeito a nossa nobre profissao, pela etica, ajudando os demais membros com a experiencia que estou certo possuir em alguns generos do jornalismo.Que Deus me de a sabedoria para ser justo e imparcial nas minhas apreciacoes e na hora de debitar a minha opiniao ou decisao individual.
A todos vos os meus agradecimentos. Estou certo que acreditam que darei o melhor de mim.
Kandando e a promessa de mais uma historias das minhas viagens de moto nos ultimos dias pelas lindas paisagens e estradas do nosso belo pais.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Escola de Conducao Formula 1 no Bailundo
Tera Lewis Hamilton passado por aqui? Ao chegar ao Bailundo nao resisti a tentacao de pedir a um passante o obsequio de clickar para nao me chamarem mentiroso quando contar esses mambus. "Escola de Conducao Formula 1". Pelo nome prepara pilotos de corridas que aqui sao os nossos mui "amados" candongueiros dos hiaces azuis e brancos, verdadeira praga nas estradas.
Nando mui grato pelos conselhos. Mestre, claro que procuro um companheiro, mas esta dificil. Nao pode ser uma mota velha e nao pode ser um motoqueiro qualquer. Tem que ser um motard, que partilhe do espirito de motard. Ha dias rolei alguns quilometros com um grupo de Luanda com boas motas, mas logo tive de deixa-los. Para ja montam mal, estao constantemente a alterar o ritmo do andamento, fazem ultrapassagens desnecessarias e acrobacias que se podem tornar perigosas com a velocidade, acima dos 150 km/h. Eu andei na estrada com um velho motard, o Rui Iglesias e aprendi muito com ele. quando o governo e Unita assinaram o acordo de Bicesse em 31 de Maio de 1990 (foi isso, nao?) fizemos a primeira viagem para Luanda. Na altura tinhamos as BMW da serie R, com os motores de cilindros opostos, as chamadas boxer.Boas maquinas. Mantinhamos um ritmo proprio de andamento e quando nos revezassemos na dianteira, faziamos essa manobra de forma bastante controlada. O que nao se passou agora com os camaradas de Luanda quando picamos para o Lubango. Cheguei a conclusao que os mais-velhos tinham razao quando diziam que as vezes e melhor so do que mal acompanhado. Para mim o motard tem um espirito proprio. Se surge algo insolito ou uma paisagem merecedora de registo, eu paro, fotografo, disfruto. Paro muitas vezes para conversar, procuro interagir com as pessoas. Assim vale a pena. Direi mesmo que procuro diluir-me completamente na aventura e tirar dela o melhor. Pressa nunca. " O meu rumo e o Sol/ O meu companheiro e o Vento". Kandandu.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Preparativos para o Raid Benguela-Maputo em Moto
O projecto esta na forja e vai vingar: o objectivo e ligar de moto as cidades de Benguela e de Maputo, em Mocambique. Darei oportunamente mais informacoes sobre este raid que penso realizar antes do Natal. A maquina esta preparada mas existem outras necessidades, para as quais estamos a solicitar patrocinadores. Se Deus quiser conseguiremos. Ha 3 semanas iniciei o programa de preparacao. Primeiro aconteceu uma ida ao Lubango e volta. Depois uma esticada ao Cubal e volta. Neste fim de semana o destino foi o Huambo e Bailundo. Desenferrujar os ossos, melhorar os reflexos e perder uns quilitos. Um programa que inclui a parte de treinamento fisisco, propriamente dito e o casamento com a moto. Deste final de semana verdadeiramente extraordinario contam as fotos que vou publicando. Foram cerca de 900 quilometros percorridos em dois dias. Assim vamos ganhando a forma desejavel. Vou falar-vos tambem da maquina escolhida, a fenomenal Moto Guzzi modelo Stelvio de fabrico italiano. 1200 cc com 4 cilindros em V capaz de debitar uma potencia maxima de 105 cavalos e transmissao em cardan. Ma che bella machina!!
A foto: Londuimbali, provincia do Huambo a paragem obrigatoriamente e o registo da praxe para a posteridade clicada por um fotografo que era apenas um homem sentado a berma da estrada e via os carros passarem."O mano m'ensina eu faco, obrigado". Havia saido do Huambo por volta das 11h da manha de Domingo, 26 Setembro. Um regresso ao bau de recordacoes dos tempos de guerra que ja la vao. Que sensacoes assaltam o coracao de um homem ao passar de moto na mais completa Paz pelos mesmos locais onde sepultou o seus camaradas? Os pneus da potente moto giram sobre o asfalto negro onde antes as lagartas dos tanques rangiam entre ravinas e crateras de minas.O testemunho de um pais que saiu decidido dos escombros e agora mostra a singela face do progresso; pequenas coisas que transformam em realidade o tudo que sonhamos um dia. Lembramos os que jorraram generosamente o seu sangue, os que ficaram estropiados para o resto da vida.Que a Patria nao os esqueca nunca!
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
O Lapso das Donas Marias de Portugal
Os meus agradecimentos a chamada de atencao do Sr. F.B. que permitiu corrigir o lapso, pelo qual peco sinceras desculpas. De facto se trata de D. Maria II de Portugal, de seu nome completo Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança; Nasceu no Rio de Janeiro em 4 de Abril de 1819 e morreu em Lisboa a 15 de Novembro de 1853. Era filha do rei D. Pedro IV (Imperador do Brasil como D. Pedro I) e da imperatriz Leopoldina de Hasbsburgo . Foi cognominada de A Educadora ou A Boa Mãe, em virtude da aprimorada educação que dispensou ao seus muitos filhos. Foi a 31ª Rainha de Portugal e dos Algarves, d’Aquem e d’Alem-Mar em Africa, Senhora da Guine e da Conquista, Navegacao e Comercio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia.
Quanto a D. Maria I de Portugal (Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança)esta nasceu em Lisboa em 17 de Dezembro de 1734 e morreu no Rio de Janeiro em 20 de Marco de de 1816. Foi rainha de Portugal de 24 de Marco de 1777 a 20 de marco de 1816, sucedendo ao seu pai, o rei D. José I. Ficou conhecida pelos cognomes de “A Piedosa”, devido à sua extrema devoção religiosa. E finalmente como “D. Maria, a Louca” (assim chamada no Brasil), devido à doença mental manifestada com veemência nos últimos 24 anos de vida, depois da morte do seu filho primogénito, que ela se recusara a vacinar contra a varíola por motivos religiosos.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Os Caes e Os Galos da Colombia
Vivíamos na pobreza sim senhor, mas o nosso Rex, não era um cão tinhoso, tipo aqueles que para ladrar precisam se encostar a parede para não caírem, como acontecia nas cenas contadas pelo tio Garcia no seu regresso da Colômbia. O tio falava da miséria que encontrou numa aldeia típica no meio da floresta amazónica chamada Ayacucho, muito longe de Bogotá. De tão magros, os cães do povoado latiam apoiados na parede para evitarem tombar. Por essa via resultava fácil descobrir onde os infelizes caninos se acoitavam para dormitarem. No chão ficava a baba peganhenta coberta por nuvens de moscas esverdeadas. As carraças, que burras não eram, preferiam arrastar-se no solo a xixilarem de fome no pelo seco e sarnento dos tradicionais hospedeiros, autênticos cadáveres semi-ambulantes. Coitados dos perros de Ayacucho, apodreciam ainda vivos e praticamente já não corriam. Quando ousavam andar os ossos tilintavam dentro do corpo frágil como as lâminas de uma marimba desafinada: “-clic, clang, clic, clang!”.
Era assim na floresta tropical onde o tio Garcia esteve, lá na Colômbia, segundo as suas próprias palavras. Abaixo de cão só havia mesmo outro cão sarnento e mais nenhuma espécie de ser poderia reivindicar o lugar. Por aquelas bandas a escala hierárquica estava tacitamente estratificada num cruel prejuízo para os chamados melhores amigos do homem. Em contrapartida, os galos de briga eram venerados ate por generais fanáticos viciados em apostas enquanto faziam os preparativos do próximo golpe de estado para depor os seus colegas da junta militar em Bogotá. Os galos tinham direito a ração suplementar de milho para ganharem ginguzu e manterem a forma ate ficarem aptos a enfrentar renhidas batalhas contra outros galos valentes e bem treinados.
Meninos, não liguem o que o munhunguero do Garcia vos conta. O mundo é assim mesmo desde que é mundo, cada povo tem a sua cultura, palavras de sapiência da tia Zita, olhos e ouvidos vigilantes nas concorridas palestras do suspeito familiar regressado de uma inquietante e misteriosa aventura zarpada no convés de um cargueiro atracado no porto do Lobito, isso nos idos tempos do caputo, quando ainda estávamos em Novo Redondo.
Os povos do mundo têm culturas diferentes, os seus hábitos e os seus modos de vida, disse a tia com a intenção deliberada de neutralizar a crescente influencia do falante amazónico no seio familiar e na vizinhança, que naquele tempo éramos uma só entidade. Afinal o que é a diversidade cultural? Vejam: os Hindus, por exemplo, adoram as vacas sagradas cujo passatempo favorito é mangonharem por cima dos carris de comboio. O maquinista puxa os freios a fundo para não trucidar a vaca sagrada postada na via e lá consegue parar a tempo. Depois detém-se a composição de passageiros que vem de Kathmandu e a seguir mais outra oriunda de Calcutá. Isso dura ate chegar um trem recoveiro sem travões e mandar todo o mundo para os ares no meio dos ferrolhos retorcidos. Isso é na Índia. Enquanto isso, os Japoneses criadores de complexos sistemas electrónicos e fabricantes das mundialmente consagradas “Toyota Land-Cruiser” idolatram os lutadores de sumo, uns matulões vestidos unicamente com fraldas descartáveis que muita falta fazem as crianças nuas dos países subdesenvolvidos. Contudo, o facto não impede que alguns responsáveis do Unicef, o Fundo das Nações Unidas para as Crianças sejam Japoneses. Na Papua Nova-Guine o pessoal tem como luxo espetar tacos de madeira nas profundezas das narinas e nem sequer espirram. Depois vão deglutir uma iguaria preparada com os olhos extraídos em fresco dos cadáveres dos familiares.
Quanto ao assunto dos cães da Colômbia ventilado pelo Garcia, é opinião abalizada da tia Zita que se os kambuas de lá chegam a esse estado de depauperamento é porque também fumam cangonha, ou sei lá essa coisa que falam no rádio, se é cocaína se é quê. Nesta altura da conversa faz-se um silêncio impenetrável, o tempo necessário para a tia engatilhar estrategicamente a arma e disparar a cruel pergunta do costume, que tanto constrangimento causava ao palestrante: – “ Em vez de estar a ensinar malandrice nas crianças, qualquer dia o mano Garcia ainda nos vai explicar tintin por tintin o que andou a fazer nessa tal Colômbia”.
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